domingo, 7 de junho de 2026

por um fio

como se não bastasse desfiar
a nossa gramática
aquela que só faz sentido
pra nós

tecida na viscosidade
da experiência 
atravessada

além desse martírio
que já deveria bastar

um amanhã se foi
junto com ele
bibliotecas e cartórios

nada mais
nem antes nem depois
restou imaculado
tudo corrompido
pelo insistente eterno

até hoje
nada mais é
tudo está
suspenso
balançando
pendulando

sempre por um fio
mas um fio tecido
aracnídeo

os sonhos estão presos
e a teia
não se rompe facilmente

sábado, 6 de junho de 2026

estado de exceção

fiquei só mais um pouquinho

o pico já tinha passado
faz tempo

mas continuava ressoando

e esse ressoar
me fez permanecer

só mais um pouquinho

sustentado pela expectativa

até que ela própria
deixou de nutrir
qualquer coisa

o laço partido

a conexão cessou
instantaneamente

tempo suficiente
para a alma
assentar no corpo

e a magia esvanecer
como pó de pirilipimpim

de repente
a gravidade terrestre
estava lá

incontáveis quilômetros
de metros cúbicos de oxigênio
enchendo os pulmões
pesando nos ombros

lembrando que o corpo
estala
range
torce

luzes intensas coloridas
gasosas
brilhando onde não deviam
boa parte floreios
do nosso próprio cerebelo

fui deixado entre matagais
mais uma vez ciente
as soluções não chegam
a magia passou

mas uma luz insistente
veio outra vez

no início do túnel

trazendo caminho
linha
traçado

levando embora

eis que surge
a magia

quem é ela?
acho que só existe
enquanto procuro

vem em forma de cor
gás
fumaça
fogo
som

ao mesmo tempo
não vem de forma alguma
ou já veio
ou já foi

a progressão continua

mesmo quando nada resta

me respira

revolução dentro da revolução
novo processo disruptivo
golpe dentro da ferida
escada infinita
em piano dramático

ainda não posso subir
embora possa atravessar
outras salas
obras
jardins

mas o vazio
a ser preenchido
o devir
o bréu além de mim

aquilo que está além
continua chamando
via sinais alquímicos

me põe em sincronia
me revela
me expande

areja
me respira

finalmente
fermenta
borbulha

minha obra

mais um pouco

me respira

dobrão

o choque contundente
é uma das maneiras brutais
de causar dano

capaz de rasgar
furar
estilhaçar
espatifar

os cacos desaparecem em pó

por mais que busquemos
em cada canto escondido
há sempre uma falta

em forma de meia lua
crescente ou minguante
depende de quem e como busca

mas sempre fosca
incapaz de discernir
o golpe da cicatriz

se não monta
o quebra-cabeça

serve na ponta do dedo
para variar
acordes gingados

quinta-feira, 28 de maio de 2026

presentear-me com o que tenho

já faz um tempo 
te escrevi pela última vez
e ainda vai levar mais um tempo

a vida tem sido mais turbulenta
do que jamais imaginei

o ritmo aqui
é o completo oposto
da vida ali

tenho processado a viagem
repetidamente
nos processadores

e agora estou melhor
em me presentear
com o presente

mas faz tempo
que não tenho
tido minhas pessoas

tem alguma coisa
muito especial
em tê-las por perto

enquanto não as tenho
tenho procurado
pelo menos a mim mesmo

o máximo
que eu encontrar

terça-feira, 26 de maio de 2026

invisível extraordinário

poder supremo dos desencontros
não consigo te ver
nem que a gente divida a mesma vida
respire o mesmo ar
e pise na mesma mata

não te vejo
mesmo que nossos caminhos
sejam os mesmos de sempre
cílios que protegem nossas águas
salgadas e doces

mesmo assim te procurei
de soslaio
fantasma que ronda
no canto do olho
mas quando enquadro a fotografia
desaparece instantaneamente

mesmo assim te achei
coração palpitante
medo dilacerante
mesmo assim fui

e quando vi
tive certeza
que era tu

o carrossel de cores vibrantes
suspensos sobre galhos
pneumáticos
pseudonaturais
mortos mesmo

afinal
a gente até sabe
natural e artificial
são categorias inventadas

prótese típica do ciborgue
por mais que tu negue
transitamos no mesmo mundo
sujeitos dos mesmos traumas
nenhuma experiência
é individual

