terça-feira, 7 de outubro de 2025

cortinas de fumaça

queria ter chegado mais cedo
ido embora mais tarde
te dado minha chave
e pedido pra tu ficar
queria ter ido embora contigo
ou talvez não ter ido embora

queria ter pra onde voltar
ter dito que te amava quando era verdade
ter te ouvido antes
ter te visto depois

queria ter sabido desde o início
que o ensaio não se repete

o não-voo

faz mais de um mês que carrego uma dor no trapézio direito
dizem que é estresse e ansiedade
mas parece que cortaram na carne

onde antes era asa, agora há um ponto de tensão
um nó cego
a lembrança do voo ainda latejante

já fiz de tudo pra parar de sentir
alongamento, yoga, compressa quente, compressa fria
massagem, ventosa
nada consegue desamarrar

num esforço desesperado acendi uma vela de sete dias
e deixei um bilhetinho embaixo
um pedido, uma oração, um suspiro

no início queimou tímida mas constante
nos últimos dias estava deformada
desfigurada, obedecendo outro sentido
não se via mais vela nem farol

a chama inclinava-se sobre o bilhete
roendo-o com paciência escassa
quando a cera derreteu por completo
o papel incendiou, a vela virou fogueira doce
e o ar cheirava a promessa queimada

precisei apagar por segurança
agora resta a cera derretida sobre cinzas
chão queimado e o eco do que foi dito

as palavras, antes pedidas
viraram fumaça preta no ar
e talvez tenham sido ouvidas



revolução da arte

cheguei em casa à milhão!
quase que eu não conversava contigo

e olhe que eu achava que seria não só necessário como fundamental
que se não fosse dessa forma
não seria de nenhuma outra

fiz menção de iniciar uma conversa contigo umas três vezes, bota fé?
e tá ligado que seria um papo super merda, né?
uma coisa tão alienante e exploratória quanto um checklist
eu ia pura e simplesmente lhe usar
esse era o fundamento

mas vê como as coisas são
eu fui repetindo uma ideia fixa na cabeça
que era inicialmente um dos itens da lista que eu não escrevi
eu repetia pra não esquecer
que nem um mantra
enquanto fazia outras coisas que estavam no caminho

descascar a banana
bater a vitamina
botar roupa pra lavar
fazer chá, etc

a todo momento eu fazia aquela última coisa
antes de sentar pra escrever
e, sem perceber
era isso que eu já estava fazendo

Marília

gosto profundamente desse nome
me veio imediatamente duas pessoas
não conheço nenhuma delas

uma parecia ser uma grande amiga
da minha mais querida professora
a mestra, como ela a chamava

a outra é tão distante que nem sei
mas é linda e isso me basta
lealdade, sabedoria e beleza
especialmente de alma
e ela certamente tem

vai dar certo
eu quero, eu posso, eu confio
eu vou

Fronteiras do ser

nem lá, nem cá
ele se esforça, é um bom sujeito
mas ainda não chegou lá
(nem está verdadeiramente cá)

está no meio do tiroteio
na linha do tiro
pronto pra morrer
vivendo no limite

quando pensa que tá chegando lá
é quando se sente mais preso
mais estagnado, mais retrógrado
é chato ser careta, não quero

ainda tem umas roupinhas pra estender
se tem um aprendizado
é que movimento gera movimento
e o contrário é lamentavelmente verdadeiro

então pelo menos
mantenha-se dançando no fio da navalha
nas fronteiras do ser
siga sendo

a morte, o diabo, o enforcado, a torre e o louco

[a morte]
to vindo aqui porque já não sei mais para onde ir
fui deitar cedo, pelo menos o sono ainda era refúgio
hoje não

[o diabo]
habitar esse corpo ta sendo custoso demais
oscila entre a esperança vã
e a agonia desmedida

[o enforcado]
dói em todos os lugares
uma dor específica, íntima, inventada
ver virar outra coisa
irreconhecível
em tão pouco tempo


[a torre]
tudo tão volátil
borbulhando, efervescendo, em erupção
a luz apagando, quase sem energia
a mente ainda ligada
a ventoinha não para de girar
o motor superaquecido


[o louco]
preciso urgentemente de uma oficina
preferencialmente do diabo
pois queria minha mente vazia

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

sonho crateroso

cortaram minhas asas
rastejei por semanas e meses
até que, aos poucos
elas nasceram outra vez
fendas dando lugar a um colorido novo

quando arrisquei os primeiros voos
vieram de novo com a faca velada
eu sabia do risco
era mais arriscado que um rasante no desconhecido 
mas fui por devaneio entorpecente 

vi minhas penas arrancadas uma a uma 
num gesto cotidiano 
dessa vez cortaram só uma asa
restando a outra deficiente 

recolhi cada pena
por devoção delirante 
remendei como pude
e me joguei no ar 

agora caio em parafuso 
perdi os pontos cardeais 
só um ponto suspenso, sem ligação 
não traça linha, nem indica direção 

espero ansioso pelo impacto 
temo que já tenha acontecido 
e que o parafuso esteja
apertado demais
e minha cabeça em parafuso
enterrada demais