quarta-feira, 28 de maio de 2025

desejo e contenção ou pretérito mais que imperfeito

Há uma vontade que pulsa do peito até a garganta, querendo acontecer. É potente  mais potente que tudo que já vivi  e ao mesmo tempo discreta, gentil e quase invisível. Um fio de voz, uma batida de asas no escuro.

Mas às vezes, até o menor dos gestos pode ser insuportável para quem ainda está sangrando. 

Eu, um mensageiro com a carta na mão, parado diante da porta fechada. Não que ela esteja trancada — ela apenas pediu para não ser aberta. E mesmo assim, minha mão trêmula com a vontade de girar a maçaneta.

Não para invadir, para oferecer. Sem retorno algum. Um par de mãos silenciosas que chegam, fazem o que precisa ser feito e partem antes de qualquer desconforto. Uma presença sussurrada que diz: "Se você precisar, estou aqui. Se não, eu sei ir embora em silêncio."

Em vez disso, sentei no chão do corredor e abri o envelope só para mim. Lia o que eu mesmo havia escrito, como quem tenta descobrir se, entre as palavras, ainda morava algum gesto que não machucasse.

Lia com a mesma presença com que ela me olhava quando me ouvia — atenta, como se escutasse com os olhos; inteira, como se cada palavra merecesse espaço para respirar dentro dela. E ali, entre linhas que ninguém mais leria, eu a encontrei.

Encontrei-a repousando entre as palavras como uma flor prensada entre as páginas de um livro antigo. Uma flor densa de cheiro e calor; úmida, viva. Daquelas que a gente acende devagar, sentindo o corpo dissolver em riso e pele, numa névoa onde tudo pulsa e desabrocha. Lia, e era como se, por um breve instante, ela também me lesse de volta — entre fumaças do pretérito mais que imperfeito, entre silêncios que sabiam mais do que qualquer palavra.

E percebi que mesmo sem tocar a maçaneta, eu havia entrado — não na casa dela, mas no que ela havia deixado aqui. E um dia, talvez, a porta se abra novamente. E então, se for o tempo certo, eu estarei ali — com as mãos ainda cheias de silêncio.

domingo, 25 de maio de 2025

Ressonância ~modo avião

Eu era som.
Frequência viva, vibrando na pele e na alma.
Ela ouvia profundamente — com os olhos enormes.

Fomos música, marcha e folia.
Explosão de harmonia, êxtase de bala no carnaval de Olinda.
Uma energia infinita.
Na margem do caos, soleira de uma casa colorida.

Como num passe de estupidez:
Modo avião.
E a melodia, sem ter sinal, melancolia.
Tocou silêncio em todos clarins.
Virou ruído branco no espaço profundo.
Eco.

Mas consigo escutar de olhos fechados.
E mesmo que eu não consiga vê-la posso ouvir seu sorriso.
Ainda ressoando.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Tubarão cabeça-chata

Eu sou um tubarão acuado, sem coragem, perdido no fundo do oceano. Meus companheiros, tubarões também, me observam na expectativa de me ver caçando. Estão à espreita, nadando de forma síncrona, como se para formar um fluxo para cima e me tirar do fundo escuro. O fundo é a proteção. Ninguém me vê e sem luz própria eu consigo ver mais longe.

Meus companheiros olham mas não me veem. Como poderiam se eu estou me escondendo? Eles estão à espreita e querem me ver sair para me adorar.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Um e-mail para tia Lourdinha

Boa tarde, Tia Lourdinha! Tudo bem?

Olhe, como sempre peço nesses momentos que atraso para responder ou dar notícias, mais uma vez te peço desculpas mas ao mesmo tempo compreensão :)

Ponho um sorriso virtual para tentar amenizar um clima que vem se construindo há alguns anos; a ideologia do ódio tem sido hegemônica e nos atacado de diversas formas. O coronavírus e Bolsonaro não passam de sintomas, pois estamos doentes e adoecendo quem nos cerca.

Esse final de semana está sendo especialmente difícil e melancólico: é feriado de Carnaval. A senhora, boa pernambucana, conhece a quantidade de energia que é intencionada e vivenciada nesses dias de folia. Uma energia tamanha e ao mesmo tempo histórica-ancestral que reverbera, ecoa no tempo-espaço e nos atinge de forma fenomenal. Ontem, sábado de Zé Pereira, foi certamente o dia mais triste do ano; hoje, uma hora dessas, estaria esperando Elefante sair junto um mar de gente e avistando o pôr do sol que só rola nos finais de tarde, em Olinda, no Carnaval - preferencialmente nas ruas de Guadalupe.

Eu estou tão triste quanto poderia estar. Não parece fazer sentido em palavras, mas a felicidade também está presente, pelo simples fato de poder sentir isso tudo, por estar vivo.

Vovó Risoleta e vovô Petrônio já tomaram a primeira dose da vacina, assim como vovó Zélia - mãe de painho. Espero que a senhora também já tenha tomado ao menos a primeira dose e que possamos vislumbrar uma luz no fim do túnel dessa jornada que já se arrasta há tempo demais.

Um beijo,

Do seu sobrinho,

Filipe


P.S.: Envio uma foto para a senhora ver o tamanho do meu cabelo como está grande! Vovô ainda não aceitou rsrs

P.S.2: As fotos na praia são na Paraíba; menos a do por do sol em que estou de ponta cabeça, essa é no Rio Grande do Norte







segunda-feira, 27 de maio de 2019

Em atendimento

Meia noite, de boa em casa, no meu antigo mas para sempre quarto, eis que meu pai adentra meu sagrado refúgio e a situação era essa: toalhinha embaixo da porta, ventilador apontado para a janela e eu passando creme hidratante cuidadosamente nas mãos e na barba (?).

Do nada, painho: "É, tem que consertar o interruptor."

Painho testa o interruptor que não surpreendentemente funciona e apaga tudo. Mas rapidinho, liga a luz, fala um "oxe!" e fecha a porta cirurgicamente.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Apanhei merecidamente

Olhando para trás, lendo, lembrando, ouvindo, fumando. Bicho; bicho! Sério mesmo, vei. Tem que fazer um esforço fudido pra não glamourizar o sofrimento e os ambientes tóxicos. Mas caralho. Se a pessoa consegue sair desse disco... Vei, serião. A pessoa sai fudidaça de foda. Eu nunca me gostei tanto, me aproveitei tanto, me compreendi tanto. E isso me fez gostar muito mais das pessoas, aproveitar muito mais as pessoas, compreender as pessoas. Traumas me fizeram reconhecer o sofrimento no outro. Me solidarizar com o outro. Apoiar, suportar, levantar. Isso que é foda. Porque não é pra fazer isso, saca? Foi positivo pra carai, mas não é pra ficar dando esse valor pros momentos fudidos que a gente passa. Mas somos poços de contradição, não tem jeito. Foda. Um dia, recentemente mas em outro universo, um bicho muito querido me disse que se reconhecia como uma pessoa muito privilegiada; não identificou momentos traumáticos na própria vida. Bote fé, tá ligado? Mas é isso. Vários universos.

Intencionalidades

Este surfista poeta, tem um jeito doce na fala, mas não nos enganemos, ele é forte como um tubarão. E precisa ser revestido de gana, não é mesmo? Afinal, ele tem os sete mares para desbravar!