quarta-feira, 5 de agosto de 2026

força centrípeta

eu não sei

foi tudo tão rápido
tão assustador

tentei segurar os ponteiros

só queria 
que não fosse embora

...

não sei nada

foi muita coisa

tanta coisa

desenhei tudo

rabisquei cada pixel
pra não esquecer nada

como se lembrar
fosse impedir a partida

como se registrar
fosse outra forma
de permanecer

...

hoje eu sei
divido cigarros com demônios

danço ao redor do tempo

para que a força centrípeta
me mantenha girando

preso o bastante
para não me perder
de mim mesmo

terça-feira, 21 de julho de 2026

atrito

dobramos juntos
o pequeno espaço

numa carta curta
indiferente
afável

caminhei só
rasgando pedras
irreconhecíveis

domamos juntos
a grandeza do tempo

em rédeas longas
displicentes
arredias

corri sozinho
mãos em brasa
irredutíveis

quinta-feira, 16 de julho de 2026

brechinha

abri uma brechinha da janela

mas só um pedacinho

apenas o suficiente
para arrejar

desanuviar os pensamentos
atravessados por dias
de resina e fumaça

dirigindo
e digerindo
as cenas

em completa nudez

devorando cada personagem

sem jamais encontrar
a linha de costura

sigo movendo
incessante

por lugares
e tempos
irreconhecíveis

uma brecha
de dois dedos
preserva minha nudez

mas não impede
o ar gélido
nem a passagem
de milhares de santos
dançando como fumaça

terça-feira, 14 de julho de 2026

perto do fim

se está doendo tanto
leve suas sobras
esse peso cadavérico
do tamanho do universo

guarde todas as linhas
perfeitamente retas
mesmo nas curvas

ou perfeitamente curvas
mesmo em linha reta
impossível de distinguir

guarde a magia ancestral
repetindo feitos heróicos
de quem se salvou antes

adiando a ruína
o quanto puder
fazendo vida
nas entrelinhas

até que
as sobras de dor
aprendem a morrer
palavras perdidas
tão desacompanhadas

perdão

passou

quinta-feira, 2 de julho de 2026

calmaria

há muito tempo
fui amaldociado
com uma graça

não esquecer jamais

memória eidética
típica de crianças neuroatípicas

ou seria apenas
sintomas mórbidos

de um tempo de guerra
inesgotável processamento
em grupos focais
esteticamente estilizados
conforme o conformismo

o mesmo confronto
sujeito e estrutura
yin e yang
in and out
a ilha que se repete

nos mesmos fios de alta tensão
os prédios liquefazendo-se em líquen
verde novo nessa hora
de soslaio

observa recortes de uma vida
calmaria do oceano

eu vi a sereia cantar
mas não me engano

o oceano fecha as marés
incinera os ventos
irrita os pulmões

a memória tuberculosa
a caixa toráxica
completamente deformada
mas ainda estão todos lá

eides olhos castanhos
eides sombras bruxuleantes
eides timbres e melodias
e o calor brando

todos os sentidos
neuroatípicos

agraciado
como qualquer maldição

terça-feira, 23 de junho de 2026

zona de rifte

despertei na cozinha
encostado na bancada
fitei primeiro meus próprios pés
e depois levantei o olhar

à minha frente
o mundo entortava
e uma fenda surgia
rasgando a crosta terrestre

um torno mecânico
produzia sons metálicos
como grave acidente
misturado a um grito abafado

não

mas
inexoravelmente
centímetro a centímetro
as placas se afastavam

eu assistia chocado
ciente da cena absurda
mas fingindo normalidade
tentando conter a realidade

em teoria
e práxis
dois portais alinhados
só paredes em pé
uma geometria impossível

o abismo me olhava de volta
e cada olho que me atravessava
um fundo de poço viscoso
rios inteiros correndo para longe

escavando fiordes
abrindo caminhos
soltando devagar
o que estava preso

caminhando lento
olhando atento
fui escrevendo
em todas as abas

com medo que a correnteza
levasse junto
os pensamentos
as pessoas
as versões

por isso
registrava tudo
freneticamente
como quem tenta impedir
o afastamento tectônico

