vovô amava cuidar da saúde
foi ele quem me ensinou
que o corpo é o nosso primeiro templo
e que só a gente zela por ele
vovô odiava médico e hospital
foi ele quem me ensinou também
amava a verdade
mas temia resultado de exame
as contradições que nos formam
somos poços profundos
cheios de correntezas contrárias
desajeitadas e sinceras
vovô tinha dois protocolos de cuidados básicos
o primeiro simples e mágico
esfregava rápido os dedos indicador e médio
até acender um fogo invisível nas pontas
depois pousava os dedos quentes na ferida
se você prestar atenção
o que vovô fazia era convocar o corpo
pra olhar pra si mesmo
"olha aqui, ó. o que é que há?"
era o primeiro protocolo
atenção, presença, toque, calor
aqui, agora
feitiço ancestral
o segundo protocolo era só uma frase
algumas palavras que vovô sempre dizia
e que por isso completavam o feitiço
"vai ficar bom" e sorria confiante
o segundo protocolo era a fé
a crença bruta, simples e luminosa
de que vai dar certo
e se não der vai assim mesmo
a cura também é continuar