domingo, 30 de novembro de 2025

vibração intacta

antes
tinha certeza
que era tu

depois
ainda tenho
cada vez mais

agora
percebo no reflexo
que sou eu

então
isso muda tudo
cada vez mais

morro da sereia

o mar não aceita pressa
a água devolve resistência brutal
onda que não esquece

dá pra ver no céu
mataram peixe hoje
as texturas não mentem

sereia
te enfeita
cuida com teus feitiços
há escamas no céu

sábado, 29 de novembro de 2025

língua

não sei quem começou
se eu te segui
ou vice versa
o fato é que naquele microcosmo
inventamos nossa própria língua

era como se o universo
coubesse nos recortes de arte
que falavam por nós
colagem de prosa e análise
em cada entrelinha que nos atravessava

uma das nossas maiores criações
que encosta no céu da boca
pulsa abrindo portais
e viaja na velocidade da luz
para outro planeta

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

céu da boca

esperei por essa noite
manifesto o que desejo
e sou grato ao que ainda não veio
as profecias loucas não param de gritar

tô com saudades
virado do avesso
luz quase falhando
vibração baixa
murmúrio no céu da boca

se o sol nascesse agora
não sei o que faria
talvez nada além de
assisti-lo até encontrar a lua

ainda não cheguei lá
tentando a cada decisão
acender um fósforo por vez
iluminar a pista
evitar os buracos

tá demorando
mas eu to chegando
corrente insistente
acalmando a tormenta
até o sol tremer
sobre as águas de mármore

terça-feira, 25 de novembro de 2025

resíduos psíquicos

atenção aguda
com longas antenas
movimento malemolente
investigando cada centímetro

procurando pelas vias neurais
rápido, silencioso e meticuloso
insistente
bicho que conhece
o próprio labirinto

pequeno veneno emocional
desconforto sutil
até se dissolver
em nada

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

alvéolos solares

herdei da minha linhagem paterna
a linguagem da carência, da prudência, da precaução
já dizia painho
o seguro morreu de velho

por isso meço minhas palavras
incontáveis vezes
escrevo textos pra não meter
os pés pelas mãos

sou viciado em listas
pra alinhar o que quase sinto
uma lista é um conjunto de peças possíveis
que juntas montam um sonho
quebra-cabeça mitológico
de fé, ação e práxis

esperançar é verbo de mergulho
às vezes puxa pro fundo
só pra tocar o assoalho submarino
e sentir no pé o limite do escuro
no fundo das águas
sempre tem um firmamento

dali, com pernas de grilo
cultuando o impulso
salto em direção ao ar
assistindo se aproximarem
os alvéolos solares
até a primeira lufada
do resto da vida

domingo, 16 de novembro de 2025

para o seu governo

ainda dói não passa
parece uma hérnia de silêncio
um corte que pede bisturi
e não sei onde abrir
nem se quero desvendar

nunca tinha sentido assim
a gente tá aí pra se arrebentar né
cair pra levantar de novo
tão excitante quanto assustador

pela primeira vez em anos
tô revisando as fundações
tudo que já me sustentou
o cimento, os mitos, as crenças, os remendos
há rachaduras no piso, no teto e nas paredes
e mesmo assim sigo morando em mim

a última vez que me faltou chão
foi com ajuda de tecnologias sagradas
vi cores, sobretudo azul
fractais desenhando o infinito
o silêncio tinha forma de névoa

uma presença diminuta
quase não vi só senti
mudou devagar mas fundo
meu corpo, minha mente, meu tempo
devo tanto à floresta

e quando faltou chão de novo
os pés tocaram a terra da mata
rizoma buscando nutrição
enraizando pra sustentar
o que ainda vai nascer

sábado, 15 de novembro de 2025

entre o que foi e o que será

esperando que nem uma pedra
um cristal duro, rígido, quase estalando 
meus músculos se enlaçaram em nó
nesse recolhimento do movimento
como se o corpo prendesse o próprio brilho

dei vários passos atrás
pra tentar dar o impulso
corri contra o vento do tempo
e no último instante
recuei

a coragem vem assim mesmo
arranhando as beiradas do medo
tremendo mas indo
ensaiando no precipício
até que o salto aconteça

tô ficando encurralado
entre o que foi e o que será
se eu não pular
não vai sobrar nada
só um punhado de pedras brilhantes
que encantam o olho
mas não são pilares de nada