mas a memória também deriva
centímetro a centímetro
até que um dia
milhares de anos-luz
cabem entre dois corpos-continentes

então
virei de costas
busquei um copo fundo
enchi de água morna

um típico estresse hídrico
levantei os olhos
despertei na cozinha

domingo, 7 de junho de 2026

por um fio

como se não bastasse desfiar
a nossa gramática
aquela que só faz sentido
pra nós

tecida na viscosidade
da experiência 
atravessada

além desse martírio
que já deveria bastar

um amanhã se foi
junto com ele
bibliotecas e cartórios

nada mais
nem antes nem depois
restou imaculado
tudo corrompido
pelo insistente eterno

até hoje
nada mais é
tudo está
suspenso
balançando
pendulando

sempre por um fio
mas um fio tecido
aracnídeo

os sonhos estão presos
e a teia
não se rompe facilmente

sábado, 6 de junho de 2026

estado de exceção

fiquei só mais um pouquinho

o pico já tinha passado
faz tempo

mas continuava ressoando

e esse ressoar
me fez permanecer

só mais um pouquinho

sustentado pela expectativa

até que ela própria
deixou de nutrir
qualquer coisa

o laço partido

a conexão cessou
instantaneamente

tempo suficiente
para a alma
assentar no corpo

e a magia esvanecer
como pó de pirilipimpim

de repente
a gravidade terrestre
estava lá

incontáveis quilômetros
de metros cúbicos de oxigênio
enchendo os pulmões
pesando nos ombros

lembrando que o corpo
estala
range
torce

luzes intensas coloridas
gasosas
brilhando onde não deviam
boa parte floreios
do nosso próprio cerebelo

fui deixado entre matagais
mais uma vez ciente
as soluções não chegam
a magia passou

mas uma luz insistente
veio outra vez

no início do túnel

trazendo caminho
linha
traçado

levando embora

eis que surge
a magia

quem é ela?
acho que só existe
enquanto procuro

vem em forma de cor
gás
fumaça
fogo
som

ao mesmo tempo
não vem de forma alguma
ou já veio
ou já foi

a progressão continua

mesmo quando nada resta

me respira

revolução dentro da revolução
novo processo disruptivo
golpe dentro da ferida
escada infinita
em piano dramático

ainda não posso subir
embora possa atravessar
outras salas
obras
jardins

mas o vazio
a ser preenchido
o devir
o bréu além de mim

aquilo que está além
continua chamando
via sinais alquímicos

me põe em sincronia
me revela
me expande

areja
me respira

finalmente
fermenta
borbulha

minha obra

mais um pouco

me respira

dobrão

o choque contundente
é uma das maneiras brutais
de causar dano

capaz de rasgar
furar
estilhaçar
espatifar

os cacos desaparecem em pó

por mais que busquemos
em cada canto escondido
há sempre uma falta

em forma de meia lua
crescente ou minguante
depende de quem e como busca

mas sempre fosca
incapaz de discernir
o golpe da cicatriz

se não monta
o quebra-cabeça

serve na ponta do dedo
para variar
acordes gingados

quinta-feira, 28 de maio de 2026

presentear-me com o que tenho

já faz um tempo 
te escrevi pela última vez
e ainda vai levar mais um tempo

a vida tem sido mais turbulenta
do que jamais imaginei

o ritmo aqui
é o completo oposto
da vida ali

tenho processado a viagem
repetidamente
nos processadores

e agora estou melhor
em me presentear
com o presente

mas faz tempo
que não tenho
tido minhas pessoas

tem alguma coisa
muito especial
em tê-las por perto

enquanto não as tenho
tenho procurado
pelo menos a mim mesmo

o máximo
que eu encontrar

terça-feira, 26 de maio de 2026

invisível extraordinário

poder supremo dos desencontros
não consigo te ver
nem que a gente divida a mesma vida
respire o mesmo ar
e pise na mesma mata

