terça-feira, 23 de junho de 2026

zona de rifte

despertei na cozinha
encostado na bancada
fitei primeiro meus próprios pés
e depois levantei o olhar

à minha frente
o mundo entortava
e uma fenda surgia
rasgando a crosta terrestre

um torno mecânico
produzia sons metálicos
como grave acidente
misturado a um grito abafado

não

mas
inexoravelmente
centímetro a centímetro
as placas se afastavam

eu assistia chocado
ciente da cena absurda
mas fingindo normalidade
tentando conter a realidade

em teoria
e práxis
dois portais alinhados
só paredes em pé
uma geometria impossível

o abismo me olhava de volta
e cada olho que me atravessava
um fundo de poço viscoso
rios inteiros correndo para longe

escavando fiordes
abrindo caminhos
soltando devagar
o que estava preso

caminhando lento
olhando atento
fui escrevendo
em todas as abas

com medo que a correnteza
levasse junto
os pensamentos
as pessoas
as versões

por isso
registrava tudo
freneticamente
como quem tenta impedir
o afastamento tectônico

mas a memória também deriva
centímetro a centímetro
até que um dia
milhares de anos-luz
cabem entre dois corpos-continentes

então
virei de costas
busquei um copo fundo
enchi de água morna

um típico estresse hídrico
levantei os olhos
despertei na cozinha

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