fica na moral
mas não fica confortável
porque eu não to nem aqui

to fazendo minha arte
do jeito que dá

quinta-feira, 21 de maio de 2026

estrelas, flores e armadura

ainda lembro
das texturas de costas

próximo ao ombro esquerdo
um caminho em braile
marcas ancestrais

runas na carne
como forma de reverenciar
reverenciando
como forma de lembrar

já no lado direito
a escápula saltava
deformada de tanta reverência
ergueu-se proteção
contra fogo-amigo

não esqueço
das tintas de frente

com a mão dominante
um pincel displicente
descendo na diagonal
buscando assimetria

descendo da direita
girando para esquerda

riscando de preto
braço
tronco
perna

estrelas
flores
e formas negras
armaduras

encobrindo cores antigas
desbotadas
mas ainda vivas
por entre as grades
recém formadas

quarta-feira, 20 de maio de 2026

só um pouquinho

ainda tô esperando
mas só um pouquinho

aquele momento
que tu adia

há dias
semanas
meses
e anos

mas só um pouquinho

se quiser
largo agora

não sou viciado

sei disso
porque faço exatamente
a mesma coisa

todos os dias

só um pouquinho

as teias já estão tecendo
a si próprias

e eu sigo aguardando

só mais um pouquinho

uma verdade
ser revelada

ou finalmente
desiludida

só pra depois
mais uma vez

ser refeita

propriocepção

te procurei a madrugada inteira
por todos os caminhos neurais
por todas as vias sacras
que desembocam no cerebelo

rodei como uma fita
por cada imagem e som
retrocedendo e avançando
sem nunca ter um único vislumbre teu

até que bem perto do fim
quando o frio se dissipa
e o sol ameaça iluminar
tu surgiu sorridente

com a tua própria câmera 
registrando teus próprios registros
pessoas, figurinos, performance
a tua própria cena

eu via a cena da cena
observador do observador
registro do registro
a prova que já se foi

só eu que continuo registrando
a minha própria busca
reencenando uma cena morta
à procura de uma flor negra
florescendo sobre uma pele branca

terça-feira, 19 de maio de 2026

dança da fumaça

ver de perto
o que não existe
nas brasas incandescentes
no vapor lacrimejante
fumaça dançando

a vida acontecendo
correndo o risco
de pegar fogo

verde perto
sopro incendiário
irrompe em chamas
chama para o ápice

como seu benedito
benzendo a água benta
abranda o permanente

o provisório
segue incendiando
até não restar nada
a não ser a dança
da fumaça

quase tudo que colapsa

fiquei um pouquinho decepcionado

confesso
também não lembrava

meu universo me preserva de mim

aliás
de mim não
do que fazem de mim

os dois polos são importantes
estrutura e sujeito
potente e potência
presos ao tempo
e ao território

então fiquei
um pouquinho decepcionado

conectei todos os pontos

desenhei novos
que deram linha
e deram liga

petrificados em concreto
ou argamassa de gelo

colapsam com pressão
calor
ou os dois

surpreendentemente previsível
como quase tudo que colapsa

no polo norte
ou no sul global

enquanto isso
o corpo seguia pedindo
inquieto

de qualquer forma
cortei as bananas em rodelas

adicionei leite
aveia
pasta de amendoim

uma pitada de cúrcuma
e canela

bati tudo
com bastante água gelada

terça-feira, 12 de maio de 2026

terreno de marinha

a pista virou terreno de marinha
descendo às fossas oceânicas

gosto de sal
saliva
e cinzas vulcânicas

não tem pra quem quer, mainha

se essa é a resposta
então segura as tangas

clima de ilha é assim

surpreendentemente previsível

o mar está avançando

aqui mesmo

trinta metros abaixo
de toda essa água

já foi rua

sábado, 9 de maio de 2026

amortecedor

não vamos conversar nunca mais

esse clima ruim entre a gente
nunca mais deixou
o céu abrir

e agora

mais uma temporada de chuva

diluindo a acidez do pranto
disfarçando lágrimas
no rosto

tenho medo
de sentir pra sempre

mais ainda
de deixar de sentir

porque eu já percebi

não vai vir ninguém

ainda

até hoje

todo esse tempo

esse tempo todo

amortecendo

e prolongando

o impacto

tecendo dores

e protegendo

o próprio amor

domingo, 26 de abril de 2026

conseguimos

por que?

