domingo, 28 de dezembro de 2025

pare de falar com o espelho

o contrário do caos não é a paz
seu espelho é o controle
planilha modelando o mundo

o caos é a vida acontecendo
fora do roteiro comercial
no nordeste
na américa latina
em pernambuco e na bahia

a paz não mora numa manhã limpa
mas no mais profundo inferno
quando não há mais pacto possível
com a fantasia da ordem

agora aguenta
uma condição sem expiação
um regime de insolvência psíquica
onde não há desculpa
nem redenção possível

há tensão entre sujeito e estrutura
não é acidente
é método
campo minado epistemológico

não há liberdade
essa categoria não se sustenta
não é de hoje

abraça o caos

prometo nutrir a terra
com as mãos sujas
colocar um tijolo por vez
construindo um caminho
que dê conta da nossa marcha

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

pira em ebulição

dedo anelar
pira em pirofagia
borbulha óleo sobre tela

caiu na dobra
onde a força 
se curva ao desejo

onde devia haver
liga de aço
permanência

o corpo reagiu
ergueu uma bolha
aquosa, urgente

aceito
fico
até ceder

como cedem
promessas
feitas em fogo alto

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

ainda dá tempo

a esperança mora no gesto
de acreditar e ir em frente
agir e não se conformar
mesmo sem garantias

olhar pela janela
não pra fugir
mas pra firmar o horizonte
fincar os pés no agora

abrir espaço no peito
pensar devagar
sentir e cuidar
qualidade de presença

inteireza no instante
mãos no mundo
coração na vanguarda
pulmão resiliente

ainda dá tempo
qualidade da permanência
pra fazer morada
na pele que habito

domingo, 14 de dezembro de 2025

abraçando ventania e morrendo orgulhoso

a defesa é o auge do ego
coqueiro condenado
pendendo e penoso
protetor do perigo
nos braços dos ventos
morrendo orgulhoso

há portais por toda parte
nomes que chamam de destino
mas e se o caminho
não quiser chegar
e sim continuar?

por que o trajeto
não pode ser o próprio rito
o desgaste
o erro
o ajuste fino
no meio do passo?

ao modo de aves
cruzando as alturas
vou com o que tenho
na cega certeza de algum que conduz
o que faltar
construo no caminho

e assim passam dias
e meses e anos
escuto o chamado
da mesma sereia
me sento nas pedras
onde a maré cheia
as águas vêm se arremessar
até virarem espuma
e se apagar da história

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

fossa oceânica

mais de vinte mil léguas submarinas
abaixo de qualquer luz
saudade ergue sua morada nômade
respira em redemoinhos
aspiral em movimento abissal

território de placas tectônicas
movimento mineral sutil
capaz de erguer montanhas
desenhar oceanos
e reinventar desertos

o tempo
amigo precioso
atravessa abismos e cordilheiras
acalma mares revoltos
inunda desertos
até desabrochar uma flor

saudade marinha cauticante

pronto mas não preparado
sem pressa mas com vontade
calor, pele, cabelo, suor, saliva
arrepio, gozo, mente, cerebelo

entre nuvens de pensamento
a lua segue escondida
permitindo apenas um clarão fosco
enquanto a maré gigante 
mantém ilhas isoladas 

a saudade afunda lenta
indiferente à abóbada
o sol irredutível e implacável
chega tropeçando na própria luz

tenho consciência
não enxergo os contornos
mas ainda assim avanço
marcha macia
braços abrindo caminhos

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

na ponta dos pés

a situação é ótima
não tem como descer mais
então só posso subir

tô usando a cabeça
tô abrindo as frestas
não tenho nada a perder

o mundo gira capotando
um pequeno ponto no universo
desaprendo o que já sei

começo do princípio
onde tudo era verbo
poesia e ação
na ponta dos pés