sexta-feira, 31 de outubro de 2025

corre doido

a bárbarie tá na moda
desfila nas vitrines do ego
reaproveita o colapso
como performance

acabou a brincadeira
poesia virou pele e calor
o corpo propaganda
restou o fosco das cinzas
refletido em telas brancas

ele não é louco ele tá me vendo
não acredite em mágica
o feitiço é presença
pura, elétrica, impossível

então corre doido
corre que o bicho vai pegar
o agora é foda
morde sem deixar marca
morde e não solta

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

na madrugada do terceiro dia

quem abraça muito aperta pouco
mas tu me apertou sem nem me abraçar

volte a tona
o que não é benção é missão
o que não floresce, ensina
prepare o solo, regue, cuide e confie

salve um porquinho

agradece por todo aprendizado
amor, calor e vida
todos os nossos ontens
até um novo carnaval

vê que massa

eu sinto muito
mas parei de registrar
as coisas que queria te mostrar

to me entregando à possibilidade de esquecer
de perder o dom da indexação
de não te chamar mais pra dizer
"vê que massa"

sei lá
acho que era isso que eu gostava também
reunir os achados do caminho
e te oferecer o que brilhava mais

demorou um tanto
mas finalmente tá fazendo sentido
não fazer sentido

tem um triturador nas minhas entranhas
moendo o que restou
torcendo e cuspindo tudo
sangue, plasma e saliva
tudo misturado com imagem e som

acho que é meu corpo fazendo birra
chamando a mente pra dentro
fazer o feitiço do agora

calma aí, coração
se não jaja eu morro
e você nem me aproveitou

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

frequência residual

saí agradecendo todo mundo
obrigado mainha
obrigado vovó
obrigado flor
obrigado violeta
obrigado todo mundo
obrigado minha gente

uma oferenda pra cada
cada lembrança uma saudação
os olhos ardendo
querendo escorrer

aí os grave suingado
quente, firme e sensual
melodia brega tech house
conduzindo o corpo agarrado
mente solta mas em transe

vi nossa tela uma obra de arte
luz dourada do por do sol
olhávamos em direções opostas
mas pro mesmo lugar
queria morar naquele quadro

tentei com força lavar o véu
pensei em ir por um momento
até tirar você do pensamento
eu acho que foi tudo em vão

instalada em frequências inaudíveis
entre o mais grave e o silêncio
onde o corpo ainda dança
mesmo quando a festa acabou

eu sei que tem outro
bote outro aí, vá

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

epidemia de miopia

lembrar sempre de olhar o horizonte
ajuda a combater miopia
parar de só focar perto
tirar o cabresto dos olhos

tem vida lá na frente
onde o olhar se perde
e a mente se expande

a perspectiva importa
abrir espaço pra pensar
ter espaço pra respirar

lembra de olhar no horizonte
pelo menos de vez em quando 
pra não sufocar

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

seasonal affective disorder

frente fria com lua nova
o volume das águas insuportável
a terra encharcada sufoca o peito
marés imensas, densas, em correnteza

silêncio e recolhimento
nas profundezas da própria loucura
pra não se afogar
deixar que as águas limpem o que está preso

a inveja é um feitiço
o inimigo mora em casa
onde termina a crença
e começa o delírio?

ainda te quero
mas descobri finalmente
que me quero um pouco mais

é hora de fazer acontecer
e parar de ver acontecendo
você quer ser feliz
ou quer ter razão?

þetta reddast
vai dar tudo certo
de algum jeito

depois da frente fria
o céu sempre se abre

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

sopro de paciência

nunca mais passei na tua rua
nem vi a paciência surgir do alto
uma baleia calma de tantas toneladas

o peso de duas pessoas
que escolhem não se ouvir
capaz de afundar navios

no fundo, a voz não chega
quem muito cala
uma hora desaprende a dizer

é preciso transformar essa tonelagem
em maracatu, dança e marcha
pra que o peso abissal não esmague

sonho lúcido

tava numa casa bonita
com cheiro de madeira e sereno
alguém comigo ao meu lado

ela tava com piercings na perna
algo cyberpunk, robótico
um brilho frio no lugar da carne

acho que materializei ela
sem querer, chamei e veio
não tava ali, mas também não era sonho

sorria, me olhava
talvez tenha dito alguma coisa
que no torpor onírico nem percebi

mas os botões metálicos estavam lá
onde deveria ter pele e tinta preta
chamei e veio, mas a que custo?

