quarta-feira, 9 de setembro de 2026

radiação cósmica de fundo

uma órbita e meia depois

uma pequena galáxia
apagou no céu

todo dia a procuro
do nascer ao pôr do sol

e todas as noites
da lua cheia
à lua nova

não importa
seu brilho está morto
a milhares de anos-luz

o que chega até mim
são fragmentos de energia
vestígios luminosos
de uma explosão antiga

sempre em expansão
cada vez mais distante

até que se encontre outra vez
no horizonte de eventos
e o universo se retraia

implorando
para continuar

mar espelhado

finalmente
demorou mas chegou
e quando chegou
foi de uma vez só

pudera né
esteve sempre aí
o tempo todo
todo esse tempo

bastou a união
de algumas poucas palavras

anedóticas
analógicas
analgésicas

pra entender
todo esse mar espelhado
sem uma única onda

a superfície lisa
impecavelmente imóvel
que antecede um avassalador
abalo sísmico

nas fossas mais profundas
do oceano atlântico
libertando seres ferais
e uma grande onda de choque

que mais uma vez
limpará tudo por onde passar

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

neuroregenerativo

eu nunca quis ir embora

foi onde morei mais tempo
queria ficar pra sempre

fiz e aconteci lá
reuni todo conhecimento do mundo

talvez por isso
era um continente inteiro 

a sucessão da vida
floreou na beira

mas o buraco tá lá

um vão de morte neuronal

ramos seguem crescendo
conflitando
mudando

sentem muito

o tempo passou de novo
a vida mudou de novo

como ambos costumam fazer

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

na verdade ainda é uma farsa

reposicionei o espelho

antes ele não me fitava
agora tá me vendo de soslaio

e eu a ele

quando o miro
ainda vejo as imperfeições
as assimetrias
e os riscos na tela

continuo procurando
curioso
todos os sinais
os que vieram
e esses aí que ainda não

antena parabólica
enfiada do mangue
recebo tudo que veio
e as ausências preenchidas
com raios luminosos mortos

sigo em repouso ativo
sem deixar parar
a máquina de fazer festa

mesmo assim
ainda é verdade
qualquer celebração é uma farsa

ritual incompleto
catarse da catástrofe
silêncio em todos os clarins
corpos estáticos

esperando notar
a volta dos que não foram
até perceber
que estão todos aí
e em lugar algum

o que se sabe

não é de hoje

ao contrário

é uma forma de vida antiga
que se sujeita
ao próprio algoz

de pele verde
cabelos de fogo
olhos sanguinários

um animal perdido
feral
bravo
selvático

passado a fúria
o que se sabe
no fundo dos olhos

agora cinzas pós incendiárias

a fé começa na certeza
atravessa a renúncia
permite o perdão

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

vem aí

o homem que queria ficar
foi indo embora
devagarzinho
aos trancos e barrancos
acabrunhado
aos berros excruciantes

até hoje
acorda todos os dias
prepara o café da manhã
religiosamente

água morna

suco verde

pão
ovo
queijo

café preto

e silêncio

há dias
procura em todas as ruas
nas encruzilhadas
vira à esquerda

desce pela direita
segue na contramão

pra ver se encontra de frente
ou se retrocede
prá'quele dia lá

nunca mais
vai se sentir assim

novas lembranças
ocuparam o mesmo lugar

talvez os outros sejam fantasmas
que não sabem que estão mortos

ou talvez seja ele
e os outros são os que ficaram

em breve
tudo vai melhorar
ele tenta se convencer
dizer bom dia e não fazer gestos bruscos
devolver tudo que mainha já deu

por enquanto
o tempo tá chuvoso
tudo mudou um pouco
o pequeno cresceu bastante
mas é certo
vem aí

o homem que foi embora
vem vindo pra cá
de mansinho
passos de bailarino
olhos de gato
lambendo os beiços

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

sangue frio

por muito tempo
vivi como répteis rastejantes
movendo-me sinuoso
espreitando a mim mesmo

negando hormônios em ebulição
em troca de sangue frio
sempre atrás de calor

hoje já nem sei
onde o sol sussurra
se ainda existe algum astro
ou se meus sentidos me traem

eu-serpente-rei
insinuante e silencioso
forjado no gelo da indiferença
represado a cada curva

convivo com o risco
de acender as cidades do mundo
ou soterrar seus descendentes

mas às vezes esqueço
os motivos pelos quais
abandonei minhas peles