domingo, 16 de novembro de 2025

para o seu governo

ainda dói não passa
parece uma hérnia de silêncio
um corte que pede bisturi
e não sei onde abrir
nem se quero desvendar

nunca tinha sentido assim
a gente tá aí pra se arrebentar né
cair pra levantar de novo
tão excitante quanto assustador

pela primeira vez em anos
tô revisando as fundações
tudo que já me sustentou
o cimento, os mitos, as crenças, os remendos
há rachaduras no piso, no teto e nas paredes
e mesmo assim sigo morando em mim

a última vez que me faltou chão
foi com ajuda de tecnologias sagradas
vi cores, sobretudo azul
fractais desenhando o infinito
o silêncio tinha forma de névoa

uma presença diminuta
quase não vi só senti
mudou devagar mas fundo
meu corpo, minha mente, meu tempo
devo tanto à floresta

e quando faltou chão de novo
os pés tocaram a terra da mata
rizoma buscando nutrição
enraizando pra sustentar
o que ainda vai nascer

sábado, 15 de novembro de 2025

entre o que foi e o que será

esperando que nem uma pedra
um cristal duro, rígido, quase estalando 
meus músculos se enlaçaram em nó
nesse recolhimento do movimento
como se o corpo prendesse o próprio brilho

dei vários passos atrás
pra tentar dar o impulso
corri contra o vento do tempo
e no último instante
recuei

a coragem vem assim mesmo
arranhando as beiradas do medo
tremendo mas indo
ensaiando no precipício
até que o salto aconteça

tô ficando encurralado
entre o que foi e o que será
se eu não pular
não vai sobrar nada
só um punhado de pedras brilhantes
que encantam o olho
mas não são pilares de nada

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

malamanhado

já dizia vovó
o mar não tem cabelo
mas bagunça os meus
sussurrando no pé da orelha
ventania apaixonada

sim podemos conversar
a gente só não tem tempo
pro que a gente não quer
eu não escolhi a distância
ela só foi crescendo
enquanto segui em frente

o gozo é lamber a ferida
macio, quente, profundo
e o amor é o limite
a linha tênue onde o corpo
reconhece o desejo

só o amor permite
ao gozo se entregar sem culpa
subir, tremer, dissolver
voltar a ser espuma

quem quer dá um jeito
não me rendo
mas me desmancho
quando o desejo acerta meu nome

eu só queria que fosse você
a ferida que arde
o tempo que cura
o desejo que chama
o gozo que acalma
o amor que transborda

domingo, 9 de novembro de 2025

vai ficar bom

vovô amava cuidar da saúde
foi ele quem me ensinou
que o corpo é o nosso primeiro templo
e que só a gente zela por ele

vovô odiava médico e hospital
foi ele quem me ensinou também
amava a verdade
mas temia resultado de exame

as contradições que nos formam
somos poços profundos
cheios de correntezas contrárias
desajeitadas e sinceras

vovô tinha dois protocolos de cuidados básicos
o primeiro simples e mágico
esfregava rápido os dedos indicador e médio
até acender um fogo invisível nas pontas
depois pousava os dedos quentes na ferida

se você prestar atenção
o que vovô fazia era convocar o corpo
pra olhar pra si mesmo
"olha aqui, ó. o que é que há?"

era o primeiro protocolo
atenção, presença, toque, calor
aqui, agora
feitiço ancestral

o segundo protocolo era só uma frase
algumas palavras que vovô sempre dizia
e que por isso completavam o feitiço
"vai ficar bom" e sorria confiante

o segundo protocolo era a fé
a crença bruta, simples e luminosa
de que vai dar certo
e se não der vai assim mesmo

a cura também é continuar

sábado, 8 de novembro de 2025

modo avião

eu menti
disse tudo bem
que era por calma
mas era medo

eu amo ser ausente
amo a leveza de não estar
a liberdade de não ser lembrança
há paz no sumiço
 
eu amo o modo avião
feitiço contra o mundo
manto invisível de ruído branco

eu amo fazer o que eu quero
mesmo que o querer doa
mesmo que seja só o desejo
de não desejar nada
e isso é revolução

eu me apaixono mas me afasto por medo
o amor é uma frequência perigosa
às vezes vibra tão alto
que pode estilhaçar o peito

eu amo ser namorada
antes mesmo de namorar
ensaiar o toque
onde nada dói e tudo promete

eu sempre sumo
quando algo me incomoda
sinal de fumaça na ventania
rota de fuga sináptica

eu amo dormir
acessar o vazio
criar sonhos
e vivê-los no tempo certo

eu amo amar
mesmo quando só ressonância
um sorriso que ainda escuto de olhos fechados
mesmo quando as ondas cessam
e tudo o que resta é nuvem

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

recortes fantasmas

aquilo que é esquecido
se repete

e agora
você lê
está aqui
o momento presente

desliguei o motor
mas deixei as luzes acesas
a bateria morreu completamente

o que deveria ser uma viagem linda
com belas paisagens
virou travessia ansiosa
lágrimas sobre decisões de vida
e belas paisagens

quando as coisas apertam
é bom estar com alguém 
pra transformar em chacota

sozinho o erro mais simples
parece o fim do mundo
mas não é

um dia após o outro e uma noite no meio

véu não é muro
é convite
a hora mais escura da madrugada
é sempre prelúdio do nascer do sol
é do breu que o brilho se alimenta

qualquer coisa eu quero dividir contigo
tem como não po
é felicidade pura
em forma de som, batida, ritmo

a todo instante tu ta aqui
cada vez mais em forma de nuvem
alguém me disse pra soltar
mas eu firmemente disse:
não.

te agarrei pelas falanges do mindinho
depois entrelacei nossos depois
nos lancei em direções opostas
num abraço apertado
os braços deram volta completa
e só acharam fumaça

me abracei com força
balancei para me equilibrar
enraizei para alcançar o céu
e minhas raízes aéreas
se juntarem às terrenas