arrudiando

choveu na minha cabeça por meses
não deu pra ver no meio da tempestade
mas as raízes afundavam em silêncio
e agora, olha essas flores

a carne que sente
também é a que sustenta
tronco que dobra
mas enraizado não morre

o desejo vive no impossível
o amor, nas ruínas
ambos teimosos

tô precisando chorar
soltar quem tá preso
olhar a saudade de frente
e chorar o meu jardim

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

dengo, drogas e devoção

tô querendo
e não tô sabendo pedir
deitado na rede
como se nas nuvens
tivesse quintal

bolei uma flor
numa pétala de rosas
bolei bem pra carai
vou fumar aqui mesmo
fumaça virou reza
no formato de água viva

oi, amor, confirma pra mim
se ainda me quer?
to precisando de muito dengo
droga pesadíssima
e ainda sobra espaço na cama
pra mais um sonho descalço

comer faz a vida prestar
dar faz a vida brilhar
e o resto é só esse intervalo
entre um trago e outro

peguei uma pedra branca
e risquei uma árvore com tuas letras
a última virou triângulo
cortando um coração que já existia

terça-feira, 14 de outubro de 2025

estética do inacabamento

a mais bela surgiu
ardendo em cores quentes
como de costume

as ladeiras eram labirintos
e cada pedra guardava
a memória de outros passos
outras histórias
retratos fantasmas

havia uma única presença
fio tênue que segurava o mundo
delicada âncora
entre o delírio e a performance

em algum lugar
da misericórdia até a fé
um sobrado antigo
onde as paredes sussuravam
o murmúrio de séculos

ali o tempo estancou
depois se lançou impetuoso
em todas as direções
inundando expectativas

do vórtice surgiu uma sombra
desenhada às pressas
uma ameaça
afastei-a uma, duas
incontáveis vezes

era a própria insistência
o corpo voltava
sempre renascido do vazio
quanto mais eu a derrubava
mais se reerguia
um espectro condenado a repetir

antes de tudo se dissolver
percebi
não há vitória possível
só a certeza
de que nada está resolvido

do caos ainda nasce
alguma forma de beleza
o eterno retorno para canto nenhum
deixa mal resolvido mesmo

a hora da apartação

como devo aconselhá-lo?
você tomou um caminho que não pude seguir
não com minha cabeça
certamente não com meu coração

agora está tão longe
que minha voz não chega mais
e mesmo se chegasse
você me ouviria
quando eu dissesse
"volte"?

não o fez antes
não faria hoje
muita coisa não pode ser desfeita
há peso demais no que já foi dito

você é responsável por muita coisa
apenas aceite
e siga em frente

a cabeça permaneceu
abaixada entre as mãos
o belo vidro ia acabar estourando 
já o perdeu
coração mole e crânio de aço

quanta teimosia um homem é capaz de reunir
para conseguir o que deseja?
teria roubado do jardim sagrado
se necessário fosse
e ainda chamaria de destino

mas a verdade é que
um corpo que sabe morrer bem
saberá viver bem
nem todo fim é tragédia
alguns são apenas portais
que se fecham devagar

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

resolução ascendente lunar venusiana

não adianta
ideias são à prova de bala
sentimentos à prova de razão

o que você procura
não está atrás 
tá à frente
ou acima

o céu mexe com a gente
e ela ainda mexe comigo

você é o que você repete
rotina que te reza
luz no horizonte
o sol voltou

ascendente em escorpião
dança em volta do fogo
lambe o próprio veneno
se afoga de prazer sob as águas
e na terra se esconde

lua em capricórnio
lança luz sobre a selva
vigia o caos com olhos de pedra
precisa dormir pra não sentir demais
pequenos rituais seguram a mente na carne

vênus em libra
derrama teu amor como ácido
me fere, me risca, me queima
me fode e depois some
tu sabe que já me dominou
o céu fechou novamente

eu já vou me levantar
pra mim não tá tudo bem
mas eu consigo viver sem
eu já to me levantando

ainda te espero
no mesmo banco de praça
na hora que o saguim vem conversar
e os pássaros cantam teu nome

eu queria tanto viver contigo
o meu futuro
e na encruzilhada
onde deixei letras e tu, cristais

será que já floresceu no deserto?