não
não é essa a pergunta

eu sei exatamente
por quê

mas então
qual é?

acho que esse é o segredo
fechado num quarto
sem portas nem janelas

ainda não descobri

se não por quê
então como?

como sair daqui

será essa?

muitas perguntas
nenhuma resposta

ainda tô no nível
de descobrir 
qual é a pergunta

a língua seca
sem palavra na ponta

acho que já entendi
como aconteceu

é só olhar pra trás

materialmente
politicamente
dialeticamente

tudo é contraditório

somos poços
de contradição

mas então

qual é a pergunta
que me serve?

ainda não descobri

só sei que não é nenhuma dessas

ou talvez até seja

mas então
foi a resposta
que não serviu

talvez perguntar direito
seja o motivo

e o fato
de nunca chegar
seja o combustível

pra que?
por que?
como?
quando?

e agora?

agora acabou

conseguimos

chegamos lá

?

equilíbrio em curto

o último ano normal da minha vida
terminou com um grande rompimento

me sentia no auge
a queda
é sempre pior
dada a altura

alguma coisa
já estava falhando

depois
tudo virou caleidoscópio

como se o disjuntor
tivesse disparado
tentando conter o curto

mas a fumaça já subia
o cheiro de morte no ar

já estava em curso

acreditava que isso
era só meu

só que poucos dias depois
o mundo inteiro
entrou em quarentena

os universos colidiram
pro bem
e especialmente para o mal

deixou de ser olho no olho
e voltou a ser olho por olho

o tempo que antes se arrastava
continuou

mas também voou
sem sair do lugar

borrões nas laterais
e um ponto fixo
de hiperfoco à frente

o horizonte cumpre seu papel
e nunca chega

instiga a continuar

atrás
o mais denso breu

à frente
não sei se há luz

ou se é só
o brilho dos meus olhos
que me impede de ver

terça-feira, 21 de abril de 2026

passagem

ressurgiu
reativando dores
e alergias

inevitavelmente
entendi
que só tinha esse caminho

inconformado
com minhas próprias atitudes
mas também pela forma como as lia 

estou aqui
cada vez menos
mas ainda aqui
tenho tarefas a fazer

medindo as palavras
sem deixar pontas soltas
catapultado pelas circunstâncias
me virando por aí

e então sumi

medicado
edificado

não tenho palavras
e não vou busca-las

e tu?

quarta-feira, 15 de abril de 2026

memórias de motocicleta

levaram ela
não a encontrei em nenhum andar

zombaram de mim
disseram nada ter a ver comigo

levaram embora
mas ela tá sempre comigo
me leva embora
me traz de volta

eu tava lúcido
lembro de tudo
o rosto de cada uma
e todos eles

mas só depois
me lembrei de acordar

ficou marcado
através de sinapses nervosas
ansiosas para reencontrar
a tua memória

ainda tô aqui
por minha conta e risco
pro bem
e principalmente pro mal

mal me quer
bem querer

acordei
e ela tava aqui

bem do meu lado
me levando embora

zunindo pela estrada
de volta pra ela

sexta-feira, 10 de abril de 2026

prata líquida

tão rápido
te arrodeia
retrograda
como se voltasse

pesado
te contamina
invade as fendas
transforma a ausência

cemitério nascedouro

torce
reverte
inverte

mesma lembrança
n'outro lugar

filmes metálicos finíssimos
marmoreiam por dentro
longe do mar

prova
em fevereiro
a sereia veio
a festa aconteceu

que seja eterna
enquanto cure

terça-feira, 31 de março de 2026

aventura extra uterina

isso é uma montanha
ou pelo menos pra mim é
pra tu eu não sei
pode ser o que tu quiser

eu que fiz assim
achei que combinava
com altos e baixos
relevos e texturas
um grande esforço pra subir

a vista é estonteante
mas te engana
porque é sonho também
muito longe da terra
tudo parece possível
mas é tudo loucura

nunca soube pra que subir
só sabia que tinha
na real era o único caminho
de repente eu tava subindo

voltar não dá
o portão do retorno está trancado
o último lugar seguro foi uterino
e o próximo é entre húmus