não te vejo
mesmo que nossos caminhos
sejam os mesmos de sempre
cílios que protegem nossas águas
salgadas e doces

mesmo assim te procurei
de soslaio
fantasma que ronda
no canto do olho
mas quando enquadro a fotografia
desaparece instantaneamente

mesmo assim te achei
coração palpitante
medo dilacerante
mesmo assim fui

e quando vi
tive certeza
que era tu

o carrossel de cores vibrantes
suspensos sobre galhos
pneumáticos
pseudonaturais
mortos mesmo

afinal
a gente até sabe
natural e artificial
são categorias inventadas

prótese típica do ciborgue
por mais que tu negue
transitamos no mesmo mundo
sujeitos dos mesmos traumas
nenhuma experiência
é individual

fica na moral
mas não fica confortável
porque eu não to nem aqui

to fazendo minha arte
do jeito que dá

quinta-feira, 21 de maio de 2026

estrelas, flores e armadura

ainda lembro
das texturas de costas

próximo ao ombro esquerdo
um caminho em braile
marcas ancestrais

runas na carne
como forma de reverenciar
reverenciando
como forma de lembrar

já no lado direito
a escápula saltava
deformada de tanta reverência
ergueu-se proteção
contra fogo-amigo

não esqueço
das tintas de frente

com a mão dominante
um pincel displicente
descendo na diagonal
buscando assimetria

descendo da direita
girando para esquerda

riscando de preto
braço
tronco
perna

estrelas
flores
e formas negras
armaduras

encobrindo cores antigas
desbotadas
mas ainda vivas
por entre as grades
recém formadas

quarta-feira, 20 de maio de 2026

só um pouquinho

ainda tô esperando
mas só um pouquinho

aquele momento
que tu adia

há dias
semanas
meses
e anos

mas só um pouquinho

se quiser
largo agora

não sou viciado

sei disso
porque faço exatamente
a mesma coisa

todos os dias

só um pouquinho

as teias já estão tecendo
a si próprias

e eu sigo aguardando

só mais um pouquinho

uma verdade
ser revelada

ou finalmente
desiludida

só pra depois
mais uma vez

ser refeita

propriocepção

te procurei a madrugada inteira
por todos os caminhos neurais
por todas as vias sacras
que desembocam no cerebelo

rodei como uma fita
por cada imagem e som
retrocedendo e avançando
sem nunca ter um único vislumbre teu

até que bem perto do fim
quando o frio se dissipa
e o sol ameaça iluminar
tu surgiu sorridente

com a tua própria câmera 
registrando teus próprios registros
pessoas, figurinos, performance
a tua própria cena

eu via a cena da cena
observador do observador
registro do registro
a prova que já se foi

só eu que continuo registrando
a minha própria busca
reencenando uma cena morta
à procura de uma flor negra
florescendo sobre uma pele branca

terça-feira, 19 de maio de 2026

dança da fumaça

ver de perto
o que não existe
nas brasas incandescentes
no vapor lacrimejante
fumaça dançando

a vida acontecendo
correndo o risco
de pegar fogo

verde perto
sopro incendiário
irrompe em chamas
chama para o ápice

como seu benedito
benzendo a água benta
abranda o permanente

o provisório
segue incendiando
até não restar nada
a não ser a dança
da fumaça

quase tudo que colapsa

fiquei um pouquinho decepcionado

confesso
também não lembrava

meu universo me preserva de mim

aliás
de mim não
do que fazem de mim

os dois polos são importantes
estrutura e sujeito
potente e potência
presos ao tempo
e ao território

