quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

cartas para ler sobre o pretérito mais que imperfeito

o fato é que tô desprotegido
às vezes desolado
outras confiante
a segunda é a mais perigosa
destemido
e ignorante

agora irremediável
sem escapatória
o processo é lento
quase parando
quase retrocedendo

escoriado
costurado
amarrado
enterrado
afundado
inevitável

entre duas escolhas
tenho feito sempre a errada
a que traz sufoco
machuca

achei que tava indo embora
mas o vazio não foi
tá aqui
ocupando espaço
irreparável
incontornável

não sobra opção
senão enfrentar
enfrentar o que não se sabe
o desconhecido
o improvável
ao mesmo tempo
o único obstáculo possível
óbvio
ululante

agora
botar a cabeça pra fora d'água
agarrar o galho mais alto
não soltar

e depois
pouco a pouco
descer da árvore
que um dia
me salvou da enchente

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

todo cuidado é pouco

as cartas prometiam
vem aí
em três dias, três meses
ou no máximo três anos

busquei sem encontrar
ao preço de sangue e lágrimas
desisti e aí veio
atravessado em meu caminho
como um obstáculo invencível

perdi a força das pernas
a dureza dos braços
o hábito da ternura
mas guardei intacta
a loucura do coração

ninguém dá uma passadinha
em canto nenhum
ou está inteiro
ou nunca esteve

escuro, silencioso, quieto

tô no fundo do poço
e cavando ainda mais fundo
com as próprias mãos
já calejadas, unhas sujas de terra

algumas caíram
misturadas aos vermes
cavando junto comigo

tão fundo
esperando chegar ao fim
e cair num buraco sem fim

talvez no buraco seguinte
encontre o vazio do universo
escuro, silencioso, quieto
através do espelho

sufoco

por favor
me ajuda
to afundando
não sei o que fazer

não tô sentindo nada
se eu tiver errado
por favor
me deixa viver

não vai embora
tô aqui
sem fôlego
trôpego
tentando me equilibrar

me tira daqui
prisão sem paredes
me devolve a paz
me deixa seguir

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

recife mandou me chamar

errado por linhas tortas
vai porque quer
falta de carinho não é

todo recifense quer voltar
morre de saudade
marca viagem 
mas não resolve

até o próximo carnaval

amadurecer é descobrir
um jeito bonito de amar
guardar a saudade em silêncio
lembrar sem ferir
soltar devagarinho

o que foi virou água
o que vem ainda é neblina
só no agora
recife está dentro de mim

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

o que é do homem o bicho não come

se prepara
os tambores anunciam 
silenciosos
você vai vencer

axé
ancestralidade
continuidade 
fio que sustenta
quem nunca partiu

o sagrado
o profano
dançam juntos
colados pele e suor

toda regra treme
toda ordem vacila
o corpo lembra

é proibido
mas se quiser
pode


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

não retornado

cavando espaço
nas últimas folhas verdes
garimpando cristais de gelo

faz morada fixa
mas leva a casa nas costas
até estourar a hérnia
disco quebrado

travou no brega
na tecnologia
na malemolência
acostuma os tímpanos
até preencher os poros

vira o próprio labirinto

não desiste da andada
seja por quais meios
mãos ou pés
ou cerebelo

começou com outra intenção
se transformou no caminho
atropelou a si próprio
na ida
na volta

acima
abaixo
dentro
fora

ora consumindo
ora excretando
fluxo líquido
na busca do outro

jamais retornei
me encontrei
desemoldurado