despertei na cozinha
encostado na bancada
fitei primeiro meus próprios pés
e depois levantei o olhar
à minha frente
o mundo entortava
e uma fenda surgia
rasgando a crosta terrestre
um torno mecânico
produzia sons metálicos
como grave acidente
misturado a um grito abafado
não
mas
inexoravelmente
centímetro a centímetro
as placas se afastavam
eu assistia chocado
ciente da cena absurda
mas fingindo normalidade
tentando conter a realidade
em teoria
e práxis
dois portais alinhados
só paredes em pé
uma geometria impossível
o abismo me olhava de volta
e cada olho que me atravessava
e cada olho que me atravessava
um fundo de poço viscoso
rios inteiros correndo para longe
escavando fiordes
abrindo caminhos
soltando devagar
o que estava preso
caminhando lento
olhando atento
fui escrevendo
em todas as abas
com medo que a correnteza
levasse junto
os pensamentos
as pessoas
as versões
por isso
registrava tudo
freneticamente
como quem tenta impedir
o afastamento tectônico
mas a memória também deriva
centímetro a centímetro
até que um dia
milhares de anos-luz
cabem entre dois corpos-continentes
então
virei de costas
busquei um copo fundo
enchi de água morna
um típico estresse hídrico
levantei os olhos
despertei na cozinha
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