segunda-feira, 2 de novembro de 2026

falciforme

é estranho
pela primeira vez
não ser eu
o eterno vacilante

parece humanidade

mas por óbvio
pra tudo tem limite

as fronteiras já foram rompidas
uma miríade de vezes
incontáveis personagens
atravessaram a tragédia perfeita

no entanto
cada vez mais
a farsa se aproxima

imperfeita
defeituosa
desumana

o fio se estreita
curva-se sobre si mesmo
numa lua minguante afiada
prestes a cortar

de tal sorte
que ao mais suave dos toques
a lâmina partirá
a tênue linha
que ainda nos suporta

casa de marimbondos

certa feita
numa casa sem portas
nem janelas
mas repleta de frestas

entradas e saídas desimpedidas

notei
havia uma casa
dentro da casa
habitada por pequenos insetos

selvagens
bicudos
odiosos

ao teu aviso
que tomei por chamado
me veio o ímpeto
da destruição

te puseste entre mim
e meu pecado
lembrando
não estamos sós
e nem deveríamos

me transformasse de tal forma
que mesmo hoje
em meio a trancas pesadas
me vejo livre
sempre que
pelas brechas
acesso teus saberes

domingo, 1 de novembro de 2026

recortes fantasmas

por onde andam
os tais referidos recortes?
não são meros destaques
mas pedaços de algo
que já não existe

viraram espectros lunáticos
que aparecem comumente
em noites iluminadas
não por qualquer lua
mas por fases que já se foram

se foram
há pelo menos 8 minutos
ou há mais de 8 anos
nesse ínterim desdenhoso

antes eram facas afiadas
com enormes poderes cortantes
o que mudou?

pequenos abaulamentos
desmesuradamente inócuos
mas que terminam por cegar
cada pedaço de fio

restando aos pedaços partidos
nada mais que recortes
de outra vida
que ainda insistem em respirar
mesmo sufocados

sabendo que hoje
nunca será amanhã
mas amanhã
será hoje

terça-feira, 27 de outubro de 2026

fúria

ao cruzar o vazio
as mesmas palavras
murmuram insistentes

caminhos sinuosos
que se dissipam
em vapor

polos opostos
se distraem
derivam

cada particula
termina por virar 
andarilha de si própria

buscando incessante
reaprendendo outra tecnologia
noutra direção

orquestra tenebrosa

a noite mais importante dos nossos tempos
me atravessou sem você
pior ainda foi perceber que tu nem liga
seja porque não compreende a noite
seja porque não compreende a morte

ainda pior foi perceber
em meio ao meu sofrimento
que ele é combustível valioso pra sua queimada
me pergunto se você está usando lenha
ou a própria mata

chamuscado e sujando de fuligem tudo que eu toco
ainda tive que ver no mundo
o heroísmo das minhas palavras

chorei e não pude lavar o pranto
apenas marcar o rosto de preto
como soldados bombardeados

sábado, 3 de outubro de 2026

solidão em movimento

provei por tudo
qualquer coisa desaparecida
incontáveis vezes

a cada novo vislumbre
acompanho desmedido
sem me impedir milímetro
nem sei se sou capaz

ainda sentado no caos
observando os urubus
uma coroa fúnebre
desaparecendo no horizonte

uma parte já se foi
mas o restante ainda está aqui
não por muito tempo
pois já é tarde

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

radiação cósmica de fundo

uma órbita e meia depois

uma pequena galáxia
apagou no céu

todo dia a procuro
do nascer ao pôr do sol

e todas as noites
da lua cheia
à lua nova

não importa
seu brilho está morto
a milhares de anos-luz

o que chega até mim
são fragmentos de energia
vestígios luminosos
de uma explosão antiga

sempre em expansão
cada vez mais distante

até que se encontre outra vez
no horizonte de eventos
e o universo se retraia

implorando
para continuar