domingo, 14 de setembro de 2025

não pare

quando não souber o que fazer
corre.
se movimenta, desliza,
descola do chão que te prende,
atravessa portais invisíveis.

apaga a luz,
acende os olhos,
deixa o corpo ser guia da própria vertigem.

a cor é verde:
suco amargo de hortelã-pimenta,
adstringente que raspa a garganta
pra deixar passar.

não fica nada.
nem pensamento, nem saliva.
não serve chá:
serve grito, canto, palavra cuspida no papel.
deixa a espuma do instante acalmar.

quando sentir demais,
não procure razão pois não há.
quando a razão pesar demais,
não encontrará sentimento.

são pesos e contrapesos,
um pêndulo cego
tentando desenhar equilíbrio
num corpo que nunca para de oscilar.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

murro em ponta de faca

pancada contundente com a mão fechada
cada nó atuando como pára-choque
mas é pele, carne e ossos
entre cada dedo vãos finos
por onde a lâmina pode se encaixar sem me machucar
painho me ensinou a colocar a mão espalmada na mesa
com os dedos bem abertos
e passear a ponta afiada pelos vãos
cada vez mais rápido
até que vire espetáculo
até que deixe de ser real
acho que consigo encaixar entre os dedos sem me machucar
depende da velocidade
quanto mais rápido mais imprevisível
a certeza na verdade é que não vai dar certo
mas eu me jogo mesmo assim
sempre fui inconsequente, teimoso ou determinado
depende se tu gosta de mim
mas eu gosto de tu
e aí sou isso tudo ao mesmo tempo
se der errado, deu
vai assim mesmo
levanto pra cair de novo
aprendi isso também
a gente espera o certo e lida com o errado
vai assim mesmo
o importante é não deixar de ir
mesmo sabendo que a mão pode sangrar
vir

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Umbigado

hoje demorei pra dormir,
negociando com a ansiedade em parcelas que não cabem no peito,
tentando remediar o vazio com listas de tarefas
que não se cumprem.

será que ler acalma?
ou escrever pra deixar escorrer a dor pelas letras?
talvez um chá de camomila, ou mulungu,
talvez fumar um chá,
ou deitar em posição de lótus
e inventar uma respiração capaz de se presentear.
lavar o rosto, fechar os olhos,
convencer o corpo a descansar.
mas não há resposta certa.
para o que não há remédio remediado está.

tô sentindo saudade dela.
tô sentindo falta dela.
tô sentindo ela indo embora.

indo.
no gerúndio.
flagrante da ação em curso,
um verbo que não se resolve,
que não chega ao ponto final.

aqui, agora, do meu lado,
ausência presente.
indo.
embora.

indo
embora,
não demora
a virar coisa rara.

o mundo foi com ela.

talvez seja porque
eu beijei o seu umbigo,
e nesse gesto mínimo
abriu-se uma fenda,
sem atalho
talhou meu coração.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Desaniversário

quero que o dia acabe.
cada passo é só movimento sem alma,
matéria sem energia.

quero que a semana passe,
que o fim de semana também se dissolva
antes mesmo de começar.
os sonhos viraram poeira.

quero que os meses abençoados
me atravessem sem piedade,
queimar calendário após calendário
até que as estações percam o nome.
não sei mais diferenciar o frio da espera
do calor da esperança.

quero que o ano acabe.
meu aniversário já não tem data,
não há velas, nem bolo, nem voz alguma.
não há o que comemorar.

havia sentimento, isso ainda sei.
mas futuro?
não.
apenas um vazio iluminado,
onde o tempo se arrasta em sombra líquida.
tento decifrar se sobreviver
é esperança ou ilusão.

domingo, 7 de setembro de 2025

espiritualidade pragmática

disseco causas e efeitos
abrindo o corpo folheando páginas

mergulho em traumas e performances delirantes
com ferramentas que não são bisturis

procuro a fenda onde a armadura começa,
onde o ciborgue se refaz e se reproduz,
versão após versão,
cada gesto gravado em código de afeto e cicatriz

é algoritmo ou pulso elétrico?

se constrói no meio do colapso,
metade ferido, metade circuito
camadas, restos, próteses invisíveis

o controle é uma ilusão
carne e código,
falha e fabulação

a vida segue seguindo

tudo que eu queria era todo dia
te acordar e te cobrir de beijos

de novo chegamos bem pertinho 
tão perto que até falei
seja bem vinda de volta

mas a primavera não veio
hoje nublou, choveu e fez frio

teu suéter ficou aqui, esquecido no cabide
ainda guarda o cheiro doce, mas não aquece
falta o teu corpo dentro

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

beco diagonal, buraco da alice ou portal de moria

a porta, enfim, se abriu. depois de meses delirantes, teatros e silêncios, finalmente uma frestinha se abriu. pequena, quase tímida, mal deixando o ar circular. no breu, um olho suspenso investigava o ambiente antes de arriscar revelar um pouco mais do corpo. a mão permaneceu firme no trinco, segurando não só a madeira, mas a própria vida. pronta para fechar de novo ao menor sinal de perigo, ao mais breve gesto que lembrasse um pretérito mais que imperfeito.

eu esperava do lado de fora, sem pressa, deixando apenas o tempo respirar por mim. não trouxe promessas fáceis nem palavras ensaiadas. mas o desejo de construir algo novo, com a calma e a inteireza que antes não sabiam de mim.

sei que a porta pode se fechar a qualquer momento, que o trinco pode estalar de novo e me devolver ao lado de fora. mas se acontecer, não partirei vazio. levo comigo o compromisso de fazer tudo o que não fiz antes, ainda que sem garantia de retorno.

eu lia nas entrelinhas, nas linhas, no rodapé e nas notas escritas à mão no canto de cada página, lia medo e resistência, mas também uma vontade escondida de acreditar. porque apesar dos traumas, apesar do abismo cavado entre nós, há ainda uma verdade que pulsa; e nela se desenha um processo de cura.

a porta não se abriu inteira. apenas o suficiente para deixar passar o ar doce da primavera.