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

malamanhado

já dizia vovó
o mar não tem cabelo
mas bagunça os meus
sussurrando no pé da orelha
ventania apaixonada

sim podemos conversar
a gente só não tem tempo
pro que a gente não quer
eu não escolhi a distância
ela só foi crescendo
enquanto segui em frente

o gozo é lamber a ferida
macio, quente, profundo
e o amor é o limite
a linha tênue onde o corpo
reconhece o desejo

só o amor permite
ao gozo se entregar sem culpa
subir, tremer, dissolver
voltar a ser espuma

quem quer dá um jeito
não me rendo
mas me desmancho
quando o desejo acerta meu nome

eu só queria que fosse você
a ferida que arde
o tempo que cura
o desejo que chama
o gozo que acalma
o amor que transborda

domingo, 9 de novembro de 2025

vai ficar bom

vovô amava cuidar da saúde
foi ele quem me ensinou
que o corpo é o nosso primeiro templo
e que só a gente zela por ele

vovô odiava médico e hospital
foi ele quem me ensinou também
amava a verdade
mas temia resultado de exame

as contradições que nos formam
somos poços profundos
cheios de correntezas contrárias
desajeitadas e sinceras

vovô tinha dois protocolos de cuidados básicos
o primeiro simples e mágico
esfregava rápido os dedos indicador e médio
até acender um fogo invisível nas pontas
depois pousava os dedos quentes na ferida

se você prestar atenção
o que vovô fazia era convocar o corpo
pra olhar pra si mesmo
"olha aqui, ó. o que é que há?"

era o primeiro protocolo
atenção, presença, toque, calor
aqui, agora
feitiço ancestral

o segundo protocolo era só uma frase
algumas palavras que vovô sempre dizia
e que por isso completavam o feitiço
"vai ficar bom" e sorria confiante

o segundo protocolo era a fé
a crença bruta, simples e luminosa
de que vai dar certo
e se não der vai assim mesmo

a cura também é continuar

sábado, 8 de novembro de 2025

modo avião

eu menti
disse tudo bem
que era por calma
mas era medo

eu amo ser ausente
amo a leveza de não estar
a liberdade de não ser lembrança
há paz no sumiço
 
eu amo o modo avião
feitiço contra o mundo
manto invisível de ruído branco

eu amo fazer o que eu quero
mesmo que o querer doa
mesmo que seja só o desejo
de não desejar nada
e isso é revolução

eu me apaixono mas me afasto por medo
o amor é uma frequência perigosa
às vezes vibra tão alto
que pode estilhaçar o peito

eu amo ser namorada
antes mesmo de namorar
ensaiar o toque
onde nada dói e tudo promete

eu sempre sumo
quando algo me incomoda
sinal de fumaça na ventania
rota de fuga sináptica

eu amo dormir
acessar o vazio
criar sonhos
e vivê-los no tempo certo

eu amo amar
mesmo quando só ressonância
um sorriso que ainda escuto de olhos fechados
mesmo quando as ondas cessam
e tudo o que resta é nuvem

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

recortes fantasmas

aquilo que é esquecido
se repete

e agora
você lê
está aqui
o momento presente

desliguei o motor
mas deixei as luzes acesas
a bateria morreu completamente

o que deveria ser uma viagem linda
com belas paisagens
virou travessia ansiosa
lágrimas sobre decisões de vida
e belas paisagens

quando as coisas apertam
é bom estar com alguém 
pra transformar em chacota

sozinho o erro mais simples
parece o fim do mundo
mas não é

um dia após o outro e uma noite no meio

véu não é muro
é convite
a hora mais escura da madrugada
é sempre prelúdio do nascer do sol
é do breu que o brilho se alimenta

qualquer coisa eu quero dividir contigo
tem como não po
é felicidade pura
em forma de som, batida, ritmo

a todo instante tu ta aqui
cada vez mais em forma de nuvem
alguém me disse pra soltar
mas eu firmemente disse:
não.

te agarrei pelas falanges do mindinho
depois entrelacei nossos depois
nos lancei em direções opostas
num abraço apertado
os braços deram volta completa
e só acharam fumaça

me abracei com força
balancei para me equilibrar
enraizei para alcançar o céu
e minhas raízes aéreas
se juntarem às terrenas