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segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Deixa mal resolvido mesmo

foi mal, por mesmísse comi seu coração.
não era fome.
era só um reflexo meu em você
e eu tenho essa mania de comer o que me reflete.

então é isso.
essa chance já foi.
ficou no tempo que eu não alcancei.

deixa mal resolvido mesmo.
vou fazer o que, né?
se tirar a faca pode morrer de hemorragia.

sonhei com cobra.
cobra em sonho é culpa, assim soube.
mas eu quis acreditar que era desejo. foda-se.

mate a culpa, salve o desejo,
fazendo simpatia, reza e feitiço.

a cobra veio.
cobrar o preço da culpa.
mas eu não temi.
nem fugi.
olhei nos olhos dela e reconheci:
sim, é minha.
me morde. pode matar.

painho me alertou.
gritou de longe como quem ainda quer salvar o que sobrou.
matou a cobra, jogou no rio,
mas ela permaneceu viva em mim,
mesmo que as águas a tenham levado.

porque entre a ideia e a prática
mora uma contradição.
e nela eu moro também.

confia no tempo.
mas o tempo não tem casa fixa.
ora é remédio, ora é veneno.
ora cura, ora repete.
e tem dias que o tempo só observa, calado,
enquanto a gente se engole por dentro.

então deixa mal resolvido mesmo.
às vezes o que não resolve,
revela.



segunda-feira, 16 de junho de 2025

tênue

querer, eu quero ir agora. a pé, na chuva, até a casa dela. agora.

tem uma linha tênue entre buscar e perseguir, entre procurar e invadir.
mas no fim, um continua sendo crime. o outro, castigo.

crime por querer ela. aqui, agora, do meu lado.
castigo por vê-la virar um fantasma. aqui, agora, do meu lado.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

desejo e contenção ou pretérito mais que imperfeito

Há uma vontade que pulsa do peito até a garganta, querendo acontecer. É potente  mais potente que tudo que já vivi  e ao mesmo tempo discreta, gentil e quase invisível. Um fio de voz, uma batida de asas no escuro.

Mas às vezes, até o menor dos gestos pode ser insuportável para quem ainda está sangrando. 

Eu, um mensageiro com a carta na mão, parado diante da porta fechada. Não que ela esteja trancada — ela apenas pediu para não ser aberta. E mesmo assim, minha mão trêmula com a vontade de girar a maçaneta.

Não para invadir, para oferecer. Sem retorno algum. Um par de mãos silenciosas que chegam, fazem o que precisa ser feito e partem antes de qualquer desconforto. Uma presença sussurrada que diz: "Se você precisar, estou aqui. Se não, eu sei ir embora em silêncio."

Em vez disso, sentei no chão do corredor e abri o envelope só para mim. Lia o que eu mesmo havia escrito, como quem tenta descobrir se, entre as palavras, ainda morava algum gesto que não machucasse.

Lia com a mesma presença com que ela me olhava quando me ouvia — atenta, como se escutasse com os olhos; inteira, como se cada palavra merecesse espaço para respirar dentro dela. E ali, entre linhas que ninguém mais leria, eu a encontrei.

Encontrei-a repousando entre as palavras como uma flor prensada entre as páginas de um livro antigo. Uma flor densa de cheiro e calor; úmida, viva. Daquelas que a gente acende devagar, sentindo o corpo dissolver em riso e pele, numa névoa onde tudo pulsa e desabrocha. Lia, e era como se, por um breve instante, ela também me lesse de volta — entre fumaças do pretérito mais que imperfeito, entre silêncios que sabiam mais do que qualquer palavra.

E percebi que mesmo sem tocar a maçaneta, eu havia entrado — não na casa dela, mas no que ela havia deixado aqui. E um dia, talvez, a porta se abra novamente. E então, se for o tempo certo, eu estarei ali — com as mãos ainda cheias de silêncio.