domingo, 26 de abril de 2026

conseguimos

por que?

não
não é essa a pergunta

eu sei exatamente
por quê

mas então
qual é?

acho que esse é o segredo
fechado num quarto
sem portas nem janelas

ainda não descobri

se não por quê
então como?

como sair daqui

será essa?

muitas perguntas
nenhuma resposta

ainda tô no nível
de descobrir 
qual é a pergunta

a língua seca
sem palavra na ponta

acho que já entendi
como aconteceu

é só olhar pra trás

materialmente
politicamente
dialeticamente

tudo é contraditório

somos poços
de contradição

mas então

qual é a pergunta
que me serve?

ainda não descobri

só sei que não é nenhuma dessas

ou talvez até seja

mas então
foi a resposta
que não serviu

talvez perguntar direito
seja o motivo

e o fato
de nunca chegar
seja o combustível

pra que?
por que?
como?
quando?

e agora?

agora acabou

conseguimos

chegamos lá

?

equilíbrio em curto

o último ano normal da minha vida
terminou com um grande rompimento

me sentia no auge
a queda
é sempre pior
dada a altura

alguma coisa
já estava falhando

depois
tudo virou caleidoscópio

como se o disjuntor
tivesse disparado
tentando conter o curto

mas a fumaça já subia
o cheiro de morte no ar

já estava em curso

acreditava que isso
era só meu

só que poucos dias depois
o mundo inteiro
entrou em quarentena

os universos colidiram
pro bem
e especialmente para o mal

deixou de ser olho no olho
e voltou a ser olho por olho

o tempo que antes se arrastava
continuou

mas também voou
sem sair do lugar

borrões nas laterais
e um ponto fixo
de hiperfoco à frente

o horizonte cumpre seu papel
e nunca chega

instiga a continuar

atrás
o mais denso breu

à frente
não sei se há luz

ou se é só
o brilho dos meus olhos
que me impede de ver

terça-feira, 21 de abril de 2026

passagem

ressurgiu
reativando dores
e alergias

inevitavelmente
entendi
que só tinha esse caminho

inconformado
com minhas próprias atitudes
mas também pela forma como as lia 

estou aqui
cada vez menos
mas ainda aqui
tenho tarefas a fazer

medindo as palavras
sem deixar pontas soltas
catapultado pelas circunstâncias
me virando por aí

e então sumi

medicado
edificado

não tenho palavras
e não vou busca-las

e tu?

quarta-feira, 15 de abril de 2026

memórias de motocicleta

levaram ela
não a encontrei em nenhum andar

zombaram de mim
disseram nada ter a ver comigo

levaram embora
mas ela tá sempre comigo
me leva embora
me traz de volta

eu tava lúcido
lembro de tudo
o rosto de cada uma
e todos eles

mas só depois
me lembrei de acordar

ficou marcado
através de sinapses nervosas
ansiosas para reencontrar
a tua memória

ainda tô aqui
por minha conta e risco
pro bem
e principalmente pro mal

mal me quer
bem querer

acordei
e ela tava aqui

bem do meu lado
me levando embora

zunindo pela estrada
de volta pra ela

sexta-feira, 10 de abril de 2026

prata líquida

tão rápido
te arrodeia
retrograda
como se voltasse

pesado
te contamina
invade as fendas
transforma a ausência

cemitério nascedouro

torce
reverte
inverte

mesma lembrança
n'outro lugar

filmes metálicos finíssimos
marmoreiam por dentro
longe do mar

prova
em fevereiro
a sereia veio
a festa aconteceu

que seja eterna
enquanto cure

terça-feira, 31 de março de 2026

aventura extra uterina

isso é uma montanha
ou pelo menos pra mim é
pra tu eu não sei
pode ser o que tu quiser

eu que fiz assim
achei que combinava
com altos e baixos
relevos e texturas
um grande esforço pra subir

a vista é estonteante
mas te engana
porque é sonho também
muito longe da terra
tudo parece possível
mas é tudo loucura

nunca soube pra que subir
só sabia que tinha
na real era o único caminho
de repente eu tava subindo

voltar não dá
o portão do retorno está trancado
o último lugar seguro foi uterino
e o próximo é entre húmus

sumir também não resolve
onde eu ia
eu tava lá
só mais uma ilusão de controle
tu tá sempre aí

quinta-feira, 19 de março de 2026

de andada

não adianta chorar
não adianta tentar
não adianta desistir
não adianta cantar

não chega de jeito nenhum
nem voltando
nem partindo
nem mesmo ficando

não há presente
não há pretérito
não há futuro
nem perfeito
nem imperfeito

nunca chega
porque só vai
não tem chegança
só tem andança

longe da cadência dos ponteiros
ou da certeza dos emissores de luz

num ritmo próprio
neurodivergente
fora do compasso

cada segundo
se alonga
ou se encolhe 

só adianta chorar
só adianta tentar
só adianta desistir
só adianta cantar