domingo, 12 de outubro de 2025

último trago antes do silêncio

delírio, refúgio, ficção

luto pelo que ainda está vivo
mas já virou fantasma

construindo uma fantasia na cabeça
porque a realidade não dá conta
daquilo que inventei pra ela

não sei mais aproveitar
as pessoas que me amam
não consigo atravessar o vidro
entre o gesto e o toque

o que sinto falta não existe mais
então sigo em frente
mas pra onde?

como é que não fuma?
inversamente proporcional
à intensidade do sonhar
tenebrosa sensação
no fim

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

caos cromático

vidro quebrado não cola
quando não há o que fazer, você chora
talvez não seja nesta vida
mas você ainda vai ser minha vida

ora ora ora
se não são as consequências
das minhas próprias escolhas
mas carai, até quando, hein?

que horas o sol volta?
rodeado de pedras
na janela gradeada
posso sair pela porta da frente
a dos fundos não tem nem tranca

mas tem outra coisa me segurando
tô sentindo indo embora
mas porra, tá demorando
amarelo e vermelho, cadê o verde?

quando um num quer dois num ama
a razão não tá dando resposta
ou tá desligada
só resta confiar no invisível extraordinário

caminho das águas

tô escrevendo pra deixar pra trás
e com unhas e dentes
tô deixando pra frente
vaivém das marés

aceito a derrota
desisto dessa demanda que me afunda
me permito seguir sem desculpas

amor ancestral
toda lua cheia ainda lembra teu rosto
pálido, distante, refletido na água

que nossos caminhos se abram
como um maceió entre ondas
que o que foi nó se dissolva em sal

que a gente encontre amor
e que esse amor nos encontre de volta
nas pequenas ressacas, nos breves silêncios
que a felicidade seja corrente

vela acesa no coração e a lua cheia no céu
que ambas nos guiem
nos refaçam
nos reconciliem com o que fomos e o que ainda podemos ser

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

a vida tá acontecendo

eu também não vejo mais  
que merda, véi  
não consigo mais nem imaginar
ficou muito distante

eu vi chegar faz tempo  
vi, nomeei, olhei de frente e arrisquei
vi o abismo e dei um passo à frente
se eu pular, você pula? kkk  
tá bom, né  

caí sozinho, de cara no chão  
levantei e tropecei numa raiz
me enlaçou no tornozelo
me puxou de volta
tô com a cara enterrada de novo 

perdi o sentido das coisas
cima, baixo, frente, trás
passado, futuro, presente
tudo gira igual

então fico aqui nesse jardim
tentando fazer o máximo do mínimo  
mantendo o corpo em rotação
pelo menos
pra não parar de girar a manivela

mantra psicotrópico ao anjo do delírio

santo anjo do torpor
cura o que não tem nome
meu delírio guardador
acalma o que pulsa e me consome

me visita à meia-luz febril
desamarra a carne
destranca o sonho
arranca esse espinho

se a mim te confiou a saudade como sina
faz dela jardim colorido
com amor e verdade
sempre me transforme
mesmo que ainda sem rosto

com honra e dignidade
me devolve o sopro
mesmo louco

me refaz
me alucine
e, quando nada restar
me desgoverne

amém

terça-feira, 7 de outubro de 2025

cortinas de fumaça

queria ter chegado mais cedo
ido embora mais tarde
te dado minha chave
e pedido pra tu ficar
queria ter ido embora contigo
ou talvez não ter ido embora

queria ter pra onde voltar
ter dito que te amava quando era verdade
ter te ouvido antes
ter te tido depois

queria ter sabido desde o princípio
que o ensaio não se repete

o não-voo

faz mais de um mês que carrego uma dor no trapézio direito
dizem que é estresse e ansiedade
mas parece que cortaram na carne

onde antes era asa, agora há um ponto de tensão
um nó cego
a lembrança do voo ainda latejante

já fiz de tudo pra parar de sentir
alongamento, yoga, compressa quente, compressa fria
massagem, ventosa
nada consegue desamarrar

