sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Não posso falar tão abertamente

Mas que bom que vivi tempos ásperos. Que bom que tive o privilégio de não sair ileso, mas poder continuar. E faço questão de pontuar que não intento em glamourizar o sofrimento ou, pior, tê-lo como condição necessária para atingir qualquer horizonte.

Mas é impossível não fazer a mesma leitura repetidas vezes: como realmente é impactante sair da zona de conforto; mas, por favor, que esse movimento não seja subestimado.

É importante que se observe as consequências dos nossos traumas para tentarmos ao máximo uma passagem fluída.

Fica difícil, porém, quando olhamos para trás e percebemos que já perdemos de vista o brilho de dias tranquilos. É isso.

Será que é isso?

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

fraud syndrome ou feedback

Recentemente mudei a dieta das minhas terapias; transpareci internado.

[aperta]

Pra que tanto suor e lágrimas? Pra quem eu ligo? Tenho alguém? A gente tinha alguma coisa?

[acende]

Hoje vai ser diferente. Agora vai. Tem que ser. Vai dar certo.

[puxa]

É um trocadilho simbólico a vida.

[prende]

Com certeza um dos momentos mais difíceis da minha vida. Vai passar.

[passa]

Pra quem eu ligo?

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Lembrando ~autocorrect

Eu era fogo.
Curiosamente,
o elemento que se aventurou de forma mais profunda nas minhas chamas,
a água.

Achamos estabilidade no abrandamento do meu calor.
E o vapor me circundava e penetrava. 

Antes do fim, o vapor condensou e precipitou.
Restaram cinzas e fumaça preta.
Devastado.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Situando-me

Aguardo pensativo, sentado num banco da Praça de Casa Forte em frente a 17 de Agosto. Percebo as pessoas que passam apressadas olhando seus celulares; carros e ônibus passam com igual pressa. O mundo pulsa freneticamente.

Casa Forte, um bairro de classe média-alta, onde os necessitados andam timidamente, alguns beirando a loucura por falta de amparo. Beirando a loucura talvez por sequer serem notados em meio ao frenesi.

Encontro-me rodeado de prédios luxuosos, restaurantes caros e carros mais caros ainda. Ao passo que vejo multidões sem ter o que vestir, o que comer, onde dormir. Um povo sem esperança.

Enquanto essa parcela perece, a nova geração - filhos e filhas da classe abastada - vivem seus dias de abominável consumo. Felicidade equivale a uma grade cerveja ou alguns litros de vodca. E se for Absolut Black vale até uma foto no Instagram.

domingo, 24 de abril de 2016

O Grande rio

Eu era água, e numa chuva caí em um rio em particular, um rio que a princípio não parecia mais que um pequeno riacho; suas águas claras e rasas, sua corrente fraca. Assemelhava-se a apenas mais um rio para se banhar, beber um pouco de sua água e seguir em frente sem mais delongas.

Apesar disso, suas águas tão comuns tinham algo de convidativo - uma vez dentro era difícil sair. Não era possível enxergar motivo para tanto. Mas por que sair? Tudo que se precisa está ao alcance. Era confortável.

Permaneci na superfície por algum tempo. Fechei os olhos e foi bom. Até que percebi que a paisagem tinha mudado. A corrente, por mais fraca que fosse no início, exista e quando dei por mim estava em um ponto avançado e desconhecido do rio. Nesse momento o rio se mostrava surpreendentemente profundo e largo. Suas margens não existiam, eram grandes falésias. Impossível de escalar.

Rios dessa magnitude apresentam potenciais perigos, intrínsecos a sua natureza, e devido a muito calejamento atentei para tudo. E o resultado foi o medo. Não conhecia aquele lugar e um temor crescente tomou conta de mim. Mas os minutos passaram e tudo continuou bem. Aos poucos fui oprimindo aquele sentimento inicial, mas minha imaginação pregava peças - algo estava sempre além do meu campo de visão, algo abaixo de mim, na profundeza das águas. Mesmo dessa forma segui o curso das águas, porém desconfiado, nunca inteiramente entregue aos prazeres daquele lugar encantado.

