quinta-feira, 19 de março de 2026

de andada

não adianta chorar
não adianta tentar
não adianta desistir
não adianta cantar

não chega de jeito nenhum
nem voltando
nem partindo
nem mesmo ficando

não há presente
não há pretérito
não há futuro
nem perfeito
nem imperfeito

nunca chega
porque só vai
não tem chegança
só tem andança

longe da cadência dos ponteiros
ou da certeza dos emissores de luz

num ritmo próprio
neurodivergente
fora do compasso

cada segundo
se alonga
ou se encolhe 

só adianta chorar
só adianta tentar
só adianta desistir
só adianta cantar

quarta-feira, 18 de março de 2026

bela adormecida

custou quase dez anos
até logos pintados à mão
pincéis habilidosos
bailando sobre a tela

nunca mais nos veremos
ou talvez algum dia
meio século depois
tudo ainda parece rascunho

analogia imperfeita
nunca mais repito
nada se sustenta
tudo acontece e se desfaz

qualquer que fosse meu crime
bastava uma bala
o resto era apenas
desejo de matar

morri
mas to de pé
bem ao teu lado
em silêncio

tentando encontrar um jeito
de sair perdendo
de novo
mais uma vez
até não ser mais

terça-feira, 10 de março de 2026

ruínas de beija-flor

to prestando atenção
nos terrenos que ainda oferecem moradia
mesmo quando não tem teto nem telhado

falta tudo
e ainda assim
está tudo escancarado

mas basta um levante de lembranças
e já é o suficiente
pra fazer uma visita

o cheiro de ar salitroso
as ferragens enferrujadas
o cuidado para não cortar as mãos

de repente
um vidro quase opaco de sujeira
adesivos encardidos
que testemunham a passagem lenta
e ao mesmo tempo imediata
do tempo

quando a luz do sol irradia
e faz dele espelho
um beija-flor entorpecido
se vê no reflexo da memória

beija ansiosamente a si próprio
a maior de todas as flores
sua própria ilusão

e insiste

como se fosse possível
beber o que nunca esteve ali
sede tenaz

até cessar
o frenesi das asas
descansar
o coração minúsculo

restará apenas o sol radiante
a beijar a si próprio

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

colapso magnético

o anterior foi o ápice da história do universo
ofuscou tudo
e quando foi embora deixou fosco

restou opaco
oco
sem vida

o corpo cobrou o preço pelo desapreço
primeiro forçando a máquina
levando a matéria ao limite
pra ver se sentia alguma coisa
adrenalina, serotonina e ocitocina

mas os neuroreceptores estavam traumatizados
a descarga de energia havia sido enorme
por onde passava corrente elétrica
virou tempestade magnética
devastando todos os aparelhos

sem dados
a navegação foi guiada pelo que o olho via
imediatamente à frente
que, sejamos honestos, mal via qualquer coisa
ora apenas o que queria
ora apenas o que não queria

depois de muito pedir para o tempo parar
pra ver se dava tempo de voltar
finalmente ele começou

veio quase emudecido
sem sentido
e se transformou no próprio sentido
o fim em si mesmo

foi quando tu surgiu entre vassourinhas
materializou de novo, chama que vem
aquecendo uma madrugada fria
em meio a uma multidão que acompanha
o nascimento de uma estrela

a festa da carne presenteou rios inteiros
sem direção
e cheios de intenções

caminhos abertos de tal forma
que o mundo inteiro passou em poucos segundos

nova tempestade magnética
raios, trovões, relâmpagos
um espetáculo de fogos de artifício
ensurdecedor

nos protegemos
e agora olhamos de longe
o céu outrora opaco
brilhava intensamente de novo

apresentando uma nova aurora
e a melhor hora da praia

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

ateu em busca de fé

deixa eu lembrar
as primeiras cenas são flashes
tenho que insistir um pouco
até montar
as pequenas sensações
e as grandes

primeiro
surpresa
de novo parece que materializou
o desejo em carne viva
uma anarquia onírica

depois
curiosidade
tu chamou e eu fui
íons energizados dançando entre nós
o ritmo não era perfeito
mas tinha encaixe

em algum momento
um fluxo pediu passagem
como uma cachoeira pacífica
mas constante
lapidando pedras pesadas
sem pedir licença
nem explicação 
as águas rolando

e a última tromba d’água ainda ameaça
como algo que vem aí
ou que nunca mais será visto
o fluxo pode rugir
ou desaparecer

rezo
se for o caso
que ruja
o charme da loucura 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

eternamente eu só chorava

daquela cena de fundo azul
azul-marinho profundo
riscada em traços pretos
ora delicados
ora grosseiros

o auto-retrato solitário
que mais me chamou
foi aquela menina
caindo pelo chão

nas manhãs
era onde o sol não batia
ficava na penumbra
fazendo da sombra altar
expondo o que era luz

desse lugar-memória
particularmente
o que eu mais gosto
é onde os dedos
encontram a pele

levemente encostados
na margem da coxa
afundando delicadamente
covas rasas
onde pulsa em segredo
rio vermelho quente

pequenas sepulturas
expondo o limite
corpo continente
entregando o toque mais íntimo
até esgotar os sentidos

chamando à luz
de olhos fechados
para abrir
os próprios sentidos

preparando o salto

a decisão foi tomada
pela força do meu sentir
sem tocar fechou o portão
para jamais retornar

tudo que eu ofereci
me elevou aos céus
em aceleração explosiva
fissão nuclear

até chocar meu corpo
na abóbada celeste
desaceleração brutal
flutuei no nada por segundos
alucinado pela pancada

o impacto contundente
rasgou minha pele
inchou as articulações
espalhou escoriações
mas me deixou vivo

a queda começou como um sonho
vento cortava meu rosto
e eu descansava embalado
num conforto uterino

quando finalmente percebi
o chão subia
rápido demais

só pude fechar os olhos
e deixar a potência da gravidade
me afundar quilômetros
no manto terrestre

no verdadeiro útero
semeei o que sobrou de vida
respirando o mais lento possível
soltando mais lento ainda

até o rizoma beber de mim
e devolver alimento às raízes

me preparando
para o próximo salto
a próxima queda
o próximo renascimento

até o fim