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domingo, 10 de agosto de 2025

Ficar embora

Nas mãos o peso do abraço que não deveria ter soltado.
Na boca o gosto de cada palavra que devia ter falado.
Há erros grandes como montanhas.
Outros que mesmo tão pequenos como grãos de areia,
formaram um deserto de dunas entre nós.

Fui eu que levantei cada tijolo desse muro.
E não consegui mais atravessar.
Fui eu que, conhecendo o caminho, escolhi o mais difícil.
E caminhei descalço.

Busquei além do razoável.
Aproximei-me quando a distância já era sentença.
Não consegui fazer diferente, mesmo quando o diferente era a única chance.

Se pudesse apagar, apagava.
Se pudesse ir embora, ia.
Calor dissolvendo, deixando nada para lembrar.

Agora não posso mais buscar.
Mas, por enquanto, ainda se senta no meu peito como se fosse sua poltrona.

domingo, 8 de junho de 2025

Ode à indexação

Um brilho eterno de uma mente sem lembranças assim que eu abrir qualquer feed ou pesquisar e ler no pretérito mais que imperfeito. Pra lembrar não basta guardar, o usuário pode não ser encontrado. Tem que criar seu próprio processo antes, seu próprio sistema.

Sistema-lógico-afetivo. Tem razão na emoção? Acho que talvez um caminho onde a gente escolhe o que enfatizar e enraizar, e o que esquecer e sumir. Pra sobreviver sem se perder. Confia no processo. Confia no sistema-lógico-afetivo que você estabeleceu pra si. É preciso estar atento e forte afinal.

Atento ao processo, atento ao sistema, atento aos seus fundamentos. Porque a técnica não é isenta, nem neutra. Podemos nos apropriar de qualquer instrumento se pá, mas no mínimo atentos aos seus fundamentos e objetivos de criação.

E forte pra segurar essa onda e não se afogar. Forte pra (se)construir, (se)destruir, (se)reconstruir. Porque o que não muda é que tudo muda, então vários cenários imprevisíveis. O previsível é onde você escolhe agir, mas sem expectativas.

A parte do lógico pode ficar à cargo do próprio sistema. A parte do afetivo tem que ter criação, criatividade, ousadia, presença e arte. Arte como ato livre de se revelar e se preservar. Tem que ser seu, mesmo que não saiba pra onde. Faz isso. E confia no processo. Insiste com dignidade o seu próprio processo. É uma questão de crença também. Faz parte dessa tecnologia.

E se o corpo é máquina viva, a mente é seu banco de dados. É preciso indexar, porque são muitas linhas. Nem brilho eterno, nem sem lembranças. Estão lá, guardadas com nome, cheiro, som e arte. A arte que transforma lembrança em linguagem, indexação afetiva. Atravessando, traduzindo e honrando a nossa história. Enfim livre.

Com arte, finalmente, bem indexadas no seu sistema-lógico-afetivo. Pra acessar quando quiser. Pra deixar em paz quando não puder. Pode descansar e soltar. E, ao fechar os olhos, quando a saudade for te procurar, não importa a hora nem lugar, escuta e deixa ir.