terça-feira, 31 de março de 2026

aventura extra uterina

isso é uma montanha
ou pelo menos pra mim é
pra tu eu não sei
pode ser o que tu quiser

eu que fiz assim
achei que combinava
com altos e baixos
relevos e texturas
um grande esforço pra subir

a vista é estonteante
mas te engana
porque é sonho também
muito longe da terra
tudo parece possível
mas é tudo loucura

nunca soube pra que subir
só sabia que tinha
na real era o único caminho
de repente eu tava subindo

voltar não dá
o portão do retorno está trancado
o último lugar seguro foi uterino
e o próximo é entre húmus

sumir também não resolve
onde eu ia
eu tava lá
só mais uma ilusão de controle
tu tá sempre aí

quinta-feira, 19 de março de 2026

de andada

não adianta chorar
não adianta tentar
não adianta desistir
não adianta cantar

não chega de jeito nenhum
nem voltando
nem partindo
nem mesmo ficando

não há presente
não há pretérito
não há futuro
nem perfeito
nem imperfeito

nunca chega
porque só vai
não tem chegança
só tem andança

longe da cadência dos ponteiros
ou da certeza dos emissores de luz

num ritmo próprio
neurodivergente
fora do compasso

cada segundo
se alonga
ou se encolhe 

só adianta chorar
só adianta tentar
só adianta desistir
só adianta cantar

quarta-feira, 18 de março de 2026

bela adormecida

custou quase dez anos
até logos pintados à mão
pincéis habilidosos
bailando sobre a tela

nunca mais nos veremos
ou talvez algum dia
meio século depois
tudo ainda parece rascunho

analogia imperfeita
nunca mais repito
nada se sustenta
tudo acontece e se desfaz

qualquer que fosse meu crime
bastava uma bala
o resto era apenas
desejo de matar

morri
mas to de pé
bem ao teu lado
em silêncio

tentando encontrar um jeito
de sair perdendo
de novo
mais uma vez
até não ser mais

terça-feira, 10 de março de 2026

ruínas de beija-flor

to prestando atenção
nos terrenos que ainda oferecem moradia
mesmo quando não tem teto nem telhado

falta tudo
e ainda assim
está tudo escancarado

mas basta um levante de lembranças
e já é o suficiente
pra fazer uma visita

o cheiro de ar salitroso
as ferragens enferrujadas
o cuidado para não cortar as mãos

de repente
um vidro quase opaco de sujeira
adesivos encardidos
que testemunham a passagem lenta
e ao mesmo tempo imediata
do tempo

quando a luz do sol irradia
e faz dele espelho
um beija-flor entorpecido
se vê no reflexo da memória

beija ansiosamente a si próprio
a maior de todas as flores
sua própria ilusão

e insiste

como se fosse possível
beber o que nunca esteve ali
sede tenaz

até cessar
o frenesi das asas
descansar
o coração minúsculo

restará apenas o sol radiante
a beijar a si próprio