sexta-feira, 27 de junho de 2025

Todas sextas são banais

É isso.
A dor vem menor, e vai embora mais rápido.
Mas o desejo, ainda tá aqui.

Te confesso que quase não quero mais.
Tô quase conseguindo soltar.
E não só ver partir,
mas partir também, mesmo partido.

E te confesso, sem entusiasmo
que me dói não doer como doía antes.
É uma nova dor, mesquinha.
Uma dor que não me reconhece.
Eu me identificava com a outra.

A antiga era honrosa, apesar de indigna.
Essa agora é desonrosa e indigna da mesma forma.
E, se eu pudesse escolher, nem sei qual dor escolheria.
A outra era incapacitante, agora é inconformante.
Nem sei.

Só sei que o tempo  passando.
Impiedoso, calado, sem dar satisfação.
Roendo tudo, mastigando memórias.
Quase não sobra nada.

E, mais uma vez, talvez seja isso.
Em silêncio. Sem imagem. Sem som.
E eu ainda nem sei se eu acordei.

Se tudo virou sonho,
o passado espia o presente
e o futuro.
Déjà vu.

terça-feira, 24 de junho de 2025

Uma entonação cantada pra fazer uma suposição

Não usei quadriculado esse ano. Nunca uso, pra ser bem sincero.
Mas esse ano foi marcante a ausência. Realmente.

Porque esse ano eu tava fechado em um pequeno quadrado. 
Ainda por cima, sem as cores, os giros e as fogueiras.

Dessa época junina só me restou o frio.
De noite e de manhãzinha. De noite derrubando logo qualquer um, de manhã insistindo em não se levantar.

E olhe que eu rodei. Mas rodei rodopiando, sem sair do canto. Rodei, rodei, rodei. E me vi no mesmíssimo lugar. No canto.

Montado na bicicleta da manhã, cantei meu canto. Ainda tem pelo menos um tanto antes de terminar essa travessia.

Viu, que dia é hoje ao redor do tempo?
Talvez dia de São João. Mas é só uma suposição.

domingo, 22 de junho de 2025

Cólera criativa ou redundância intencional

Ato I - Prólogo em cólera menor

Vamos exercitar um negócio aqui: seria cólera criativa o oposto complementar do ócio corrosivo? Não sei, mas tem duas luas cheias em que o sentimento está transbordando em letras, palavras, frases, parágrafos, ora versos, ora cantados, ora poético, ora apenas descritivo, ora direto, ora subjetivo, ora escondido, ora muito revelado, ora querendo dizer, ora apenas querendo ser escutado.


Ato II - Lar, ou a cena do encurralado

Encurralado onde deveria ser lar.

Ainda vejo cores quentes, vermelho, rubro, mas também negro, opaco.

Dá pra ouvir o sorriso de uma criança e, ao mesmo tempo, ecos de um passado distante e velho.

Quase carcomido mas que ainda guardo com carinho. Não sei por que não me desfiz ainda dessas lembranças, desses registros... Físicos. No início era pra mostrar para a pessoa que partiu o que eu ainda guardava. Depois, se transformou mais ou menos numa prece, numa reverberação, uma tentativa de reverberação no tempo e no espaço daquelas lembranças, daquelas memórias, daqueles acontecimentos. Como se esse gesto-ritual, fosse fazer acontecer de novo.


Ato III - A memória encena o medo

Depois, talvez tenha sido o medo.

O medo de esquecer o cheiro, o som, os gestos, os dias divididos, as memórias boas e ruins, os planos concretizados e abortados. Medo de esquecer e pelo esquecimento, essas memórias, essas lembranças se tornassem menos reais, menos verdadeiras. Porque a pessoa com quem você viveu essas... Essas aventuras, não está mais do seu lado pra dizer "bote fé, foi desse jeito. E digo mais!".


Ato IV - Epílogo da caixa de lembranças

Não vai dizer mais nada. Não vai mais dizer nada, vai só deixar um vázio mudo, sem som, nem cheiro. Só fotografias coladas numa caixa aos poucos sendo desgastada pelo tempo. Maio, Junho, Janeiro, Fevereiro. Os meses abençoados vão se sucedendo. E o que resta é a honra, a missão de honrar e de manter vivo tudo que passou. Com amor, carinho, saudade, com vida vivida e com vida para se viver. Enquanto houver vida. É isso.

sábado, 21 de junho de 2025

Talvez pior até

O turbilhão ainda não acabou.
Acalmou um pouco, é verdade.
Mas pelo menos pra mim parece longe de acabar.

Acordei igual.
Talvez pior até, por tá longe de casa, por não ter acolhimento,
nem possibilidade de ser quem se é no momento.
E aí, pensativo. Vários cenários alternativos.
Um deles me chamou atenção.

