domingo, 28 de dezembro de 2025

pare de falar com o espelho

o contrário do caos não é a paz
seu espelho é o controle
planilha modelando o mundo

o caos é a vida acontecendo
fora do roteiro comercial
no nordeste
na américa latina
em pernambuco e na bahia

a paz não mora numa manhã limpa
mas no mais profundo inferno
quando não há mais pacto possível
com a fantasia da ordem

agora aguenta
uma condição sem expiação
um regime de insolvência psíquica
onde não há desculpa
nem redenção possível

há tensão entre sujeito e estrutura
não é acidente
é método
campo minado epistemológico

não há liberdade
essa categoria não se sustenta
não é de hoje

abraça o caos

prometo nutrir a terra
com as mãos sujas
colocar um tijolo por vez
construindo um caminho
que dê conta da nossa marcha

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

pira em ebulição

dedo anelar
pira em pirofagia
borbulha óleo sobre tela

caiu na dobra
onde a força 
se curva ao desejo

onde devia haver
liga de aço
permanência

o corpo reagiu
ergueu uma bolha
aquosa, urgente

aceito
fico
até ceder

como cedem
promessas
feitas em fogo alto

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

ainda dá tempo

a esperança mora no gesto
de acreditar e ir em frente
agir e não se conformar
mesmo sem garantias

olhar pela janela
não pra fugir
mas pra firmar o horizonte
fincar os pés no agora

abrir espaço no peito
pensar devagar
sentir e cuidar
qualidade de presença

inteireza no instante
mãos no mundo
coração na vanguarda
pulmão resiliente

ainda dá tempo
qualidade da permanência
pra fazer morada
na pele que habito

domingo, 14 de dezembro de 2025

abraçando ventania e morrendo orgulhoso

a defesa é o auge do ego
coqueiro condenado
pendendo e penoso
protetor do perigo
nos braços dos ventos
morrendo orgulhoso

há portais por toda parte
nomes que chamam de destino
mas e se o caminho
não quiser chegar
e sim continuar?

por que o trajeto
não pode ser o próprio rito
o desgaste
o erro
o ajuste fino
no meio do passo?

ao modo de aves
cruzando as alturas
vou com o que tenho
na cega certeza de algum que conduz
o que faltar
construo no caminho

e assim passam dias
e meses e anos
escuto o chamado
da mesma sereia
me sento nas pedras
onde a maré cheia
as águas vêm se arremessar
até virarem espuma
e se apagar da história

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

fossa oceânica

mais de vinte mil léguas submarinas
abaixo de qualquer luz
saudade ergue sua morada nômade
respira em redemoinhos
aspiral em movimento abissal

território de placas tectônicas
movimento mineral sutil
capaz de erguer montanhas
desenhar oceanos
e reinventar desertos

o tempo
amigo precioso
atravessa abismos e cordilheiras
acalma mares revoltos
inunda desertos
até desabrochar uma flor

saudade marinha cauticante

pronto mas não preparado
sem pressa mas com vontade
calor, pele, cabelo, suor, saliva
arrepio, gozo, mente, cerebelo

entre nuvens de pensamento
a lua segue escondida
permitindo apenas um clarão fosco
enquanto a maré gigante 
mantém ilhas isoladas 

a saudade afunda lenta
indiferente à abóbada
o sol irredutível e implacável
chega tropeçando na própria luz

tenho consciência
não enxergo os contornos
mas ainda assim avanço
marcha macia
braços abrindo caminhos

