terça-feira, 27 de janeiro de 2026

sufoco

por favor
me ajuda
to afundando
não sei o que fazer

não tô sentindo nada
se eu tiver errado
por favor
me deixa viver

não vai embora
tô aqui
sem fôlego
trôpego
tentando me equilibrar

me tira daqui
prisão sem paredes
me devolve a paz
me deixa seguir

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

recife mandou me chamar

errado por linhas tortas
vai porque quer
falta de carinho não é

todo recifense quer voltar
morre de saudade
marca viagem 
mas não resolve

até o próximo carnaval

amadurecer é descobrir
um jeito bonito de amar
guardar a saudade em silêncio
lembrar sem ferir
soltar devagarinho

o que foi virou água
o que vem ainda é neblina
só no agora
recife está dentro de mim

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

o que é do homem o bicho não come

se prepara
os tambores anunciam 
silenciosos
você vai vencer

axé
ancestralidade
continuidade 
fio que sustenta
quem nunca partiu

o sagrado
o profano
dançam juntos
colados pele e suor

toda regra treme
toda ordem vacila
o corpo lembra

é proibido
mas se quiser
pode


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

não retornado

cavando espaço
nas últimas folhas verdes
garimpando cristais de gelo

faz morada fixa
mas leva a casa nas costas
até estourar a hérnia
disco quebrado

travou no brega
na tecnologia
na malemolência
acostuma os tímpanos
até preencher os poros

vira o próprio labirinto

não desiste da andada
seja por quais meios
mãos ou pés
ou cerebelo

começou com outra intenção
se transformou no caminho
atropelou a si próprio
na ida
na volta

acima
abaixo
dentro
fora

ora consumindo
ora excretando
fluxo líquido
na busca do outro

jamais retornei
me encontrei
desemoldurado

curvas abertas

como se defender da lógica
quando ela invade uma sensação
querendo recortar todas as curvas

planto bananeiras num chão instável
fico de ponta-cabeça
pra confundir o labirinto

colho raízes tortas
que insistem em me sustentar
mesmo com as pernas no ar

gosto de surpreender
talvez porque a curiosidade
seja a minha forma de permanecer

íntimo da possibilidade
provoco com a continuidade
evoco a liberdade

ainda aqui
ora correndo contra o tempo
ora lutando contra a matéria

o corre nunca acaba
mas aprende que o processo é lento
amarrado no quadril

sou esse que fica
depois das despedidas
ainda torce o pescoço

domingo, 4 de janeiro de 2026

desejo, repetição e recusa

o dia que nunca acaba
acorda sempre na mesma falta
a sombra que entra igual pela fresta
se retroalimenta num ciclo vicioso
o corpo reconhece o roteiro
antes mesmo de abrir os olhos

o mesmo dia se repete
não por magia
mas por insistência
parece preso num ciclo
que se sustenta na estagnação
como um motor dando corte

não é exatamente uma ilusão
é uma realidade moldada à mão
pelo desejo de permanência
pela recusa em acordar
de um sonho
que há muito tempo virou pesadelo

viver eternamente no mesmo dia
é uma forma lenta de morte
sem ruído
sem ruptura

sem mudança
o amor perde peso
vira hábito
repetição sem risco
promessa sem corpo

aceitar a impermanência
não é desistir
é aprender a atravessar
o medo de perder
para que algo
ainda possa
acontecer

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

implosão supernova

desejar ardentemente
habita o mesmo campo
que anular absolutamente

resta descobrir
quem primeiro
se o outro
a si próprio

ou se ambos
em perfeita combustão
clarão fulgurante
até colapsar

não sobrar nada
núcleo de cinza preta
atmosfera de fumaça densa
girando sem órbita

tu já sabia
e ainda assim fosse
talvez seja essa
a resposta possível

embora essa categoria
esteja em disputa
instável
mudando de forma
mais uma vez