Por que, na hora do pânico, eu não dei um passo atrás e disse
"Calma, vamos resolver. A decisão é nossa agora, vamos construir juntos."?

Por que eu não fiz isso?

Aí, pensativo. Era um fluxo reverberando.
Um fluxo de uma historia de amor que tava muito adoecida.
Precisando de atenção, de presença e de verdade.
Eu não consegui fazer as escolhas certas.
Por medo, orgulho, dor, saudade, tristeza.

Errei.
Quase da pior forma possível.
Ferindo de morte quem tava perto.
Não dando nenhuma escolha.
Marchando por cima das flores que a gente tinha plantado.

Eu não me senti autorizado a romper com isso.
Não me senti autorizado a fazer de outra forma.
Como se eu ainda devesse um gesto, uma reparação ao que estava acabando.
E, nesse impulso de dívida, de lealdade ao que havia sido,
atropelei o que era vivo.

Talvez por isso ainda tão doloroso.
Parece que foi uma corda que arrebentou depois de ser esticada ao máximo.
E eu não consegui soltar, tava amarrada.
Agora, não há nada. Fiquei com o vazio nas mãos.
É preciso costurar o abismo ponto a ponto.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Dama de espadas ou compatibilidade cortante

Dividimos camas, colchões ou, simplesmente, suspensos no ar.
Banho juntos, conversas longas, beijos nas costas.
Dignos de reis, rainhas, ou talvez só valete de copas.

Puxar pra perto na alta madrugada.
Troca de olhares em silêncio. Promessas de mindinho.
Transar olhando no olho. Desejo pegando fogo.
Compatíveis, em combustão, olhos virando ao luar.

Cartas reveladas na mesa.
A sorte é minha quando você me encara assim.
O silêncio entre nós embaralha, cada respiração uma aposta.
À espera do seu jogo. Cabeça doida, coração na mão.

Dito isso, me esqueço até de mim.
Me entrego à partida, sem me importar com vitória ou derrota.
De uma forma ou de outra, vai me faltar uns pedacinhos.
Alguém que amou profundamente e teve que sobreviver a isso.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

atmosfera do abraço

to me vendo passando na cozinha, sem propósito. era uma rua estreita e sem saída, só tinha uma janelinha pra circular o ar. aquela meia luz de sempre: amarela, calma, quente.

era pra ficar mais perto dela. tipo a dança dos planetas em torno do sol. tem uma atração gravitacional que puxa. pra perto, pra dentro, pro fundo e pro alto.

três letras que não posso mais juntar. só de brincadeira agora. tipo, como se ninguém tivesse percebendo o óbvio, o ululante. como se eu mesmo não quisesse apontar exatamente o parágrafo, a frase, a palavra e as três letras. e fingir que era pretérito imperfeito. e dizer "massa, né?". ou não?

ela lá fazendo alguma alquimia. o olhar focado, as mãos habilidosas, o pé direito apoaido na coxa esquerda. passei atrás, alguma conversa onde a gente testava os limites da razão, o que a gente acreditava, moldava, encaixava, criava. passei por atração, fiquei por decisão. e parei bem atrás.

o tempo, então, parou também. a cozinha evaporou. era só pele, cheiro e o som quase elétrico da presença. a respiração parecia uma corrente de ar vindo de longe. isso tudo vendo de olhos fechados — não, estavam abertos, em todos os ângulos, flutuando. ficou confuso, mas era certo. eu que quase sempre paro tudo pra te ver passar, tava parado bem atrás de você. te abracei, casa em carne viva, nossos corpos buscando um ao outro. te sussurei algo que mudou tudo. quero morar em você.

terça-feira, 17 de junho de 2025

de costas

[tente novamente mais tarde]
vibração frenética — quando fui atender, parou
foi sem querer, ou queria falar comigo?
vibrando novamente, dessa vez atendi
era sobre reações neuronais muito aceleradas
impulsos friccionando o córtex cerebral

[deixe seu recado após o sinal]
tu passou por nós, praticamente só te vi de costas
movimento rápido, dos olhos, sem hierarquia entre pele e delírio
os cabelos voando, dobrando um corredor, subindo as escadas
ligeireza de quem busca. ou foge

[não foi possível completar sua ligação]
o número chamado não existe. verifique e tente novamente
lembrança e devaneio, nem se reconhecem quando se encontram
ainda vibra, mesmo desligado
fora da área de cobertura

[estará sujeita à cobrança após o sinal]
nós, amigos de outra vida
encarnados na teia ciber-energética
ligados por um fio invisível
distância-presença pós-humana
anárquica. sem começo, nem fim