sumir também não resolve
onde eu ia
eu tava lá
só mais uma ilusão de controle
tu tá sempre aí

quinta-feira, 19 de março de 2026

de andada

não adianta chorar
não adianta tentar
não adianta desistir
não adianta cantar

não chega de jeito nenhum
nem voltando
nem partindo
nem mesmo ficando

não há presente
não há pretérito
não há futuro
nem perfeito
nem imperfeito

nunca chega
porque só vai
não tem chegança
só tem andança

longe da cadência dos ponteiros
ou da certeza dos emissores de luz

num ritmo próprio
neurodivergente
fora do compasso

cada segundo
se alonga
ou se encolhe 

só adianta chorar
só adianta tentar
só adianta desistir
só adianta cantar

quarta-feira, 18 de março de 2026

bela adormecida

custou quase dez anos
até logos pintados à mão
pincéis habilidosos
bailando sobre a tela

nunca mais nos veremos
ou talvez algum dia
meio século depois
tudo ainda parece rascunho

analogia imperfeita
nunca mais repito
nada se sustenta
tudo acontece e se desfaz

qualquer que fosse meu crime
bastava uma bala
o resto era apenas
desejo de matar

morri
mas to de pé
bem ao teu lado
em silêncio

tentando encontrar um jeito
de sair perdendo
de novo
mais uma vez
até não ser mais

terça-feira, 10 de março de 2026

ruínas de beija-flor

to prestando atenção
nos terrenos que ainda oferecem moradia
mesmo quando não tem teto nem telhado

falta tudo
e ainda assim
está tudo escancarado

mas basta um levante de lembranças
e já é o suficiente
pra fazer uma visita

o cheiro de ar salitroso
as ferragens enferrujadas
o cuidado para não cortar as mãos

de repente
um vidro quase opaco de sujeira
adesivos encardidos
que testemunham a passagem lenta
e ao mesmo tempo imediata
do tempo

quando a luz do sol irradia
e faz dele espelho
um beija-flor entorpecido
se vê no reflexo da memória

beija ansiosamente a si próprio
a maior de todas as flores
sua própria ilusão

e insiste

como se fosse possível
beber o que nunca esteve ali
sede tenaz

até cessar
o frenesi das asas
descansar
o coração minúsculo

restará apenas o sol radiante
a beijar a si próprio

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

colapso magnético

o anterior foi o ápice da história do universo
ofuscou tudo
e quando foi embora deixou fosco

restou opaco
oco
sem vida

o corpo cobrou o preço pelo desapreço
primeiro forçando a máquina
levando a matéria ao limite
pra ver se sentia alguma coisa
adrenalina, serotonina e ocitocina

mas os neuroreceptores estavam traumatizados
a descarga de energia havia sido enorme
por onde passava corrente elétrica
virou tempestade magnética
devastando todos os aparelhos

sem dados
a navegação foi guiada pelo que o olho via
imediatamente à frente
que, sejamos honestos, mal via qualquer coisa
ora apenas o que queria
ora apenas o que não queria

depois de muito pedir para o tempo parar
pra ver se dava tempo de voltar
finalmente ele começou

veio quase emudecido
sem sentido
e se transformou no próprio sentido
o fim em si mesmo

foi quando tu surgiu numa vassourinha
materializou de novo, chama que vem
aquecendo uma madrugada fria
em meio a uma multidão que acompanha
o nascimento de uma estrela

a festa da carne presenteou rios inteiros
sem direção
e cheios de intenções

caminhos abertos de tal forma
que o mundo inteiro passou em poucos segundos

nova tempestade magnética
raios, trovões, relâmpagos
um espetáculo de fogos de artifício
ensurdecedor

nos protegemos
e agora olhamos de longe
o céu outrora opaco
brilhava intensamente de novo

apresentando uma nova aurora
e a melhor hora da praia

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

ateu em busca de fé

deixa eu lembrar
as primeiras cenas são flashes
tenho que insistir um pouco
até montar
as pequenas sensações
e as grandes

primeiro
surpresa
de novo parece que materializou
o desejo em carne viva
uma anarquia onírica

depois
curiosidade
tu chamou e eu fui
íons energizados dançando entre nós
o ritmo não era perfeito
mas tinha encaixe

