quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

na ponta dos pés

a situação é ótima
não tem como descer mais
então só posso subir

tô usando a cabeça
tô abrindo as frestas
não tenho nada a perder

o mundo gira capotando
um pequeno ponto no universo
desaprendo o que já sei

começo do princípio
onde tudo era verbo
poesia e ação
na ponta dos pés

domingo, 30 de novembro de 2025

vibração intacta

antes
tinha certeza
que era tu

depois
ainda tenho
cada vez mais

agora
percebo no reflexo
que sou eu

então
isso muda tudo
cada vez mais

morro da sereia

o mar não aceita pressa
a água devolve resistência brutal
onda que não esquece

dá pra ver no céu
mataram peixe hoje
as texturas não mentem

sereia
te enfeita
cuida com teus feitiços
há escamas no céu

sábado, 29 de novembro de 2025

língua

não sei quem começou
se eu te segui
ou vice versa
o fato é que naquele microcosmo
inventamos nossa própria língua

era como se o universo
coubesse nos recortes de arte
que falavam por nós
colagem de prosa e análise
em cada entrelinha que nos atravessava

uma das nossas maiores criações
que encosta no céu da boca
pulsa abrindo portais
e viaja na velocidade da luz
para outro planeta

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

céu da boca

esperei por essa noite
manifesto o que desejo
e sou grato ao que ainda não veio
as profecias loucas não param de gritar

tô com saudades
virado do avesso
luz quase falhando
vibração baixa
murmúrio no céu da boca

se o sol nascesse agora
não sei o que faria
talvez nada além de
assisti-lo até encontrar a lua

ainda não cheguei lá
tentando a cada decisão
acender um fósforo por vez
iluminar a pista
evitar os buracos

tá demorando
mas eu to chegando
corrente insistente
acalmando a tormenta
até o sol tremer
sobre as águas de mármore

terça-feira, 25 de novembro de 2025

resíduos psíquicos

atenção aguda
com longas antenas
movimento malemolente
investigando cada centímetro

procurando pelas vias neurais
rápido, silencioso e meticuloso
insistente
bicho que conhece
o próprio labirinto

pequeno veneno emocional
desconforto sutil
até se dissolver
em nada

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

alvéolos solares

herdei da minha linhagem paterna
a linguagem da carência, da prudência, da precaução
já dizia painho
o seguro morreu de velho

por isso meço minhas palavras
incontáveis vezes
escrevo textos pra não meter
os pés pelas mãos

sou viciado em listas
pra alinhar o que quase sinto
uma lista é um conjunto de peças possíveis
que juntas montam um sonho
quebra-cabeça mitológico
de fé, ação e práxis

esperançar é verbo de mergulho
às vezes puxa pro fundo
só pra tocar o assoalho submarino
e sentir no pé o limite do escuro
no fundo das águas
sempre tem um firmamento

dali, com pernas de grilo
cultuando o impulso
salto em direção ao ar
assistindo se aproximarem
os alvéolos solares
até a primeira lufada
do resto da vida