quarta-feira, 2 de setembro de 2026

na verdade ainda é uma farsa

reposicionei o espelho

antes ele não me fitava
agora tá me vendo de soslaio

e eu a ele

quando o miro
ainda vejo as imperfeições
as assimetrias
e os riscos na tela

continuo procurando
curioso
todos os sinais
os que vieram
e esses aí que ainda não

antena parabólica
enfiada do mangue
recebo tudo que veio
e as ausências preenchidas
com raios luminosos mortos

sigo em repouso ativo
sem deixar parar
a máquina de fazer festa

mesmo assim
ainda é verdade
qualquer celebração é uma farsa

ritual incompleto
catarse da catástrofe
silêncio em todos os clarins
corpos estáticos

esperando notar
a volta dos que não foram
até perceber
que estão todos aí
e em lugar algum

o que se sabe

não é de hoje

ao contrário

é uma forma de vida antiga
que se sujeita
ao próprio algoz

de pele verde
cabelos de fogo
olhos sanguinários

um animal perdido
feral
bravo
selvático

passado a fúria
o que se sabe
no fundo dos olhos

agora cinzas pós incendiárias

a fé começa na certeza
atravessa a renúncia
permite o perdão

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

vem aí

o homem que queria ficar
foi indo embora
devagarzinho
aos trancos e barrancos
acabrunhado
aos berros excruciantes

até hoje
acorda todos os dias
prepara o café da manhã
religiosamente

água morna

suco verde

pão
ovo
queijo

café preto

e silêncio

há dias
procura em todas as ruas
nas encruzilhadas
vira à esquerda

desce pela direita
segue na contramão

pra ver se encontra de frente
ou se retrocede
prá'quele dia lá

nunca mais
vai se sentir assim

novas lembranças
ocuparam o mesmo lugar

talvez os outros sejam fantasmas
que não sabem que estão mortos

ou talvez seja ele
e os outros são os que ficaram

em breve
tudo vai melhorar
ele tenta se convencer
dizer bom dia e não fazer gestos bruscos
devolver tudo que mainha já deu

por enquanto
o tempo tá chuvoso
tudo mudou um pouco
o pequeno cresceu bastante
mas é certo
vem aí

o homem que foi embora
vem vindo pra cá
de mansinho
passos de bailarino
olhos de gato
lambendo os beiços

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

sangue frio

por muito tempo
vivi como répteis rastejantes
movendo-me sinuoso
espreitando a mim mesmo

negando hormônios em ebulição
em troca de sangue frio
sempre atrás de calor

hoje já nem sei
onde o sol sussurra
se ainda existe algum astro
ou se meus sentidos me traem

eu-serpente-rei
insinuante e silencioso
forjado no gelo da indiferença
represado a cada curva

convivo com o risco
de acender as cidades do mundo
ou soterrar seus descendentes

mas às vezes esqueço
os motivos pelos quais
abandonei minhas peles

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

ácido básico

ir embora me esgota
e além disso
permanecer também é vida

eu só quero ficar
fincar minhas raízes
no chão que me sustenta
absorver lentamente

nitrogênio
fósforo
potássio

posso até partir
desde que tu venha comigo
ou me espere um pouco
eu sempre volto

na iminência da imanência
em estado de permanência

o sol tá brilhando lá fora
a água parece abundante
há nutrientes por toda parte

mas o ph é adequado?

eu não sei

se devo colocar
casca de ovo
ou borra de café

a única coisa que sei
é que qualquer coisa viva

demora

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

bicho ruminante

tenho sede insaciável
em compreender o mundo
imediato e abstrato
nada escapa da tentativa
cartográfica, imagética
mediada, articulada

mas sempre resta o desacerto
initeligível
mudo
escudo
atrás de muros de hera

quanto mais povoa
menos deixa voar
grilhões de não-ditos
ancoram os sentidos

queria entender tudo
o que aconteceu
o que deixou de acontecer
colocar cada coisa
no seu devido lugar

talvez entender
fosse apenas o primeiro nome
de uma vontade maior
de fazer o mundo obedecer

tudo estava bem
até a chegada da ordem
ruminando o caos
até não sobrar casa

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

sombras eletro-orgásmicas

isso não existe, não, pô

não mais

aliás
existir, existe, né
mas de outra forma

é certo que existiu
que foi
que aconteceu
daquele jeito

só a gente sabe

hoje
um eco
uma sombra mimética
uma memória inventada

tem isso também, visse

a gente cria tudo
inclusive
as lembranças

dá significado
profundidade
pertencimento
razão

sobretudo

loucura

guardo a minha insanidade
sempre que inconveniente
ou quando conveniente for

bom

às vezes falha, né

deus me livre
guarde
me proteja
quando der
amém

hoje
ecos meca-orgânicos
sombras eletro-orgásmicas
memórias virtuais-ancestrais

ainda tem isso

mesmo que tu não queira
tá aí
faz tempo

desde ovelhas elétricas
sonhadas por andróides
paranóicos

sem par