quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

colapso magnético

o anterior foi o ápice da história do universo
ofuscou tudo
e quando foi embora deixou fosco

restou opaco
oco
sem vida

o corpo cobrou o preço pelo desapreço
primeiro forçando a máquina
levando a matéria ao limite
pra ver se sentia alguma coisa
adrenalina, serotonina e ocitocina

mas os neuroreceptores estavam traumatizados
a descarga de energia havia sido enorme
por onde passava corrente elétrica
virou tempestade magnética
devastando todos os aparelhos

sem dados
a navegação foi guiada pelo que o olho via
imediatamente à frente
que, sejamos honestos, mal via qualquer coisa
ora apenas o que queria
ora apenas o que não queria

depois de muito pedir para o tempo parar
pra ver se dava tempo de voltar
finalmente ele começou

veio quase emudecido
sem sentido
e se transformou no próprio sentido
o fim em si mesmo

foi quando tu surgiu entre vassourinhas
materializou de novo, chama que vem
aquecendo uma madrugada fria
em meio a uma multidão que acompanha
o nascimento de uma estrela

a festa da carne presenteou rios inteiros
sem direção
e cheios de intenções

caminhos abertos de tal forma
que o mundo inteiro passou em poucos segundos

nova tempestade magnética
raios, trovões, relâmpagos
um espetáculo de fogos de artifício
ensurdecedor

nos protegemos
e agora olhamos de longe
o céu outrora opaco
brilhava intensamente de novo

apresentando uma nova aurora
e a melhor hora da praia

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

ateu em busca de fé

deixa eu lembrar
as primeiras cenas são flashes
tenho que insistir um pouco
até montar
as pequenas sensações
e as grandes

primeiro
surpresa
de novo parece que materializou
o desejo em carne viva
uma anarquia onírica

depois
curiosidade
tu chamou e eu fui
íons energizados dançando entre nós
o ritmo não era perfeito
mas tinha encaixe

em algum momento
um fluxo pediu passagem
como uma cachoeira pacífica
mas constante
lapidando pedras pesadas
sem pedir licença
nem explicação 
as águas rolando

e a última tromba d’água ainda ameaça
como algo que vem aí
ou que nunca mais será visto
o fluxo pode rugir
ou desaparecer

rezo
se for o caso
que ruja
o charme da loucura 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

eternamente eu só chorava

daquela cena de fundo azul
azul-marinho profundo
riscada em traços pretos
ora delicados
ora grosseiros

o auto-retrato solitário
que mais me chamou
foi aquela menina
caindo pelo chão

nas manhãs
era onde o sol não batia
ficava na penumbra
fazendo da sombra altar
expondo o que era luz

desse lugar-memória
particularmente
o que eu mais gosto
é onde os dedos
encontram a pele

levemente encostados
na margem da coxa
afundando delicadamente
covas rasas
onde pulsa em segredo
rio vermelho quente

pequenas sepulturas
expondo o limite
corpo continente
entregando o toque mais íntimo
até esgotar os sentidos

chamando à luz
de olhos fechados
para abrir
os próprios sentidos

preparando o salto

a decisão foi tomada
pela força do meu sentir
sem tocar fechou o portão
para jamais retornar

tudo que eu ofereci
me elevou aos céus
em aceleração explosiva
fissão nuclear

até chocar meu corpo
na abóbada celeste
desaceleração brutal
flutuei no nada por segundos
alucinado pela pancada

o impacto contundente
rasgou minha pele
inchou as articulações
espalhou escoriações
mas me deixou vivo

a queda começou como um sonho
vento cortava meu rosto
e eu descansava embalado
num conforto uterino

quando finalmente percebi
o chão subia
rápido demais

só pude fechar os olhos
e deixar a potência da gravidade
me afundar quilômetros
no manto terrestre

no verdadeiro útero
semeei o que sobrou de vida
respirando o mais lento possível
soltando mais lento ainda

até o rizoma beber de mim
e devolver alimento às raízes

me preparando
para o próximo salto
a próxima queda
o próximo renascimento

até o fim

imitando ela

não pede desculpas
vai cuidando
fazendo pose
imitando ela

emite energia
do nada
serve sozinho
pra aprender

usa minha máscara
não precisa pedir
quando menos perceber
vão te ver

olha ela
desiste tão fácil
resiste não
nem tenta

triângulo isóceles
geometria sagrada
que sustenta
o balanço

gingando
meia lua minguando
mãos no solo
pés no alto

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

é tudo mentira

ei
ei
presta atenção
por favor

eu sei
eu sei que isso que tu criou
isso que tu sentiu
foi a coisa mais linda
eu sei
eu lembro

eu lembro
mas passou
como passa um bloco
arrastando tudo
deixando silêncio
retumbante
presta atenção

eu sei
foi a coisa mais linda
do mundo inteiro
foi o próprio mundo
foi

olha pra mim agora
tá vendo alguma coisa?
não né?

escuta
tá ouvindo?
não tem nada tocando

nem vento
nem pensamento
nada é teu
já foi

já não é
e nem será
passou
foi embora
inefavelmente

é tudo mentira
e foi tudo verdade
ao mesmo tempo

eu tô acessando de novo
uma versão de mim
que eu me orgulho

uma versão de mim
que um dia nasceu
viveu intensamente
e morreu

agora
respira outra vez
por aparelhos
tecnológicos ancestrais
como tem que ser

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

cartas para ler sobre o pretérito mais que imperfeito

o fato é que tô desprotegido
às vezes desolado
outras confiante
a segunda é a mais perigosa
destemido
e ignorante

agora irremediável
sem escapatória
o processo é lento
quase parando
quase retrocedendo

escoriado
costurado
amarrado
enterrado
afundado
inevitável

entre duas escolhas
tenho feito sempre a errada
a que traz sufoco
machuca
achei que tava indo embora

mas o vazio não foi
tá aqui
ocupando espaço
irreparável
incontornável
não sobra opção
senão enfrentar

enfrentar o que não se sabe
o desconhecido
o improvável
ao mesmo tempo
o único obstáculo possível
óbvio
ululante

agora
botar a cabeça pra fora d'água
agarrar o galho mais alto
não soltar

e depois
pouco a pouco
descer da árvore
que um dia
me salvou da enchente