terça-feira, 10 de março de 2026

ruínas de beija-flor

to prestando atenção
nos terrenos que ainda oferecem moradia
mesmo quando não tem teto nem telhado

falta tudo
e ainda assim
está tudo escancarado

mas basta um levante de lembranças
e já é o suficiente
pra fazer uma visita

o cheiro de ar salitroso
as ferragens enferrujadas
o cuidado para não cortar as mãos

de repente
um vidro quase opaco de sujeira
adesivos encardidos
que testemunham a passagem lenta
e ao mesmo tempo imediata
do tempo

quando a luz do sol irradia
e faz dele espelho
um beija-flor entorpecido
se vê no reflexo da memória

beija ansiosamente a si próprio
a maior de todas as flores
sua própria ilusão

e insiste

como se fosse possível
beber o que nunca esteve ali
sede tenaz

até cessar
o frenesi das asas
descansar
o coração minúsculo

restará apenas o sol radiante
a beijar a si próprio