sábado, 6 de junho de 2026

me respira

revolução dentro da revolução
novo processo disruptivo
golpe dentro da ferida
escada infinita
em piano dramático

ainda não posso subir
embora possa atravessar
outras salas
obras
jardins

mas o vazio
a ser preenchido
o devir
o bréu além de mim

aquilo que está além
continua chamando
via sinais alquímicos

me põe em sincronia
me revela
me expande

areja
me respira

finalmente
fermenta
borbulha

minha obra

mais um pouco

me respira

dobrão

o choque contundente
é uma das maneiras brutais
de causar dano

capaz de rasgar
furar
estilhaçar
espatifar

os cacos desaparecem em pó

por mais que busquemos
em cada canto escondido
há sempre uma falta

em forma de meia lua
crescente ou minguante
depende de quem e como busca

mas sempre fosca
incapaz de discernir
o golpe da cicatriz

se não monta
o quebra-cabeça

serve na ponta do dedo
para variar
acordes gingados

quinta-feira, 28 de maio de 2026

presentear-me com o que tenho

já faz um tempo 
te escrevi pela última vez
e ainda vai levar mais um tempo

a vida tem sido mais turbulenta
do que jamais imaginei

o ritmo aqui
é o completo oposto
da vida ali

tenho processado a viagem
repetidamente
nos processadores

e agora estou melhor
em me presentear
com o presente

mas faz tempo
que não tenho
tido minhas pessoas

tem alguma coisa
muito especial
em tê-las por perto

enquanto não as tenho
tenho procurado
pelo menos a mim mesmo

o máximo
que eu encontrar

terça-feira, 26 de maio de 2026

invisível extraordinário

poder supremo dos desencontros
não consigo te ver
nem que a gente divida a mesma vida
respire o mesmo ar
e pise na mesma mata

não te vejo
mesmo que nossos caminhos
sejam os mesmos de sempre
cílios que protegem nossas águas
salgadas e doces

mesmo assim te procurei
de soslaio
fantasma que ronda
no canto do olho
mas quando enquadro a fotografia
desaparece instantaneamente

mesmo assim te achei
coração palpitante
medo dilacerante
mesmo assim fui

e quando vi
tive certeza
que era tu

o carrossel de cores vibrantes
suspensos sobre galhos
pneumáticos
pseudonaturais
mortos mesmo

afinal
a gente até sabe
natural e artificial
são categorias inventadas

prótese típica do ciborgue
por mais que tu negue
transitamos no mesmo mundo
sujeitos dos mesmos traumas
nenhuma experiência
é individual

fica na moral
mas não fica confortável
porque eu não to nem aqui

to fazendo minha arte
do jeito que dá

quinta-feira, 21 de maio de 2026

estrelas, flores e armadura

ainda lembro
das texturas de costas

próximo ao ombro esquerdo
um caminho em braile
marcas ancestrais

runas na carne
como forma de reverenciar
reverenciando
como forma de lembrar

já no lado direito
a escápula saltava
deformada de tanta reverência
ergueu-se proteção
contra fogo-amigo

não esqueço
das tintas de frente

com a mão dominante
um pincel displicente
descendo na diagonal
buscando assimetria

descendo da direita
girando para esquerda

riscando de preto
braço
tronco
perna

estrelas
flores
e formas negras
armaduras

encobrindo cores antigas
desbotadas
mas ainda vivas
por entre as grades
recém formadas

quarta-feira, 20 de maio de 2026

só um pouquinho

ainda tô esperando
mas só um pouquinho

aquele momento
que tu adia

há dias
semanas
meses
e anos

mas só um pouquinho

se quiser
largo agora

não sou viciado

sei disso
porque faço exatamente
a mesma coisa

todos os dias

só um pouquinho

as teias já estão tecendo
a si próprias

e eu sigo aguardando

só mais um pouquinho

uma verdade
ser revelada

ou finalmente
desiludida

só pra depois
mais uma vez

ser refeita

propriocepção

te procurei a madrugada inteira
por todos os caminhos neurais
por todas as vias sacras
que desembocam no cerebelo

rodei como uma fita
por cada imagem e som
retrocedendo e avançando
sem nunca ter um único vislumbre teu

até que bem perto do fim
quando o frio se dissipa
e o sol ameaça iluminar
tu surgiu sorridente

com a tua própria câmera 
registrando teus próprios registros
pessoas, figurinos, performance
a tua própria cena

eu via a cena da cena
observador do observador
registro do registro
a prova que já se foi

só eu que continuo registrando
a minha própria busca
reencenando uma cena morta
à procura de uma flor negra
florescendo sobre uma pele branca