sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

eternamente eu só chorava

daquela cena de fundo azul
azul-marinho profundo
riscada em traços pretos
ora delicados
ora grosseiros

o auto-retrato solitário
que mais me chamou
foi aquela menina
caindo pelo chão

nas manhãs
era onde o sol não batia
ficava na penumbra
fazendo da sombra altar
expondo o que era luz

desse lugar-memória
particularmente
o que eu mais gosto
é onde os dedos
encontram a pele

levemente encostados
na margem da coxa
afundando delicadamente
covas rasas
onde pulsa em segredo
rio vermelho quente

pequenas sepulturas
expondo o limite
corpo continente
entregando o toque mais íntimo
até esgotar os sentidos

chamando à luz
de olhos fechados
para abrir
os próprios sentidos

preparando o salto

a decisão foi tomada
pela força do meu sentir
sem tocar fechou o portão
para jamais retornar

tudo que eu ofereci
me elevou aos céus
em aceleração explosiva
fissão nuclear

até chocar meu corpo
na abóbada celeste
desaceleração brutal
flutuei no nada por segundos
alucinado pela pancada

o impacto contundente
rasgou minha pele
inchou as articulações
espalhou escoriações
mas me deixou vivo

a queda começou como um sonho
vento cortava meu rosto
e eu descansava embalado
num conforto uterino

quando finalmente percebi
o chão subia
rápido demais

só pude fechar os olhos
e deixar a potência da gravidade
me afundar quilômetros
no manto terrestre

no verdadeiro útero
semeei o que sobrou de vida
respirando o mais lento possível
soltando mais lento ainda

até o rizoma beber de mim
e devolver alimento às raízes

me preparando
para o próximo salto
a próxima queda
o próximo renascimento

até o fim

imitando ela

não pede desculpas
vai cuidando
fazendo pose
imitando ela

emite energia
do nada
serve sozinho
pra aprender

usa minha máscara
não precisa pedir
quando menos perceber
vão te ver

olha ela
desiste tão fácil
resiste não
nem tenta

triângulo isóceles
geometria sagrada
que sustenta
o balanço

gingando
meia lua minguando
mãos no solo
pés no alto

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

é tudo mentira

ei
ei
presta atenção
por favor

eu sei
eu sei que isso que tu criou
isso que tu sentiu
foi a coisa mais linda
eu sei
eu lembro

eu lembro
mas passou
como passa um bloco
arrastando tudo
deixando silêncio
retumbante
presta atenção

eu sei
foi a coisa mais linda
do mundo inteiro
foi o próprio mundo
foi

olha pra mim agora
tá vendo alguma coisa?
não né?

escuta
tá ouvindo?
não tem nada tocando

nem vento
nem pensamento
nada é teu
já foi

já não é
e nem será
passou
foi embora
inefavelmente

é tudo mentira
e foi tudo verdade
ao mesmo tempo

eu tô acessando de novo
uma versão de mim
que eu me orgulho

uma versão de mim
que um dia nasceu
viveu intensamente
e morreu

agora
respira outra vez
por aparelhos
tecnológicos ancestrais
como tem que ser

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

cartas para ler sobre o pretérito mais que imperfeito

o fato é que tô desprotegido
às vezes desolado
outras confiante
a segunda é a mais perigosa
destemido
e ignorante

agora irremediável
sem escapatória
o processo é lento
quase parando
quase retrocedendo

escoriado
costurado
amarrado
enterrado
afundado
inevitável

entre duas escolhas
tenho feito sempre a errada
a que traz sufoco
machuca
achei que tava indo embora

mas o vazio não foi
tá aqui
ocupando espaço
irreparável
incontornável
não sobra opção
senão enfrentar

enfrentar o que não se sabe
o desconhecido
o improvável
ao mesmo tempo
o único obstáculo possível
óbvio
ululante

agora
botar a cabeça pra fora d'água
agarrar o galho mais alto
não soltar

e depois
pouco a pouco
descer da árvore
que um dia
me salvou da enchente

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

todo cuidado é pouco

as cartas prometiam
vem aí
em três dias, três meses
ou no máximo três anos

busquei sem encontrar
ao preço de sangue e lágrimas
desisti e aí veio
atravessado em meu caminho
como um obstáculo invencível

perdi a força das pernas
a dureza dos braços
o hábito da ternura
mas guardei intacta
a loucura do coração

ninguém dá uma passadinha
em canto nenhum
ou está inteiro
ou nunca esteve

escuro, silencioso, quieto

tô no fundo do poço
e cavando ainda mais fundo
com as próprias mãos
já calejadas, unhas sujas de terra

algumas caíram
misturadas aos vermes
cavando junto comigo

tão fundo
esperando chegar ao fim
e cair num buraco sem fim

talvez no buraco seguinte
encontre o vazio do universo
escuro, silencioso, quieto
através do espelho