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

na ponta dos pés

a situação é ótima
não tem como descer mais
então só posso subir

tô usando a cabeça
tô abrindo as frestas
não tenho nada a perder

o mundo gira capotando
um pequeno ponto no universo
desaprendo o que já sei

começo do princípio
onde tudo era verbo
poesia e ação
na ponta dos pés

domingo, 30 de novembro de 2025

vibração intacta

antes
tinha certeza
que era tu

depois
ainda tenho
cada vez mais

agora
percebo no reflexo
que sou eu

então
isso muda tudo
cada vez mais

morro da sereia

o mar não aceita pressa
a água devolve resistência brutal
onda que não esquece

dá pra ver no céu
mataram peixe hoje
as texturas não mentem

sereia
te enfeita
cuida com teus feitiços
há escamas no céu

sábado, 29 de novembro de 2025

língua

não sei quem começou
se eu te segui
ou vice versa
o fato é que naquele microcosmo
inventamos nossa própria língua

era como se o universo
coubesse nos recortes de arte
que falavam por nós
colagem de prosa e análise
em cada entrelinha que nos atravessava

uma das nossas maiores criações
que encosta no céu da boca
pulsa abrindo portais
e viaja na velocidade da luz
para outro planeta

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

céu da boca

esperei por essa noite
manifesto o que desejo
e sou grato ao que ainda não veio
as profecias loucas não param de gritar

tô com saudades
virado do avesso
luz quase falhando
vibração baixa
murmúrio no céu da boca

se o sol nascesse agora
não sei o que faria
talvez nada além de
assisti-lo até encontrar a lua

ainda não cheguei lá
tentando a cada decisão
acender um fósforo por vez
iluminar a pista
evitar os buracos

tá demorando
mas eu to chegando
corrente insistente
acalmando a tormenta
até o sol tremer
sobre as águas de mármore

terça-feira, 25 de novembro de 2025

resíduos psíquicos

atenção aguda
com longas antenas
movimento malemolente
investigando cada centímetro

procurando pelas vias neurais
rápido, silencioso e meticuloso
insistente
bicho que conhece
o próprio labirinto

pequeno veneno emocional
desconforto sutil
até se dissolver
em nada

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

alvéolos solares

herdei da minha linhagem paterna
a linguagem da carência, da prudência, da precaução
já dizia painho
o seguro morreu de velho

por isso meço minhas palavras
incontáveis vezes
escrevo textos pra não meter
os pés pelas mãos

sou viciado em listas
pra alinhar o que quase sinto
uma lista é um conjunto de peças possíveis
que juntas montam um sonho
quebra-cabeça mitológico
de fé, ação e práxis

esperançar é verbo de mergulho
às vezes puxa pro fundo
só pra tocar o assoalho submarino
e sentir no pé o limite do escuro
no fundo das águas
sempre tem um firmamento

dali, com pernas de grilo
cultuando o impulso
salto em direção ao ar
assistindo se aproximarem
os alvéolos solares
até a primeira lufada
do resto da vida

domingo, 16 de novembro de 2025

para o seu governo

ainda dói não passa
parece uma hérnia de silêncio
um corte que pede bisturi
e não sei onde abrir
nem se quero desvendar

nunca tinha sentido assim
a gente tá aí pra se arrebentar né
cair pra levantar de novo
tão excitante quanto assustador

pela primeira vez em anos
tô revisando as fundações
tudo que já me sustentou
o cimento, os mitos, as crenças, os remendos
há rachaduras no piso, no teto e nas paredes
e mesmo assim sigo morando em mim

a última vez que me faltou chão
foi com ajuda de tecnologias sagradas
vi cores, sobretudo azul
fractais desenhando o infinito
o silêncio tinha forma de névoa

uma presença diminuta
quase não vi só senti
mudou devagar mas fundo
meu corpo, minha mente, meu tempo
devo tanto à floresta

e quando faltou chão de novo
os pés tocaram a terra da mata
rizoma buscando nutrição
enraizando pra sustentar
o que ainda vai nascer

sábado, 15 de novembro de 2025

entre o que foi e o que será

esperando que nem uma pedra
um cristal duro, rígido, quase estalando 
meus músculos se enlaçaram em nó
nesse recolhimento do movimento
como se o corpo prendesse o próprio brilho

dei vários passos atrás
pra tentar dar o impulso
corri contra o vento do tempo
e no último instante
recuei

a coragem vem assim mesmo
arranhando as beiradas do medo
tremendo mas indo
ensaiando no precipício
até que o salto aconteça

tô ficando encurralado
entre o que foi e o que será
se eu não pular
não vai sobrar nada
só um punhado de pedras brilhantes
que encantam o olho
mas não são pilares de nada

