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terça-feira, 29 de julho de 2025

A herança das marés

Lembrei de uma história massa que vovô me contou tantos anos atrás. 

Ele morou a vida inteira em Olinda, com breves momentos longe do ninho a despeito da própria vontade. Ele amava Olinda. Que eu também amo.

Na orla da vida que eu comecei a viver as praias são repartidas por espigões de pedra, colocados há muitos anos para tentar conter o avanço das marés. Entre cada espigão uma praia diminuta, uma faixinha de areia entre as rochas enormes.

Pra descer da altura da beira-mar para a areia, escadarias. Quando era pirraia lembro que eram escadas de pedra encrustada no paredão que sustentava a cidade, mas já há muito tempo são degraus de madeira.

Mas do que é feita não é importante. O que importa é que as escadas levam da cidade à praia, e da praia ao mar. E o mar é o mesmo. A maré alta engole os degraus levando direto para o fundo, desaparecendo nas ondas espumadas. 

Vovô contava que, com uma pedra pesada nas mãos, seguia em frente, adentro e avante cruzando abaixo da linha do horizonte. O peso da pedra o mantinha no fundo, onde caminhava como em solo lunar  prendendo a respiração e de olhos fechados para não ver os tubarões, dizia ele.

Depois de quase um momento inteiro, quando não aguentava mais segurar, vovô soltava a pedra e emergia. Dava uma lufada de ar e remava de volta. Chegava em terra firme sorridente com a aventura no mar. 

Minha família tem em si um monte de analogias com o mar, mesmo que fechem os olhos e prendam a respiração. Mainha via no mar um convite indecifrável. Dizia que em noite de lua cheia se acendia um caminho prateado que convidava pro fundo do mar, mas louco é quem se aventurava. Talvez vovô fosse maluco mesmo.

Entendi que pra tocar o fundo, é preciso escolher o peso certo. E depois, saber a hora de soltar. E, mesmo de olhos fechados e o pulmão ardendo, confiar no retorno. A maior herança que vovô me deixou: coragem para a loucura e liberdade para o mar.



quinta-feira, 29 de maio de 2025

Murmúrio

Há um som que não se ouve com os ouvidos e que faz o olhar tombar.
É um som que se recolhe entre silêncios,
feito maré mansa,
feito tempo que para — só pra lembrar que existe.

Não era uma palavra, nem um nome, nem um pedido.
Era só um “mmm” baixo, enrolado em suspiro,
como se o mundo inteiro coubesse ali,
na dobra de um abraço onde a cabeça pousa e os olhos desistem de lutar.

Tenho saudade desse murmúrio.

Saudade do som que vinha depois do toque,
do corpo que cedia não por fraqueza, mas por paz.
Do instante em que o peito virava abrigo
e o som que escapava não queria ser entendido — só sentido.

Era um som de estar.
De estar junto.
De estar dentro do tempo do outro.
De se encaixar no compasso da respiração alheia.

No murmúrio, lia promessas que nunca foram ditas, mas estavam todas ali.

Hoje o mundo fala alto demais.
Às vezes, na fresta entre um sonho e outro,
eu ainda ouço aquele murmúrio baixo de satisfação,
vindo de um tempo onde para ouvir o mar
era só encostar a cabeça no peito de alguém e descansar inteiro.