Essa desconfiança me acompanhou durante toda trajetória. Ora fortalecida, ora enfraquecida, mas sempre constante. E muito devido a isso não fui capaz de mergulhar mais que alguns metros, sempre que tentava logo entrava em pânico e voltava a superfície com rapidez desesperada. Algo me espreitava lá do fundo - ou assim dizia minha intuição.

Decidi que não mais mergulharia. Entendi que conforto estava em cima, não embaixo d'água. E assim fui. Mas não por muito tempo. Aquele lugar por mais encantado e confortável parecia não me pertencer. Da mesma forma que eu não pertencia àquele lugar.

Finalmente percebi que não tinha o que ser feito. A solução não era fugir do rio. Percebi que a solução era esperar o mar e encontrá-lo de forma doce.
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Caminhos se cruzam e se separam. E seguem.

É como um rio; às vezes profundo e calmo, outras raso e violento. E uma verdade: nunca saímos de suas águas da mesma forma que nela adentramos. Porque suas águas nunca são as mesmas. Tudo está em constante movimento. Como apontou Heráclito, não poderás entrar duas vezes no mesmo rio.

Mas se tudo é mudança então nada é mudança. É um paradoxo. Lemmy e Jacob Hemphill demonstram esse conflito.

"Everything changes, it all stays the same" Love me forever, Motorhead

"Nothing ever changes, the only thing I know, nothing ever changes
[...]

So everything changes, nothing stays the same and everything changes" Everything changes, Soldiers of Jah Army

terça-feira, 1 de março de 2016

Último verão

Enfim aconteceu. Depois de tantos trancos e barrancos enfim aconteceu. E (hoje) parece que não podia ser diferente. Engoliu o choro e ergueu a cabeça. Ainda resta o choro da alma; e esse não se vai, mas já dá sinais de fadiga.

O que parecia impossível, inconcebível e inaceitável está acontecendo: o verão findou. Os tempos agora são incertos, é verdade. Mas a morosidade do outono passa, o ar gélido do inverno também; e fica a promessa de uma calma primavera e um ardente novo verão.

E o que ficou foram as lembranças, os sentimentos, os gostos, os cheiros e o silêncio. Silêncio eloquente, ensurdecedor. Mas guardo, porque sei que foi verdadeiro.

Mas não aconteceu.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Da espera

A reunião estava marcada para às duas horas da tarde, mas o relógio ainda marcava nove horas da manhã mais meia dúzia de minutos. Uma lacuna de quase cinco horas de repente ficou evidente e pesada; seu único compromisso além da reunião era o almoço. Como preencher esse vazio?

Não movido pela razão, a primeira coisa que fez foi se afastar das pessoas, das que o conheciam, virar mais um na multidão. Em um cantinho escuro só seu, achou sua necessária solitude e escutou, viu e sentiu. Saiu da ciência em direção às artes, do exato para o abstrato. E dessa forma, foi.

Pedindo calma a si próprio, lembra que sexta-feira tem prova. Prova! Estudar. Tranquilo. Leu e escreveu. Isso é estudar? Deve ser, talvez seja. Mas não importa, o tempo não está sendo em vão. E era bom.

O relógio marca onze horas.

Impaciente decide que já é hora de almoçar. E foi. Fila. Mais espera. Angústia, impaciência, raiv... Passou. Inspira. Passou. Almoçou. E agora? Onze horas e trinta minutos, ainda faltam duas horas e meia. Muito tempo. Estudar? Deveria, mas a concentração já não existe.

Deita e dorme. Funcionou! Já são doze horas e quarenta e cinco minutos. Indaga-se se já deveria ir para reunião? É o jeito. E foi. Chegou ao local exatamente às treze horas e vinte minutos. Ainda não havia ninguém. E agora? Escrever pareceu uma boa ideia. E foi.

São treze horas e cinquenta e nove minutos.