quinta-feira, 13 de agosto de 2026

bicho ruminante

tenho sede insaciável
em compreender o mundo
imediato e abstrato
nada escapa da tentativa
cartográfica, imagética
mediada, articulada

mas sempre resta o desacerto
initeligível
mudo
escudo
atrás de muros de hera

quanto mais povoa
menos deixa voar
grilhões de não-ditos
ancoram os sentidos

queria entender tudo
o que aconteceu
o que deixou de acontecer
colocar cada coisa
no seu devido lugar

talvez entender
fosse apenas o primeiro nome
de uma vontade maior
de fazer o mundo obedecer

tudo estava bem
até a chegada da ordem
ruminando o caos
até não sobrar casa

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

sombras eletro-orgásmicas

isso não existe, não, pô

não mais

aliás
existir, existe, né
mas de outra forma

é certo que existiu
que foi
que aconteceu
daquele jeito

só a gente sabe

hoje
um eco
uma sombra mimética
uma memória inventada

tem isso também, visse

a gente cria tudo
inclusive
as lembranças

dá significado
profundidade
pertencimento
razão

sobretudo

loucura

guardo a minha insanidade
sempre que inconveniente
ou quando conveniente for

bom

às vezes falha, né

deus me livre
guarde
me proteja
quando der
amém

hoje

ecos meca-orgânicos
sombras eletro-orgásmicas
memórias virtuais-ancestrais

ainda tem isso

mesmo que tu não queira
tá aí
faz tempo

desde ovelhas elétricas
sonhadas por andróides
paranóicos

sem par

terça-feira, 11 de agosto de 2026

dá licença

peço licença pra entrar
incorporo o caminho
a mata assobia pra mim

densidade síncrona
abre trilhas
para o que ainda não existe

cada nota carregada
parece mais que coincidência
ou mera escolha estética

equipado com curiosidade
aprendi a me diluir
para passar por terrenos instáveis

só volto a me concentrar
quando o chão
cabe meu peso

sentado na beira da mata
esperando a visagem
virar trilha novamente

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

força centrípeta

eu não sei

foi tudo tão rápido
tão assustador

tentei segurar os ponteiros

só queria 
que não fosse embora

...

não sei nada

foi muita coisa

tanta coisa

desenhei tudo

rabisquei cada pixel
pra não esquecer nada

como se lembrar
fosse impedir a partida

como se registrar
fosse outra forma
de permanecer

...

hoje eu sei
divido cigarros com demônios

danço ao redor do tempo

para que a força centrípeta
me mantenha girando

preso o bastante
para não me perder
de mim mesmo

terça-feira, 21 de julho de 2026

atrito

dobramos juntos
o pequeno espaço

numa carta curta
indiferente
afável

caminhei só
rasgando pedras
irreconhecíveis

domamos juntos
a grandeza do tempo

em rédeas longas
displicentes
arredias

corri sozinho
mãos em brasa
irredutíveis

quinta-feira, 16 de julho de 2026

brechinha

abri uma brechinha da janela

mas só um pedacinho

apenas o suficiente
para arrejar

desanuviar os pensamentos
atravessados por dias
de resina e fumaça

dirigindo
e digerindo
as cenas

em completa nudez

devorando cada personagem

sem jamais encontrar
a linha de costura

sigo movendo
incessante

por lugares
e tempos
irreconhecíveis

uma brecha
de dois dedos
preserva minha nudez

mas não impede
o ar gélido
nem a passagem
de milhares de santos
dançando como fumaça

terça-feira, 14 de julho de 2026

perto do fim

se está doendo tanto
leve suas sobras
esse peso cadavérico
do tamanho do universo

guarde todas as linhas
perfeitamente retas
mesmo nas curvas

ou perfeitamente curvas
mesmo em linha reta
impossível de distinguir

guarde a magia ancestral
repetindo feitos heróicos
de quem se salvou antes

adiando a ruína
o quanto puder
fazendo vida
nas entrelinhas

até que
as sobras de dor
aprendem a morrer
palavras perdidas
tão desacompanhadas

perdão

passou