em algum momento
um fluxo pediu passagem
como uma cachoeira pacífica
mas constante
lapidando pedras pesadas
sem pedir licença
nem explicação 
as águas rolando

e a última tromba d’água ainda ameaça
como algo que vem aí
ou que nunca mais será visto
o fluxo pode rugir
ou desaparecer

rezo
se for o caso
que ruja
o charme da loucura 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

eternamente eu só chorava

daquela cena de fundo azul
azul-marinho profundo
riscada em traços pretos
ora delicados
ora grosseiros

o auto-retrato solitário
que mais me chamou
foi aquela menina
caindo pelo chão

nas manhãs
era onde o sol não batia
ficava na penumbra
fazendo da sombra altar
expondo o que era luz

desse lugar-memória
particularmente
o que eu mais gosto
é onde os dedos
encontram a pele

levemente encostados
na margem da coxa
afundando delicadamente
covas rasas
onde pulsa em segredo
rio vermelho quente

pequenas sepulturas
expondo o limite
corpo continente
entregando o toque mais íntimo
até esgotar os sentidos

chamando à luz
de olhos fechados
para abrir
os próprios sentidos

preparando o salto

a decisão foi tomada
pela força do meu sentir
sem tocar fechou o portão
para jamais retornar

tudo que eu ofereci
me elevou aos céus
em aceleração explosiva
fissão nuclear

até chocar meu corpo
na abóbada celeste
desaceleração brutal
flutuei no nada por segundos
alucinado pela pancada

o impacto contundente
rasgou minha pele
inchou as articulações
espalhou escoriações
mas me deixou vivo

a queda começou como um sonho
vento cortava meu rosto
e eu descansava embalado
num conforto uterino

quando finalmente percebi
o chão subia
rápido demais

só pude fechar os olhos
e deixar a potência da gravidade
me afundar quilômetros
no manto terrestre

no verdadeiro útero
semeei o que sobrou de vida
respirando o mais lento possível
soltando mais lento ainda

até o rizoma beber de mim
e devolver alimento às raízes

me preparando
para o próximo salto
a próxima queda
o próximo renascimento

até o fim

imitando ela

não pede desculpas
vai cuidando
fazendo pose
imitando ela

emite energia
do nada
serve sozinho
pra aprender

usa minha máscara
não precisa pedir
quando menos perceber
vão te ver

olha ela
desiste tão fácil
resiste não
nem tenta

triângulo isóceles
geometria sagrada
que sustenta
o balanço

gingando
meia lua minguando
mãos no solo
pés no alto

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

é tudo mentira

ei
ei
presta atenção
por favor

eu sei
eu sei que isso que tu criou
isso que tu sentiu
foi a coisa mais linda
eu sei
eu lembro

eu lembro
mas passou
como passa um bloco
arrastando tudo
deixando silêncio
retumbante
presta atenção

eu sei
foi a coisa mais linda
do mundo inteiro
foi o próprio mundo
foi

olha pra mim agora
tá vendo alguma coisa?
não né?

escuta
tá ouvindo?
não tem nada tocando

nem vento
nem pensamento
nada é teu
já foi

já não é
e nem será
passou
foi embora
inefavelmente

é tudo mentira
e foi tudo verdade
ao mesmo tempo

eu tô acessando de novo
uma versão de mim
que eu me orgulho

uma versão de mim
que um dia nasceu
viveu intensamente
e morreu

agora
respira outra vez
por aparelhos
tecnológicos ancestrais
como tem que ser

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

cartas para ler sobre o pretérito mais que imperfeito

o fato é que tô desprotegido
às vezes desolado
outras confiante
a segunda é a mais perigosa
destemido
e ignorante

agora irremediável
sem escapatória
o processo é lento
quase parando
quase retrocedendo

escoriado
costurado
amarrado
enterrado
afundado
inevitável

entre duas escolhas
tenho feito sempre a errada
a que traz sufoco
machuca

achei que tava indo embora
mas o vazio não foi
tá aqui
ocupando espaço
irreparável
incontornável

não sobra opção
senão enfrentar
enfrentar o que não se sabe
o desconhecido
o improvável
ao mesmo tempo
o único obstáculo possível
óbvio
ululante

