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quarta-feira, 23 de julho de 2025

Minha forma favorita

Que é que eu posso fazer se tu é poesia inteira do começo ao fim, do fim ao começo? No futuro, no presente e no pretérito imperfeito.

Lendo cartas imprecisas, displicentemente, como eu mesmo havia alertado. Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço. Pra se fuder.

Não largo o osso, mesmo com tantos abutres que só pensam em me comer. Mas vamos vencer.

O que eu posso fazer? A tua escolha, uma releitura sutil do próprio chamado — charmosa, simples e perfeita. O triângulo é a minha forma favorita. Três pontos que se equilibram eternamente.

Os olhos são a janela da alma, espelho para o universo, se ver de perto galáxias, nebulosas e todos os pilares da terra estão lá. Mesmo que não enxerguem o tempo todo, há todo tempo vértices para o infinito.

Decifrar a vida por vias neurais invertidas, processadas organicamente, de forma singular. A gente vê o que a gente é. Uma combinação de códigos caótica de forma que cada leitura é única. Babilônia burns.

Decifrar a vida via tecnologia cultural. Ler com cada bastonete os cantos mais escuros, com cada cone as cores mais quentes. Ler no pretérito imperfeito uma escrita que ama o que fere e vice-versa.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

atmosfera do abraço

to me vendo passando na cozinha, sem propósito. era uma rua estreita e sem saída, só tinha uma janelinha pra circular o ar. aquela meia luz de sempre: amarela, calma, quente.

era pra ficar mais perto dela. tipo a dança dos planetas em torno do sol. tem uma atração gravitacional que puxa. pra perto, pra dentro, pro fundo e pro alto.

três letras que não posso mais juntar. só de brincadeira agora. tipo, como se ninguém tivesse percebendo o óbvio, o ululante. como se eu mesmo não quisesse apontar exatamente o parágrafo, a frase, a palavra e as três letras. e fingir que era pretérito imperfeito. e dizer "massa, né?". ou não?

ela lá fazendo alguma alquimia. o olhar focado, as mãos habilidosas, o pé direito apoaido na coxa esquerda. passei atrás, alguma conversa onde a gente testava os limites da razão, o que a gente acreditava, moldava, encaixava, criava. passei por atração, fiquei por decisão. e parei bem atrás.

o tempo, então, parou também. a cozinha evaporou. era só pele, cheiro e o som quase elétrico da presença. a respiração parecia uma corrente de ar vindo de longe. isso tudo vendo de olhos fechados — não, estavam abertos, em todos os ângulos, flutuando. ficou confuso, mas era certo. eu que quase sempre paro tudo pra te ver passar, tava parado bem atrás de você. te abracei, casa em carne viva, nossos corpos buscando um ao outro. te sussurei algo que mudou tudo. quero morar em você.

terça-feira, 10 de junho de 2025

Roteiro de uma lunação

Acordei como fui dormir. Igual aos últimos 30 dias e noites. Parecia que eu ia reunir nas galáxias, depois da supernova. Ao lado do buraco negro, num céu de uma estrela só.

Não sei o que vim fazer aqui. Minhas mãos simplesmente abriram as portas e meus pés caminharam. Eu perguntei se deveria sair e recebi uma resposta dúbia. Pensei se seria necessário, perguntei o que poderia fazer. Inconcluso.

Saí sem rumo, mas com os passos quase milimetricamente definidos. Pra mais perto, sempre. Adiante. Sem preparo pra nada, mas esperando tudo. Pior dos cenários. Desilusão.

Tô há muitos dias revivendo o mesmo dia. A barreira implacável que se levantou com poucas palavras, o cristal delicado de confiança que foi despedaçado estupidamente. Ditos e não-ditos, despejados numa turbina que triturava tudo. Eu e você, e o mundo. Ruído, moído e despedaçado.

Correria. Desespero. Morte.

A lua estava prestes a se encher de veneno. Subterrâneo, visceral, alquímico, letal. Cada raio de luz era uma agulha tatuando fundo na pele tudo que não foi falado esse tempo todo. Depois, tudo foi minguando. Primeiro as palavras, depois o calor. Veio o silêncio frio, úmido e desolador de quem está na tempestade no meio da rua alagada. Tudo escorrendo, invisível, irreversível. Afogando aos poucos quem não teve onde se abrigar.

Depois, céu escuro. Sem pergunta, nem resposta. Quase apagado depois de me consumir inteiro. A última brasa, ainda insistente, soterrada por tanta cinza. Só silêncio e a lembrança do brilho que já foi. Me confundi com a noite no meio de um mar de estrelas. Ou seria um deserto de grãos de areia? No horizonte de eventos a ordem cai em devaneios e se curva ao caos.

Crescendo, a maré anunciava um novo ciclo. Aos poucos, a onda que queria me afogar me colocou na pista. Presente. Bruxuleante. Os gestos tortos, arados, desajeitados. Vivo. Via valor no processo, mesmo afiado a promessas. Não romantize o caos, celebrai-o.

Então, tô aqui novamente no parque de diversões dos corações partidos. Tentando pôr ordem no caos. Varrendo cacos de vidro com as mãos dilaceradas, sujas de sangue. Limpando minha fronte, enxugando minha tez. Pintando tudo de bordô. Um rio vermelho de sangue em cada dedo. Muito tarde pra pedir desculpas. Muito tarde pra dizer que te amo. Muito tarde para reencenarmos essa peça. Muito tarde pra tentar outra rodada nesse jogo de azar.