domingo, 21 de setembro de 2025

o paradoxo da ruína

põe ordem no caos
mas se afasta do real
a razão acontece na mente
o real vibra no corpo

erguem-se pilares da razão
diante deles
em um ato de fé
é preciso ceder
ao murmúrio dos sentidos
à vertigem do instante
ao que se esconde nas frestas
da racionalidade

pilares pra sustentar
e ter onde pisar 
mas não lamentar
ao caminhar sobre ruínas
aprender a trilhar
entre abismos

mergulhar em cada buraco
descer aos cantos mais íntimos
despindo peça por peça
até que o medo se dissolva
e do corpo surja
um poder secreto
ardendo como verdade

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

sangria dourada

durante quase um ano
por todos os poros
tu me fez curar
metade de uma vida

ainda quero acreditar que é
mas quero ainda mais acreditar
que, se for pra ser, será

no horizonte
um brilho intenso
tudo alvo, tudo em excesso
ver demais também é
uma forma de cegueira
transe hipnótico
lisérgico, catártico

o encontro de midas e medusa
pode ser breve, fatal
mas também pode reinventar o sentido
recompor a cerâmica quebrada
soldar com fogo as rachaduras

e nas frestas do que partiu
o ouro escorre cintilando
revelando a beleza da falha
ferida que transmuta em mapa
caminho pra outra vida nascer

que seja inteiro, mesmo partido
que brilhe, mesmo pelas cicatrizes
é no que se quebra
que o infinito encontra forma
e nos devolve ao tempo
renovados, fragmentados, inteiros

terça-feira, 16 de setembro de 2025

diamantes, lágrimas e rostos para lapidar, sublimar e revelar, respectivamente

todo dia vai ser uma tortura
até que não seja mais.

hoje de manhã acordei
e durei dois instantes.
limpos,
feito diamante.
sem pensar em tu.

envolto num sonho qualquer,
um lugar estrangeiro de sentido.
na investigação, lembrei.
tu não tá mais aqui.
lá estava o tópico, imóvel, insistente.

o hiperfoco voltou.
saudade montando guarda.
tristeza sentinela.
parece que só é digno sofrer.

ontem notei que não chorava tua partida;
ensaiava a expressão no rosto.
dor, insatisfação, desconforto.
proibido trocar a máscara da tragédia.
mas não havia lágrimas.
não havia mais nada.
secou.

quando menos esperei,
meu rosto foi torcido, rasgado
e me pus a chorar no meio da rua.
baixei a cabeça
todo esse pranto também não seria digno.
não restava nada que parecesse digno.
fiquei no limbo.
meu mundo não existe mais.

um dia talvez
acorde
e dure mais que dois instantes.
um dia
descansarei o rosto e os olhos,
e a dor será lição e não território.
por agora, ainda exploro o terreno
e decoro mapas na mente.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

tem mas tá em falta

desliguei todos os estímulos
queria ficar só na minha presença
e mais uma vez
a inquietação

"é pra fazer o que agora?"

ponho um caderno na minha frente "escrever?"

recuso de início,
percorro com os olhos as bordas do quarto
baseado aceso entre os lábios

já risquei tantas tarefas da lista
mas nada me atravessa como vitória
tudo em suspenso

olho de novo
reconheço o entorno
cada objeto devolvendo seu contorno

mas tá faltando
tem mas tá em falta
escorreu entre os dedos da minha mão
água que foi feita pra fluir

virou traços, palavras, rabiscos
gritos abafados em folha verde
e tons pastéis que escondem excessos
tentativas tímidas de fé

"escrever e acreditar"

qué, fí

fermento por dentro.
microvidas conspiram em revoluções silenciosas,
nas minhas entranhas dançam assembleias invisíveis.
sou campo de cultivo,
mangue de transformação bioquímica,
um ecossistema em revolta doce e lenta.
comitê revolucionário visceral.

a digestão não é só quebra de moléculas,
é decomposição cultural.
cada célula epitelial do intestino
carrega mais decisão que qualquer algoritmo de vigilância.
sou permeável.
engulo o mundo, deixo ele me atravessar,
tecnologias entéricas que selecionam o que fica,
o que vira energia,
o que se dissolve em nada.

o intestino é meu segundo cérebro,
mais antigo, mais esperto.
ele não julga, só sente.
enquanto o cérebro pensa em palavras,
o intestino pensa em ácidos,
materna bactérias,
cultiva futuros possíveis,
engole o tempo e devolve vivo.

decompor estruturas rígidas,
dissolver categorias,
transformar o cru em algo digerível.
ser saudável, hoje,
é suportar ser invadido,
permitir que nos mastiguem,
nos processem,
nos integrem.
sou, sobretudo, poroso.

e se há um futuro,
ele começa no estômago,
onde o tempo não é cronológico,
mas químico,
um calendário de enzimas
marcando a história na língua.

sol em câncer

o amor é um fio de ventríloquo,
teia cósmica,
tecendo linhas que me puxam os dedos,
que me inclinam o rosto,
que ditam palavras que não reconhecia antes.
feito dobra de sangue,
eu me entreguei inteiro,
sem saber se era devoção ou feitiço.

o amor é também um fio de navalha.
caminhei no meinho,
um pé depois do outro,
equilibrando-me entre o tudo e o nada,
entre o beijo e o abismo.
mas tropecei para dentro
achando que era nos teus braços,
descobrindo tarde demais que eram teus pés.

por um fio,
quase acreditei na promessa de amar e ser amado.
agora resta o mangue, fértil e úmido,
cheio de criaturas que se alimentam dos restos do sonho.
cada raiz submersa guarda uma memória,
cada caranguejo cava o silêncio onde me escondo.

um chié corta o ar,
anunciando a maré que se aproxima.
não sei se ele chama a maré,
ou se a maré o chama.
sei apenas que ambos respondem,
como se o amor fosse sempre isso,
um eco de algo maior,
que nunca sabemos se nos pertence
ou se apenas nos atravessa.

sede da lüa

havia flores no jardim,
todas as cores possíveis,
quentes, vibrantes, quase incandescentes.

havia água adormecida nas sementes dos coqueiros,
rios inteiros escondidos em pequenas cápsulas,
escorrendo em direção ao mar,
abrindo caminhos invisíveis.

até que a lüa cheia rasgou o céu
revelando tudo que estava oculto.
a necessidade de tudo que não havia,
um cansaço antigo do ser.
a abundância virou deserto,
um esgotamento silencioso,
uma sede insaciável de paz.

em nome do amor,
as flores murcharam até virar cinza,
os coqueiros tombaram enfermos,
os rios perderam a voz,
não mais caminhos para canto nenhum.
e o mar permaneceu inalcançável,
miragem líquida no horizonte.

mas também por amor
é preciso semear de novo,
abrir sulcos na terra sedenta,
para que a água encontre passagem,
e o mar volte a ser destino,
não ilusão.