quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

é tudo mentira

ei
ei
presta atenção
por favor

eu sei
eu sei que isso que tu criou
isso que tu sentiu
foi a coisa mais linda
eu sei
eu lembro

eu lembro
mas passou
como passa um bloco
arrastando tudo
deixando silêncio
retumbante
presta atenção

eu sei
foi a coisa mais linda
do mundo inteiro
foi o próprio mundo
foi

olha pra mim agora
tá ouvindo?
não né?

tá vendo alguma coisa?
não tá

nem vento
nem pensamento
nada é teu
já foi

já não é
e nem será
passou
foi embora
inefavelmente

é tudo mentira
e foi tudo verdade
ao mesmo tempo

eu tô acessando de novo
uma versão de mim
que eu me orgulho

uma versão de mim
que um dia nasceu
viveu intensamente
e morreu

agora
respira outra vez
por aparelhos
tecnológicos ancestrais
como tem que ser

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

cartas para ler sobre o pretérito mais que imperfeito

o fato é que tô desprotegido
às vezes desolado
outras confiante
a segunda é a mais perigosa
destemido
e ignorante

agora irremediável
sem escapatória
o processo é lento
quase parando
quase retrocedendo

escoriado
costurado
amarrado
enterrado
afundado
inevitável

entre duas escolhas
tenho feito sempre a errada
a que traz sufoco
machuca
achei que tava indo embora

mas o vazio não foi
tá aqui
ocupando espaço
irreparável
incontornável
não sobra opção
senão enfrentar

enfrentar o que não se sabe
o desconhecido
o improvável
ao mesmo tempo
o único obstáculo possível
óbvio
ululante

agora
botar a cabeça pra fora d'água
agarrar o galho mais alto
não soltar

e depois
pouco a pouco
descer da árvore
que um dia
me salvou da enchente

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

todo cuidado é pouco

as cartas prometiam
vem aí
em três dias, três meses
ou no máximo três anos

busquei sem encontrar
ao preço de sangue e lágrimas
desisti e aí veio
atravessado em meu caminho
como um obstáculo invencível

perdi a força das pernas
a dureza dos braços
o hábito da ternura
mas guardei intacta
a loucura do coração

ninguém dá uma passadinha
em canto nenhum
ou está inteiro
ou nunca esteve

escuro, silencioso, quieto

tô no fundo do poço
e cavando ainda mais fundo
com as próprias mãos
já calejadas, unhas sujas de terra

algumas caíram
misturadas aos vermes
cavando junto comigo

tão fundo
esperando chegar ao fim
e cair num buraco sem fim

talvez no buraco seguinte
encontre o vazio do universo
escuro, silencioso, quieto
através do espelho

sufoco

por favor
me ajuda
to afundando
não sei o que fazer

não tô sentindo nada
se eu tiver errado
por favor
me deixa viver

não vai embora
tô aqui
sem fôlego
trôpego
tentando me equilibrar

me tira daqui
prisão sem paredes
me devolve a paz
me deixa seguir

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

recife mandou me chamar

errado por linhas tortas
vai porque quer
falta de carinho não é

todo recifense quer voltar
morre de saudade
marca viagem 
mas não resolve

até o próximo carnaval

amadurecer é descobrir
um jeito bonito de amar
guardar a saudade em silêncio
lembrar sem ferir
soltar devagarinho

o que foi virou água
o que vem ainda é neblina
só no agora
recife está dentro de mim

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

o que é do homem o bicho não come

se prepara
os tambores anunciam 
silenciosos
você vai vencer

axé
ancestralidade
continuidade 
fio que sustenta
quem nunca partiu

o sagrado
o profano
dançam juntos
colados pele e suor

toda regra treme
toda ordem vacila
o corpo lembra

é proibido
mas se quiser
pode


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

não retornado

cavando espaço
nas últimas folhas verdes
garimpando cristais de gelo

faz morada fixa
mas leva a casa nas costas
até estourar a hérnia
disco quebrado

travou no brega
na tecnologia
na malemolência
acostuma os tímpanos
até preencher os poros

vira o próprio labirinto

não desiste da andada
seja por quais meios
mãos ou pés
ou cerebelo

começou com outra intenção
se transformou no caminho
atropelou a si próprio
na ida
na volta

acima
abaixo
dentro
fora

ora consumindo
ora excretando
fluxo líquido
na busca do outro

jamais retornei
me encontrei
desemoldurado

curvas abertas

como se defender da lógica
quando ela invade uma sensação
querendo recortar todas as curvas

planto bananeiras num chão instável
fico de ponta-cabeça
pra confundir o labirinto

colho raízes tortas
que insistem em me sustentar
mesmo com as pernas no ar

gosto de surpreender
talvez porque a curiosidade
seja a minha forma de permanecer

íntimo da possibilidade
provoco com a continuidade
evoco a liberdade

ainda aqui
ora correndo contra o tempo
ora lutando contra a matéria

o corre nunca acaba
mas aprende que o processo é lento
amarrado no quadril

sou esse que fica
depois das despedidas
ainda torce o pescoço

domingo, 4 de janeiro de 2026

desejo, repetição e recusa

o dia que nunca acaba
acorda sempre na mesma falta
a sombra que entra igual pela fresta
se retroalimenta num ciclo vicioso
o corpo reconhece o roteiro
antes mesmo de abrir os olhos

o mesmo dia se repete
não por magia
mas por insistência
parece preso num ciclo
que se sustenta na estagnação
como um motor dando corte

não é exatamente uma ilusão
é uma realidade moldada à mão
pelo desejo de permanência
pela recusa em acordar
de um sonho
que há muito tempo virou pesadelo

viver eternamente no mesmo dia
é uma forma lenta de morte
sem ruído
sem ruptura

sem mudança
o amor perde peso
vira hábito
repetição sem risco
promessa sem corpo

aceitar a impermanência
não é desistir
é aprender a atravessar
o medo de perder
para que algo
ainda possa
acontecer

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

implosão supernova

desejar ardentemente
habita o mesmo campo
que anular absolutamente

resta descobrir
quem primeiro
se o outro
a si próprio

ou se ambos
em perfeita combustão
clarão fulgurante
até colapsar

não sobrar nada
núcleo de cinza preta
atmosfera de fumaça densa
girando sem órbita

tu já sabia
e ainda assim fosse
talvez seja essa
a resposta possível

embora essa categoria
esteja em disputa
instável
mudando de forma
mais uma vez