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

malamanhado

já dizia vovó
o mar não tem cabelo
mas bagunça os meus
sussurrando no pé da orelha
ventania apaixonada

sim podemos conversar
a gente só não tem tempo
pro que a gente não quer
eu não escolhi a distância
ela só foi crescendo
enquanto segui em frente

o gozo é lamber a ferida
macio, quente, profundo
e o amor é o limite
a linha tênue onde o corpo
reconhece o desejo

só o amor permite
ao gozo se entregar sem culpa
subir, tremer, dissolver
voltar a ser espuma

quem quer dá um jeito
não me rendo
mas me desmancho
quando o desejo acerta meu nome

eu só queria que fosse você
a ferida que arde
o tempo que cura
o desejo que chama
o gozo que acalma
o amor que transborda

domingo, 9 de novembro de 2025

vai ficar bom

vovô amava cuidar da saúde
foi ele quem me ensinou
que o corpo é o nosso primeiro templo
e que só a gente zela por ele

vovô odiava médico e hospital
foi ele quem me ensinou também
amava a verdade
mas temia resultado de exame

as contradições que nos formam
somos poços profundos
cheios de correntezas contrárias
desajeitadas e sinceras

vovô tinha dois protocolos de cuidados básicos
o primeiro simples e mágico
esfregava rápido os dedos indicador e médio
até acender um fogo invisível nas pontas
depois pousava os dedos quentes na ferida

se você prestar atenção
o que vovô fazia era convocar o corpo
pra olhar pra si mesmo
"olha aqui, ó. o que é que há?"

era o primeiro protocolo
atenção, presença, toque, calor
aqui, agora
feitiço ancestral

o segundo protocolo era só uma frase
algumas palavras que vovô sempre dizia
e que por isso completavam o feitiço
"vai ficar bom" e sorria confiante

o segundo protocolo era a fé
a crença bruta, simples e luminosa
de que vai dar certo
e se não der vai assim mesmo

a cura também é continuar

sábado, 8 de novembro de 2025

modo avião

eu menti
disse tudo bem
que era por calma
mas era medo

eu amo ser ausente
amo a leveza de não estar
a liberdade de não ser lembrança
há paz no sumiço
 
eu amo o modo avião
feitiço contra o mundo
manto invisível de ruído branco

eu amo fazer o que eu quero
mesmo que o querer doa
mesmo que seja só o desejo
de não desejar nada
e isso é revolução

eu me apaixono mas me afasto por medo
o amor é uma frequência perigosa
às vezes vibra tão alto
que pode estilhaçar o peito

eu amo ser namorada
antes mesmo de namorar
ensaiar o toque
onde nada dói e tudo promete

eu sempre sumo
quando algo me incomoda
sinal de fumaça na ventania
rota de fuga sináptica

eu amo dormir
acessar o vazio
criar sonhos
e vivê-los no tempo certo

eu amo amar
mesmo quando só ressonância
um sorriso que ainda escuto de olhos fechados
mesmo quando as ondas cessam
e tudo o que resta é nuvem

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

recortes fantasmas

aquilo que é esquecido
se repete

e agora
você lê
está aqui
o momento presente

desliguei o motor
mas deixei as luzes acesas
a bateria morreu completamente

o que deveria ser uma viagem linda
com belas paisagens
virou travessia ansiosa
lágrimas sobre decisões de vida
e belas paisagens

quando as coisas apertam
é bom estar com alguém 
pra transformar em chacota

sozinho o erro mais simples
parece o fim do mundo
mas não é

um dia após o outro e uma noite no meio

véu não é muro
é convite
a hora mais escura da madrugada
é sempre prelúdio do nascer do sol
é do breu que o brilho se alimenta

qualquer coisa eu quero dividir contigo
tem como não po
é felicidade pura
em forma de som, batida, ritmo

a todo instante tu ta aqui
cada vez mais em forma de nuvem
alguém me disse pra soltar
mas eu firmemente disse:
não.