agora
botar a cabeça pra fora d'água
agarrar o galho mais alto
não soltar

e depois
pouco a pouco
descer da árvore
que um dia
me salvou da enchente

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

todo cuidado é pouco

as cartas prometiam
vem aí
em três dias, três meses
ou no máximo três anos

busquei sem encontrar
ao preço de sangue e lágrimas
desisti e aí veio
atravessado em meu caminho
como um obstáculo invencível

perdi a força das pernas
a dureza dos braços
o hábito da ternura
mas guardei intacta
a loucura do coração

ninguém dá uma passadinha
em canto nenhum
ou está inteiro
ou nunca esteve

escuro, silencioso, quieto

tô no fundo do poço
e cavando ainda mais fundo
com as próprias mãos
já calejadas, unhas sujas de terra

algumas caíram
misturadas aos vermes
cavando junto comigo

tão fundo
esperando chegar ao fim
e cair num buraco sem fim

talvez no buraco seguinte
encontre o vazio do universo
escuro, silencioso, quieto
através do espelho

sufoco

por favor
me ajuda
to afundando
não sei o que fazer

não tô sentindo nada
se eu tiver errado
por favor
me deixa viver

não vai embora
tô aqui
sem fôlego
trôpego
tentando me equilibrar

me tira daqui
prisão sem paredes
me devolve a paz
me deixa seguir

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

recife mandou me chamar

errado por linhas tortas
vai porque quer
falta de carinho não é

todo recifense quer voltar
morre de saudade
marca viagem 
mas não resolve

até o próximo carnaval

amadurecer é descobrir
um jeito bonito de amar
guardar a saudade em silêncio
lembrar sem ferir
soltar devagarinho

o que foi virou água
o que vem ainda é neblina
só no agora
recife está dentro de mim

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

o que é do homem o bicho não come

se prepara
os tambores anunciam 
silenciosos
você vai vencer

axé
ancestralidade
continuidade 
fio que sustenta
quem nunca partiu

o sagrado
o profano
dançam juntos
colados pele e suor

toda regra treme
toda ordem vacila
o corpo lembra

é proibido
mas se quiser
pode


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

não retornado

cavando espaço
nas últimas folhas verdes
garimpando cristais de gelo

faz morada fixa
mas leva a casa nas costas
até estourar a hérnia
disco quebrado

travou no brega
na tecnologia
na malemolência
acostuma os tímpanos
até preencher os poros

vira o próprio labirinto

não desiste da andada
seja por quais meios
mãos ou pés
ou cerebelo

começou com outra intenção
se transformou no caminho
atropelou a si próprio
na ida
na volta

acima
abaixo
dentro
fora

ora consumindo
ora excretando
fluxo líquido
na busca do outro

jamais retornei
me encontrei
desemoldurado

curvas abertas

como se defender da lógica
quando ela invade uma sensação
querendo recortar todas as curvas

planto bananeiras num chão instável
fico de ponta-cabeça
pra confundir o labirinto

colho raízes tortas
que insistem em me sustentar
mesmo com as pernas no ar

gosto de surpreender
talvez porque a curiosidade
seja a minha forma de permanecer

íntimo da possibilidade
provoco com a continuidade
evoco a liberdade

ainda aqui
ora correndo contra o tempo
ora lutando contra a matéria

o corre nunca acaba
mas aprende que o processo é lento
amarrado no quadril

sou esse que fica
depois das despedidas
ainda torce o pescoço

domingo, 4 de janeiro de 2026

desejo, repetição e recusa

o dia que nunca acaba
acorda sempre na mesma falta
a sombra que entra igual pela fresta
se retroalimenta num ciclo vicioso
o corpo reconhece o roteiro
antes mesmo de abrir os olhos

o mesmo dia se repete
não por magia
mas por insistência
parece preso num ciclo
que se sustenta na estagnação
como um motor dando corte

não é exatamente uma ilusão
é uma realidade moldada à mão
pelo desejo de permanência
pela recusa em acordar
de um sonho
que há muito tempo virou pesadelo

viver eternamente no mesmo dia
é uma forma lenta de morte
sem ruído
sem ruptura

sem mudança
o amor perde peso
vira hábito
repetição sem risco
promessa sem corpo

aceitar a impermanência
não é desistir
é aprender a atravessar
o medo de perder
para que algo
ainda possa
acontecer