então fiquei
um pouquinho decepcionado

conectei todos os pontos

desenhei novos
que deram linha
e deram liga

petrificados em concreto
ou argamassa de gelo

colapsam com pressão
calor
ou os dois

surpreendentemente previsível
como quase tudo que colapsa

no polo norte
ou no sul global

enquanto isso
o corpo seguia pedindo
inquieto

de qualquer forma
cortei as bananas em rodelas

adicionei leite
aveia
pasta de amendoim

uma pitada de cúrcuma
e canela

bati tudo
com bastante água gelada

terça-feira, 12 de maio de 2026

terreno de marinha

a pista virou terreno de marinha
descendo às fossas oceânicas

gosto de sal
saliva
e cinzas vulcânicas

não tem pra quem quer, mainha

se essa é a resposta
então segura as tangas

clima de ilha é assim

surpreendentemente previsível

o mar está avançando

aqui mesmo

trinta metros abaixo
de toda essa água

já foi rua

sábado, 9 de maio de 2026

amortecedor

não vamos conversar nunca mais

esse clima ruim entre a gente
nunca mais deixou
o céu abrir

e agora

mais uma temporada de chuva

diluindo a acidez do pranto
disfarçando lágrimas
no rosto

tenho medo
de sentir pra sempre

mais ainda
de deixar de sentir

porque eu já percebi

não vai vir ninguém

ainda

até hoje

todo esse tempo

esse tempo todo

amortecendo

e prolongando

o impacto

tecendo dores

e protegendo

o próprio amor

domingo, 26 de abril de 2026

conseguimos

por que?

não
não é essa a pergunta

eu sei exatamente
por quê

mas então
qual é?

acho que esse é o segredo
fechado num quarto
sem portas nem janelas

ainda não descobri

se não por quê
então como?

como sair daqui

será essa?

muitas perguntas
nenhuma resposta

ainda tô no nível
de descobrir 
qual é a pergunta

a língua seca
sem palavra na ponta

acho que já entendi
como aconteceu

é só olhar pra trás

materialmente
politicamente
dialeticamente

tudo é contraditório

somos poços
de contradição

mas então

qual é a pergunta
que me serve?

ainda não descobri

só sei que não é nenhuma dessas

ou talvez até seja

mas então
foi a resposta
que não serviu

talvez perguntar direito
seja o motivo

e o fato
de nunca chegar
seja o combustível

pra que?
por que?
como?
quando?

e agora?

agora acabou

conseguimos

chegamos lá

?

equilíbrio em curto

o último ano normal da minha vida
terminou com um grande rompimento

me sentia no auge
a queda
é sempre pior
dada a altura

alguma coisa
já estava falhando

depois
tudo virou caleidoscópio

como se o disjuntor
tivesse disparado
tentando conter o curto

mas a fumaça já subia
o cheiro de morte no ar

já estava em curso

acreditava que isso
era só meu

só que poucos dias depois
o mundo inteiro
entrou em quarentena

os universos colidiram
pro bem
e especialmente para o mal

deixou de ser olho no olho
e voltou a ser olho por olho

o tempo que antes se arrastava
continuou

mas também voou
sem sair do lugar

borrões nas laterais
e um ponto fixo
de hiperfoco à frente

o horizonte cumpre seu papel
e nunca chega

instiga a continuar

atrás
o mais denso breu

à frente
não sei se há luz

ou se é só
o brilho dos meus olhos
que me impede de ver

terça-feira, 21 de abril de 2026

passagem

ressurgiu
reativando dores
e alergias

inevitavelmente
entendi
que só tinha esse caminho

inconformado
com minhas próprias atitudes
mas também pela forma como as lia 

estou aqui
cada vez menos
mas ainda aqui
tenho tarefas a fazer

medindo as palavras
sem deixar pontas soltas
catapultado pelas circunstâncias
me virando por aí

e então sumi

medicado
edificado

não tenho palavras
e não vou busca-las

e tu?

