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quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Lá maior com nona

Progressão para o paraíso com fins de registro, aprendizado e ressonância em lá maior com nona. Bem bonito, sabe? Profundo, pra dentro, intenso e ao mesmo tempo pleno.

A jornada é longa, o processo é lento. Mas olha, é massa, visse? Não deixa de olhar pela janela do ônibus, na moral mesmo. Começa do começo, né? Antes de começar. Na preparação, no sonho, no plano, no fenômeno. Antes de virar acontecimento, acontece na mente, em mil modelos, nenhum preditivo. Um bom plano é orgânico, estabelece alguns horizontes e se abre em todas as direções e dimensões.

Depois, se vence a cidade. Ela te puxa a cada curva, a cada possibilidade de retorno ela te chama. Mas você sabe seu propósito. Você segue pro porto. Não para ficar no cais, mas pra cruzar a baía. Pra ilha. Sem deixar de fantasiar. Mas à ilha dos acontecimentos. À ilha que se repete.

Peço força a todos os ancestrais para trilhar as curvas da vida e não sobrar em nenhuma. Nem me perder em nenhuma dobra. Porque o caminho é longo e o processo é lento. Mas com constância mecânica, repetição como mantra e transe orgânica a gente chega. Vem aí. Agora a gente chega. 

A chegança é surreal. A vida se desabroxa de outro jeito, feito um sonho. Ou será que essa é a vida real? O que vale a pena tá aqui. Tudo. De um mel branco fermentado a água doce mais límpida.

Aqui, o tempo espreguiça. O sol abraça. O corpo lembra da dança. As frutas são mais doces, o riso mais largo, o mar mais íntimo. Tudo flui numa linguagem mais suave. E o que antes era peso vira pólen. Aqui bate mais forte. Bio-psico-social.

Mas assim, o paraíso não é isento, tá? Não foi feito pra te salvar de ti mesmo. Aliás, não foi feito. Tá aí só. E tu atravessa com tu inteiro. Teus morangos, mas também teus fantasmas, e o sumo de ambos na boca. É um convite pra olhar o todo, o inteiro.

E então a ilha fica, mas a gente parte. Ou será o contrário? O mar se abre de novo, a cidade reaparece no horizonte. Mas agora é diferente. O paraíso não é um lugar, mas o jeito que o corpo habita o tempo e espaço. A gente não foge de si. Todo lugar que eu ia eu tava lá. E ali, nesse encontro, mora o paraíso. Ou o inferno. Depende do dia. Bio-psico-social.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

O que fazer? Problemas cadentes dos nossos afetos

Não to aguentando mais. Tenho que soltar. Eu quero soltar. Engulo seco. Mas quero. Porque não dá mais. Tá doendo, já paralisado. Apavorado, trêmulo.

Não tem o que fazer.

O que tem que fazer é o que tem que ser feito.

Dormir. Comer. Trabalhar. Economizar tempo e energia. Treinar, correr, pedalar. Ir pra praia no final de semana. Ficar em silêncio. Ler. Ler pra lembrar. Conhecer pessoas, fazer amigos. Falar, ouvir. Ouvir, ouvir. 

Ver, ler, escrever. Ler pra esquecer. Esquecer pra lembrar. Viajar, conhecer lugares novos, se desafiar. Morrer e nascer de novo. Fazer vidas felizes. Permitir entristecer. Encerrar. Começar. Amar. Ler e ler o mundo.

Dar, receber, cuidar. Oferecer, agradecer e amar. Ler. Ler a si. Tomar banho de rio. Ir pra longe, voltar pra perto. Honrar os encontros, lamentar as despedidas. Contar histórias, ouvir fantasias. Desejar, se despedir, suprir. Compartilhar, descobrir, compreender, perdoar. Confiar, insistir, respeitar. Ler. Ler o que nunca foi dito.

Acertar. Errar. Ser humano. Ler. Ler e reler. Ler todos os sinais. Ler os dias. Ler os gestos, os desvios, as pausas. Ler até que tudo faça sentido ou até não fazer nunca mais. Ler o passado, o presente e o futuro. Ler no pretérito imperfeito. Ler e decifrar. Ler e, finalmente, soltar. Saltar.

terça-feira, 10 de junho de 2025

Roteiro de uma lunação

Acordei como fui dormir. Igual aos últimos 30 dias e noites. Parecia que eu ia reunir nas galáxias, depois da supernova. Ao lado do buraco negro, num céu de uma estrela só.

