segunda-feira, 16 de junho de 2025

Com todas as letras

é, eu te amo.
queria te escrever isso com todas as letras.

tudo que você falou eu me perguntei antes.
me perguntei enquanto a mala era feita,
enquanto eu dizia que ia, 
enquanto eu sabia que isso custaria
o que a gente construiu com o mínimo de pressa.
estranho, imperfeito, real. existiu, inteiro, enquanto foi.

“você não tá me dando escolha”
do lado de cá, também parecia não haver,
ou tudo já estava acontecendo
antes que eu pudesse chamar de decisão.
fora de controle.
entre fazer a coisa certa e não causar dor,
tropecei na beira do abismo.

queria ter vivido mais uma vida
pequena, simples, sem performance.
inteira.
a gente tentou, não tentou?
tentou sim.
só queria que desse pra viver tudo sem ferir.
se eu pudesse congelar o tempo eu evitava tudo.

te acho incrível, espero que você tenha uma vida maravilhosa,
que se divirta muito, que seja cada vez mais feliz.

sou eternamente grato por tudo que a gente viveu.
que a vida seja leve, os meses abençoados.
que tudo de incrível que foi só reverbere cada vez mais.
se cuida.

e eu te ouço. juro.
os estilhaços no chão e ainda seguro um caco na mão.
insistentemente,

Na sarjeta

alguns livros não gostam de começos nem fins.
se abrem no meio e podem não terminar nunca.

se abrem onde cabem.
escorregam entre páginas soltas, recomeçam no meio de uma frase.
não respeitava suas linhas de corte.
têm um ritmo que não se ensina, só se aprende.
quem lê com atenção, sente — mesmo sem entender tudo.

folheava as páginas com a ponta do dedo.
sem pressa, como quem testa a espessura do mundo.
lia devagar. sobre a cabeça, céus azuis.
onde cabiam sonhos, distâncias e a liberdade de não ficar.
uma vírgula mudava tudo. um ponto final, às vezes, doía mais do que devia.

tentava entender sua cadência.
mas livro não é tarefa, é companhia, é intervalo, é desvio de rota.
entre palavras soltas, marcas de dedo, o cheiro antigo das páginas já lidas.
lia quando ela deixava, e mesmo assim, com cuidado.
me perguntava se eu quero mais. quero sim, now.
não era questão de ler tudo, mas de não rasgar nada.

quando fechou o livro, deixou uma dobra discreta.

tênue

querer, eu quero ir agora. a pé, na chuva, até a casa dela. agora.

tem uma linha tênue entre buscar e perseguir, entre procurar e invadir.
mas no fim, um continua sendo crime. o outro, castigo.

crime por querer ela. aqui, agora, do meu lado.
castigo por vê-la virar um fantasma. aqui, agora, do meu lado.

anti frágil vol. 3

[início - afeto]
não começou com o abalo. começou muito antes. começou ali no primeiro encontro, onde cada pedaço do nosso ser se reconheceu, cada célula à vontade. quando sem aviso o afeto se instalou, bem-vindo, ocupando espaço. nasceu pequeno, cotidiano, quase imperceptível — mas foi se enraizando. e o amor chegou. não é epifania. é construção, acúmulo. pequenas decisões em silêncio.

[travessia - amor]
longa, bonita, cheia de gestos grandes e pequenos. mar aberto, navegar incerto, descoberta mútua. houve manhãs com riso tranquilo, conversas que duraram dias, noites que pareceram eternidade. presença que não exigia esforço. nenhum milagre, só a prática sutil de escolher estar. e essa escolha, repetida, se tornou a própria vida. engenhosa, não faltou beleza. não faltou entrega. e mesmo que um dia tenha faltado fôlego, enquanto foi, foi inteiro.

[despedida - perda]
mil formas de escrever a mesma coisa, de reviver a mesma história, com diferentes nuances, cada novo olhar, tudo novo de novo. perda, fim, ruptura. no horizonte desaparecer. é tão difícil tudo. e não, não se quebra onde se espera. a fratura é exposta, mas vem de dentro, de onde era mais vulnerável. o que era certeza vira eco. e depois, silêncio.

[silêncio - luto]
chegou como baque surdo de tambor, pesando uma tonelada nas pálpebras e no peito. havia dias em que tudo era um cansaço sem causa, outros em que qualquer luz feria. o corpo seguia em marcha macia, mas dentro era desordem. não havia conclusão, só intervalo. como um manguezal: cada passo afundava mais um pouco, e qualquer tentativa de pressa puxava ainda mais fundo. o mundo seguiu, mas em mim, tudo atrasou. nenhuma frase fazia sentido, nenhuma lembrança vinha inteira.

[movimento - reconstrução]
dividido entre o vício e a dor: depois do luto — lento, denso, repetido — começa a construção de outra coisa. o afeto, submetido ao impacto, colapsa em algo novo, ele se reconfigura. adensa. se torna mais preciso, menos ilusório. a dor, não só machuca: instrui. afina o olhar. destila a palavra. o que se quebra, se transforma — e vira base para outra forma de estar.

[anti frágil - afeto]
o afeto, ao contrário do que dizem, não é frágil. frágil é a ideia que se faz dele. o que vem antes, o que se espera, o que se projeta. isso sim estilhaça fácil. antifrágil é o que se alimenta do impacto. cresce com o abalo, se refina na instabilidade. o afeto em si — bruto, nu, sem ornamento — sobrevive. de outro jeito, noutro lugar, com outro nome.