quarta-feira, 15 de abril de 2026

memórias de motocicleta

levaram ela
não a encontrei em nenhum andar

zombaram de mim
disseram nada ter a ver comigo

levaram embora
mas ela tá sempre comigo
me leva embora
me traz de volta

eu tava lúcido
lembro de tudo
o rosto de cada uma
e todos eles

mas só depois
me lembrei de acordar

ficou marcado
através de sinapses nervosas
ansiosas para reencontrar
a tua memória

ainda tô aqui
por minha conta e risco
pro bem
e principalmente pro mal

mal me quer
bem querer

acordei
e ela tava aqui

bem do meu lado
me levando embora

zunindo pela estrada
de volta pra ela

sexta-feira, 10 de abril de 2026

prata líquida

tão rápido
te arrodeia
retrograda
como se voltasse

pesado
te contamina
invade as fendas
transforma a ausência

cemitério nascedouro

torce
reverte
inverte

mesma lembrança
n'outro lugar

filmes metálicos finíssimos
marmoreiam por dentro
longe do mar

prova
em fevereiro
a sereia veio
a festa aconteceu

que seja eterna
enquanto cure

terça-feira, 31 de março de 2026

aventura extra uterina

isso é uma montanha
ou pelo menos pra mim é
pra tu eu não sei
pode ser o que tu quiser

eu que fiz assim
achei que combinava
com altos e baixos
relevos e texturas
um grande esforço pra subir

a vista é estonteante
mas te engana
porque é sonho também
muito longe da terra
tudo parece possível
mas é tudo loucura

nunca soube pra que subir
só sabia que tinha
na real era o único caminho
de repente eu tava subindo

voltar não dá
o portão do retorno está trancado
o último lugar seguro foi uterino
e o próximo é entre húmus

sumir também não resolve
onde eu ia
eu tava lá
só mais uma ilusão de controle
tu tá sempre aí

quinta-feira, 19 de março de 2026

de andada

não adianta chorar
não adianta tentar
não adianta desistir
não adianta cantar

não chega de jeito nenhum
nem voltando
nem partindo
nem mesmo ficando

não há presente
não há pretérito
não há futuro
nem perfeito
nem imperfeito

nunca chega
porque só vai
não tem chegança
só tem andança

longe da cadência dos ponteiros
ou da certeza dos emissores de luz

num ritmo próprio
neurodivergente
fora do compasso

cada segundo
se alonga
ou se encolhe 

só adianta chorar
só adianta tentar
só adianta desistir
só adianta cantar

quarta-feira, 18 de março de 2026

bela adormecida

custou quase dez anos
até logos pintados à mão
pincéis habilidosos
bailando sobre a tela

nunca mais nos veremos
ou talvez algum dia
meio século depois
tudo ainda parece rascunho

analogia imperfeita
nunca mais repito
nada se sustenta
tudo acontece e se desfaz

qualquer que fosse meu crime
bastava uma bala
o resto era apenas
desejo de matar

morri
mas to de pé
bem ao teu lado
em silêncio

tentando encontrar um jeito
de sair perdendo
de novo
mais uma vez
até não ser mais

terça-feira, 10 de março de 2026

ruínas de beija-flor

to prestando atenção
nos terrenos que ainda oferecem moradia
mesmo quando não tem teto nem telhado

falta tudo
e ainda assim
está tudo escancarado

mas basta um levante de lembranças
e já é o suficiente
pra fazer uma visita

o cheiro de ar salitroso
as ferragens enferrujadas
o cuidado para não cortar as mãos

de repente
um vidro quase opaco de sujeira
adesivos encardidos
que testemunham a passagem lenta
e ao mesmo tempo imediata
do tempo

quando a luz do sol irradia
e faz dele espelho
um beija-flor entorpecido
se vê no reflexo da memória

beija ansiosamente a si próprio
a maior de todas as flores
sua própria ilusão

e insiste

como se fosse possível
beber o que nunca esteve ali
sede tenaz

até cessar
o frenesi das asas
descansar
o coração minúsculo

restará apenas o sol radiante
a beijar a si próprio

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

colapso magnético

o anterior foi o ápice da história do universo
ofuscou tudo
e quando foi embora deixou fosco

restou opaco
oco
sem vida

o corpo cobrou o preço pelo desapreço
primeiro forçando a máquina
levando a matéria ao limite
pra ver se sentia alguma coisa
adrenalina, serotonina e ocitocina

mas os neuroreceptores estavam traumatizados
a descarga de energia havia sido enorme
por onde passava corrente elétrica
virou tempestade magnética
devastando todos os aparelhos