Não sei o que vim fazer aqui. Minhas mãos simplesmente abriram as portas e meus pés caminharam. Eu perguntei se deveria sair e recebi uma resposta dúbia. Pensei se seria necessário, perguntei o que poderia fazer. Inconcluso.

Saí sem rumo, mas com os passos quase milimetricamente definidos. Pra mais perto, sempre. Adiante. Sem preparo pra nada, mas esperando tudo. Pior dos cenários. Desilusão.

Tô há muitos dias revivendo o mesmo dia. A barreira implacável que se levantou com poucas palavras, o cristal delicado de confiança que foi despedaçado estupidamente. Ditos e não-ditos, despejados numa turbina que triturava tudo. Eu e você, e o mundo. Ruído, moído e despedaçado.

Correria. Desespero. Morte.

A lua estava prestes a se encher de veneno. Subterrâneo, visceral, alquímico, letal. Cada raio de luz era uma agulha tatuando fundo na pele tudo que não foi falado esse tempo todo. Depois, tudo foi minguando. Primeiro as palavras, depois o calor. Veio o silêncio frio, úmido e desolador de quem está na tempestade no meio da rua alagada. Tudo escorrendo, invisível, irreversível. Afogando aos poucos quem não teve onde se abrigar.

Depois, céu escuro. Sem pergunta, nem resposta. Quase apagado depois de me consumir inteiro. A última brasa, ainda insistente, soterrada por tanta cinza. Só silêncio e a lembrança do brilho que já foi. Me confundi com a noite no meio de um mar de estrelas. Ou seria um deserto de grãos de areia? No horizonte de eventos a ordem cai em devaneios e se curva ao caos.

Crescendo, a maré anunciava um novo ciclo. Aos poucos, a onda que queria me afogar me colocou na pista. Presente. Bruxuleante. Os gestos tortos, arados, desajeitados. Vivo. Via valor no processo, mesmo afiado a promessas. Não romantize o caos, celebrai-o.

Então, tô aqui novamente no parque de diversões dos corações partidos. Tentando pôr ordem no caos. Varrendo cacos de vidro com as mãos dilaceradas, sujas de sangue. Limpando minha fronte, enxugando minha tez. Pintando tudo de bordô. Um rio vermelho de sangue em cada dedo. Muito tarde pra pedir desculpas. Muito tarde pra dizer que te amo. Muito tarde para reencenarmos essa peça. Muito tarde pra tentar outra rodada nesse jogo de azar.

domingo, 1 de junho de 2025

Movimento incensante

Mo meio da pista. Entre graves, luzes e corpos em trânsito, atravessado por uma revelação que não coube mais em silêncio. A pista de dança virou solo sagrado, templo do agora, altar dos meus processos. O corpo, ao mover, abrindo frestas de memória, escorrendo liquefeitas palavras, cores, sons, corpos inteiros.

Sozinho, cercado, percebi que era rito. Um ritual de passagem. Ali, a dança e o tempo se dissolvem no som, cada batida me empurrando mais fundo na escuta de mim mesmo.

As cartas em que me fiei falavam de um futuro que não veio. Parece que ficou faltando.
 Eu não ia embora, mas feri todo mundo de morte. Lia as cartas fazendo toda força pro corpo fazer o que não queria.

A correria, a intensidade, os ditos e não ditos, a revelação. O fim. Os dias que se seguiram. Intermináveis. Silênciosos. Não sabia o que fazer, não havia nada a fazer. Um fim do mundo a cada dia da semana.

A volta se imaginando salvadora, a correria pra lá. Quase sem escrúpulos. Louca. Sem propósito. Desesperada. Porta fechada. Vá embora. Não olhe pra trás. Vou embora. Mas deixo a fresta da porta aberta e fico tentando respirar o ar que circulava antes.

No fim, me jogo na pista. Expresso, atento, na pista. Fiado à esperança. Não sei que tipo de processo é esse, mas das coisas que amava: as cores quentes. Acho que posso encerrar com essa lembrança. As cores quentes.

Porque no fim, ainda que ninguém leia mais nada, sigo escrevendo. No silêncio das entrelinhas. O corpo na pista e a alma no pretérito, sem parar, pago com o movimento incessante.