[frágil - próprio amor]
mas é bom lembrar: dor não é virtude. ninguém precisa se provar no sofrimento. não há mérito em sangrar bem. merecemos dias leves. o amor que acolhe. o corpo que descansa. a vida que pulsa em paz. o afeto antifrágil não deve ser um ideal. ninguém precisa cair pra merecer flor e a fragilidade do amor.

lista de coisas importantes

quero te mostrar umas coisas. coisas que fui guardando. tem coisas que lembrei de você por engano, outras que me lembraram você antes mesmo de eu terminar de ver. algumas, confesso, eu forcei. qualquer coisa virava você.

a lista virou uma coreografia dançando com o tempo. um filme velho, não daqueles que eu te mostrei e depois pedi desculpas, mas um bom filmeaquele set que começa no caos, navega outros universos e, por fim, pousa suave em silêncio pleno.

fui guardando. com método, mas sem plano. aquela vontade meio despropositada de construir bancos de dados. de qualquer coisa que ecoasse. guardei porque sim.

porque quero te mostrar o cinema pernambucano, porque o filme é vintage, e porque não aguento mais mostrar filme ruim pra tu.

porque quero mostrar pra você a síntese dessa discussão sobre ciborguismo, cyberpunk e pós-humanismo.

porque quero te mostrar esse ensaio que fala de sonho e de uso de psicodélicos pra cura.

porque acho que tu vai gostar.

porque não mostrei antes, e agora parece tarde, mas ainda assim, quero.

porque quero te mostrar que o brega cura onde dói.

porque esse brega então, esqueça tudo.

porque quero te mostrar essa série distópica.

porque quero mostrar onde o rap encontra com o brega.

porque o brega também dói onde cura, rs.

porque, véi, aqui eu já tava numa energia de foda-se, qualquer coisa tava me lembrando você.

porque aqui é um set finíssimo, acelerado e noturno. a tua cara.

porque esse aqui me pegou daquele jeito: mil lembranças, mil ressonâncias, todas belamente dilacerantes.

porque esse outro set é muito brabo, mais voltado pro prog, pro som diurno, mas fino, você vai gostar.

porque esse aqui me surpreendeu pra caralho! começa acelerado, muito noturno, e termina meio introspectivo e progressivo. esse aqui é creme de la creme. nada mais digno de você.

porque lembrei de você. essa aqui inclusive eu me esforcei, queria que fosse perfeita.

porque essa aqui são vidas passadas, presentes e pretéritos imperfeitos.

porque laia.

porque, nossa, essa aqui é você toda. não tem quase nada meu aqui.

porque é arte com traços, desenho e processo.

porque aqui foi a cura, viu? aqui me pegou daquele jeito e eu só agradeci.

porque melancolia.

porque aqui é você toda. tem muito de mim também. muito, muito. mas é você, sem dúvida.

porque mesmo quando era sobre mim, era você que eu queria que visse.

to ficando repetitivo.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Delírio

Obrigado por esperar. Acordei num instante onde tinha feito tudo diferente. O gesto certo, o tempo certo, as palavras exatas. Senti o calor do abraço depois de muito tempo fora, vi os olhos fecharem em paz. Fica aqui.

Tudo ficou num tom azul-turquesa com raios de luz pulsantes, ora vermelha-neon, ora amarelo-elétrico. Quando os olhos se abriram li tudo caleidoscópico. Lia, mordendo os lábios, dentes cintilando turquesa-neon, seus olhos antes tão vivos, que me atravessavam, agora opacos, sem direção.

Fica aqui. Como se tivesse uma corda amarrada na cintura, foi puxada para longe por uma força invisível. Sem som, só movimento súbito. As mãos e pernas, por inércia, estendidas à frente. A cabeça tombada, olhos abertos mas sem enxergar, boca entreaberta mas sem falar.

Eu me joguei adiante, estiquei os braços o máximo possível, tentando segurar o sol, mas te vi no horizonte desaparecer. Ficou ressoando "obrigado por esperar". Delirante.

Acordei em outro instante, no escuro. O quarto, cinzas. A cidade, fria. O braço ardendo em tons pretos. Fica aqui.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

O que fazer? Problemas cadentes dos nossos afetos

Não to aguentando mais. Tenho que soltar. Eu quero soltar. Engulo seco. Mas quero. Porque não dá mais. Tá doendo, já paralisado. Apavorado, trêmulo.

Não tem o que fazer.

O que tem que fazer é o que tem que ser feito.

Dormir. Comer. Trabalhar. Economizar tempo e energia. Treinar, correr, pedalar. Ir pra praia no final de semana. Ficar em silêncio. Ler. Ler pra lembrar. Conhecer pessoas, fazer amigos. Falar, ouvir. Ouvir, ouvir. 

Ver, ler, escrever. Ler pra esquecer. Esquecer pra lembrar. Viajar, conhecer lugares novos, se desafiar. Morrer e nascer de novo. Fazer vidas felizes. Permitir entristecer. Encerrar. Começar. Amar. Ler e ler o mundo.

Dar, receber, cuidar. Oferecer, agradecer e amar. Ler. Ler a si. Tomar banho de rio. Ir pra longe, voltar pra perto. Honrar os encontros, lamentar as despedidas. Contar histórias, ouvir fantasias. Desejar, se despedir, suprir. Compartilhar, descobrir, compreender, perdoar. Confiar, insistir, respeitar. Ler. Ler o que nunca foi dito.

Acertar. Errar. Ser humano. Ler. Ler e reler. Ler todos os sinais. Ler os dias. Ler os gestos, os desvios, as pausas. Ler até que tudo faça sentido ou até não fazer nunca mais. Ler o passado, o presente e o futuro. Ler no pretérito imperfeito. Ler e decifrar. Ler e, finalmente, soltar. Saltar.