sem dados
a navegação foi guiada pelo que o olho via
imediatamente à frente
que, sejamos honestos, mal via qualquer coisa
ora apenas o que queria
ora apenas o que não queria

depois de muito pedir para o tempo parar
pra ver se dava tempo de voltar
finalmente ele começou

veio quase emudecido
sem sentido
e se transformou no próprio sentido
o fim em si mesmo

foi quando tu surgiu numa vassourinha
materializou de novo, chama que vem
aquecendo uma madrugada fria
em meio a uma multidão que acompanha
o nascimento de uma estrela

a festa da carne presenteou rios inteiros
sem direção
e cheios de intenções

caminhos abertos de tal forma
que o mundo inteiro passou em poucos segundos

nova tempestade magnética
raios, trovões, relâmpagos
um espetáculo de fogos de artifício
ensurdecedor

nos protegemos
e agora olhamos de longe
o céu outrora opaco
brilhava intensamente de novo

apresentando uma nova aurora
e a melhor hora da praia

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

ateu em busca de fé

deixa eu lembrar
as primeiras cenas são flashes
tenho que insistir um pouco
até montar
as pequenas sensações
e as grandes

primeiro
surpresa
de novo parece que materializou
o desejo em carne viva
uma anarquia onírica

depois
curiosidade
tu chamou e eu fui
íons energizados dançando entre nós
o ritmo não era perfeito
mas tinha encaixe

em algum momento
um fluxo pediu passagem
como uma cachoeira pacífica
mas constante
lapidando pedras pesadas
sem pedir licença
nem explicação 
as águas rolando

e a última tromba d’água ainda ameaça
como algo que vem aí
ou que nunca mais será visto
o fluxo pode rugir
ou desaparecer

rezo
se for o caso
que ruja
o charme da loucura 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

eternamente eu só chorava

daquela cena de fundo azul
azul-marinho profundo
riscada em traços pretos
ora delicados
ora grosseiros

o auto-retrato solitário
que mais me chamou
foi aquela menina
caindo pelo chão

nas manhãs
era onde o sol não batia
ficava na penumbra
fazendo da sombra altar
expondo o que era luz

desse lugar-memória
particularmente
o que eu mais gosto
é onde os dedos
encontram a pele

levemente encostados
na margem da coxa
afundando delicadamente
covas rasas
onde pulsa em segredo
rio vermelho quente

pequenas sepulturas
expondo o limite
corpo continente
entregando o toque mais íntimo
até esgotar os sentidos

chamando à luz
de olhos fechados
para abrir
os próprios sentidos

preparando o salto

a decisão foi tomada
pela força do meu sentir
sem tocar fechou o portão
para jamais retornar

tudo que eu ofereci
me elevou aos céus
em aceleração explosiva
fissão nuclear

até chocar meu corpo
na abóbada celeste
desaceleração brutal
flutuei no nada por segundos
alucinado pela pancada

o impacto contundente
rasgou minha pele
inchou as articulações
espalhou escoriações
mas me deixou vivo

a queda começou como um sonho
vento cortava meu rosto
e eu descansava embalado
num conforto uterino

quando finalmente percebi
o chão subia
rápido demais

só pude fechar os olhos
e deixar a potência da gravidade
me afundar quilômetros
no manto terrestre

no verdadeiro útero
semeei o que sobrou de vida
respirando o mais lento possível
soltando mais lento ainda

até o rizoma beber de mim
e devolver alimento às raízes

me preparando
para o próximo salto
a próxima queda
o próximo renascimento

até o fim

imitando ela

não pede desculpas
vai cuidando
fazendo pose
imitando ela

emite energia
do nada
serve sozinho
pra aprender

usa minha máscara
não precisa pedir
quando menos perceber
vão te ver

olha ela
desiste tão fácil
resiste não
nem tenta

triângulo isóceles
geometria sagrada
que sustenta
o balanço

gingando
meia lua minguando
mãos no solo
pés no alto