num esforço desesperado acendi uma vela de sete dias
e deixei um bilhetinho embaixo
um pedido, uma oração, um suspiro

no início queimou tímida mas constante
nos últimos dias estava deformada
desfigurada, obedecendo outro sentido
não se via mais vela nem farol

a chama inclinava-se sobre o bilhete
roendo-o com paciência escassa
quando a cera derreteu por completo
o papel incendiou, a vela virou fogueira doce
e o ar cheirava a promessa queimada

precisei apagar por segurança
agora resta a cera derretida sobre cinzas
chão queimado e o eco do que foi dito

as palavras, antes pedidas
viraram fumaça preta no ar
e talvez tenham sido ouvidas



revolução da arte

cheguei em casa à milhão!
quase que eu não conversava contigo

e olhe que eu achava que seria não só necessário como fundamental
que se não fosse dessa forma
não seria de nenhuma outra

fiz menção de iniciar uma conversa contigo umas três vezes, bota fé?
e tá ligado que seria um papo super merda, né?
uma coisa tão alienante e exploratória quanto um checklist
eu ia pura e simplesmente lhe usar
esse era o fundamento

mas vê como as coisas são
eu fui repetindo uma ideia fixa na cabeça
que era inicialmente um dos itens da lista que eu não escrevi
eu repetia pra não esquecer
que nem um mantra
enquanto fazia outras coisas que estavam no caminho

descascar a banana
bater a vitamina
botar roupa pra lavar
fazer chá, etc

a todo momento eu fazia aquela última coisa
antes de sentar pra escrever
e, sem perceber
era isso que eu já estava fazendo

Marília

gosto profundamente desse nome
me veio imediatamente duas pessoas
não conheço nenhuma delas

uma parecia ser uma grande amiga
da minha mais querida professora
a mestra, como ela a chamava

a outra é tão distante que nem sei
mas é linda e isso me basta
lealdade, sabedoria e beleza
especialmente de alma
e ela certamente tem

vai dar certo
eu quero, eu posso, eu confio
eu vou

Fronteiras do ser

nem lá, nem cá
ele se esforça, é um bom sujeito
mas ainda não chegou lá
(nem está verdadeiramente cá)

está no meio do tiroteio
na linha do tiro
pronto pra morrer
vivendo no limite

quando pensa que tá chegando lá
é quando se sente mais preso
mais estagnado, mais retrógrado
é chato ser careta, não quero

ainda tem umas roupinhas pra estender
se tem um aprendizado
é que movimento gera movimento
e o contrário é lamentavelmente verdadeiro

então pelo menos
mantenha-se dançando no fio da navalha
nas fronteiras do ser
siga sendo

a morte, o diabo, o enforcado, a torre e o louco

[a morte]
to vindo aqui porque já não sei mais para onde ir
fui deitar cedo, pelo menos o sono ainda era refúgio
hoje não

[o diabo]
habitar esse corpo ta sendo custoso demais
oscila entre a esperança vã
e a agonia desmedida

[o enforcado]
dói em todos os lugares
uma dor específica, íntima, inventada
ver virar outra coisa
irreconhecível
em tão pouco tempo


[a torre]
tudo tão volátil
borbulhando, efervescendo, em erupção
a luz apagando, quase sem energia
a mente ainda ligada
a ventoinha não para de girar
o motor superaquecido


[o louco]
preciso urgentemente de uma oficina
preferencialmente do diabo
pois queria minha mente vazia

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

sonho crateroso

cortaram minhas asas
rastejei por semanas e meses
até que, aos poucos
elas nasceram outra vez
fendas dando lugar a um colorido novo

quando arrisquei os primeiros voos
vieram de novo com a faca velada
eu sabia do risco
era mais arriscado que um rasante no desconhecido 
mas fui por devaneio entorpecente 

vi minhas penas arrancadas uma a uma 
num gesto cotidiano 
dessa vez cortaram só uma asa
restando a outra deficiente 

recolhi cada pena
por devoção delirante 
remendei como pude
e me joguei no ar 

agora caio em parafuso 
perdi os pontos cardeais 
só um ponto suspenso, sem ligação 
não traça linha, nem indica direção 

espero ansioso pelo impacto 
temo que já tenha acontecido 
e que o parafuso esteja
apertado demais
e minha cabeça em parafuso
enterrada demais