quinta-feira, 3 de setembro de 2026

neuroregenerativo

eu nunca quis ir embora

foi onde morei mais tempo
queria ficar pra sempre

fiz e aconteci lá
reuni todo conhecimento do mundo

talvez por isso
era um continente inteiro 

a sucessão da vida
floreou na beira

mas o buraco tá lá

um vão de morte neuronal

ramos seguem crescendo
conflitando
mudando

sentem muito

o tempo passou de novo
a vida mudou de novo

como ambos costumam fazer

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

na verdade ainda é uma farsa

reposicionei o espelho

antes ele não me fitava
agora tá me vendo de soslaio

e eu a ele

quando o miro
ainda vejo as imperfeições
as assimetrias
e os riscos na tela

continuo procurando
curioso
todos os sinais
os que vieram
e esses aí que ainda não

antena parabólica
enfiada do mangue
recebo tudo que veio
e as ausências preenchidas
com raios luminosos mortos

sigo em repouso ativo
sem deixar parar
a máquina de fazer festa

mesmo assim
ainda é verdade
qualquer celebração é uma farsa

ritual incompleto
catarse da catástrofe
silêncio em todos os clarins
corpos estáticos

esperando notar
a volta dos que não foram
até perceber
que estão todos aí
e em lugar algum

o que se sabe

não é de hoje

ao contrário

é uma forma de vida antiga
que se sujeita
ao próprio algoz

de pele verde
cabelos de fogo
olhos sanguinários

um animal perdido
feral
bravo
selvático

passado a fúria
o que se sabe
no fundo dos olhos

agora cinzas pós incendiárias

a fé começa na certeza
atravessa a renúncia
permite o perdão