te agarrei pelas falanges do mindinho
depois entrelacei nossos depois
nos lancei em direções opostas
num abraço apertado
os braços deram volta completa
e só acharam fumaça

me abracei com força
balancei para me equilibrar
enraizei para alcançar o céu
e minhas raízes aéreas
se juntarem às terrenas

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

corre doido

a bárbarie tá na moda
desfila nas vitrines do ego
reaproveita o colapso
como performance

acabou a brincadeira
poesia virou pele e calor
o corpo propaganda
restou o fosco das cinzas
refletido em telas brancas

ele não é louco ele tá me vendo
não acredite em mágica
o feitiço é presença
pura, elétrica, impossível

então corre doido
corre que o bicho vai pegar
o agora é foda
morde sem deixar marca
morde e não solta

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

na madrugada do terceiro dia

quem abraça muito aperta pouco
mas tu me apertou sem nem me abraçar

volte a tona
o que não é benção é missão
o que não floresce, ensina
prepare o solo, regue, cuide e confie

salve um porquinho

agradece por todo aprendizado
amor, calor e vida
todos os nossos ontens
até um novo carnaval

vê que massa

eu sinto muito
mas parei de registrar
as coisas que queria te mostrar

to me entregando à possibilidade de esquecer
de perder o dom da indexação
de não te chamar mais pra dizer
"vê que massa"

sei lá
acho que era isso que eu gostava também
reunir os achados do caminho
e te oferecer o que brilhava mais

demorou um tanto
mas finalmente tá fazendo sentido
não fazer sentido

tem um triturador nas minhas entranhas
moendo o que restou
torcendo e cuspindo tudo
sangue, plasma e saliva
tudo misturado com imagem e som

acho que é meu corpo fazendo birra
chamando a mente pra dentro
fazer o feitiço do agora

calma aí, coração
se não jaja eu morro
e você nem me aproveitou

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

frequência residual

saí agradecendo todo mundo
obrigado mainha
obrigado vovó
obrigado flor
obrigado violeta
obrigado todo mundo
obrigado minha gente

uma oferenda pra cada
cada lembrança uma saudação
os olhos ardendo
querendo escorrer

aí os grave suingado
quente, firme e sensual
melodia brega tech house
conduzindo o corpo agarrado
mente solta mas em transe

vi nossa tela uma obra de arte
luz dourada do por do sol
olhávamos em direções opostas
mas pro mesmo lugar
queria morar naquele quadro

tentei com força lavar o véu
pensei em ir por um momento
até tirar você do pensamento
eu acho que foi tudo em vão

instalada em frequências inaudíveis
entre o mais grave e o silêncio
onde o corpo ainda dança
mesmo quando a festa acabou

eu sei que tem outro
bote outro aí, vá

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

epidemia de miopia

lembrar sempre de olhar o horizonte
ajuda a combater miopia
parar de só focar perto
tirar o cabresto dos olhos

tem vida lá na frente
onde o olhar se perde
e a mente se expande

a perspectiva importa
abrir espaço pra pensar
ter espaço pra respirar

lembra de olhar no horizonte
pelo menos de vez em quando 
pra não sufocar

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

seasonal affective disorder

frente fria com lua nova
o volume das águas insuportável
a terra encharcada sufoca o peito
marés imensas, densas, em correnteza

silêncio e recolhimento
nas profundezas da própria loucura
pra não se afogar
deixar que as águas limpem o que está preso

a inveja é um feitiço
o inimigo mora em casa
onde termina a crença
e começa o delírio?

ainda te quero
mas descobri finalmente
que me quero um pouco mais

é hora de fazer acontecer
e parar de ver acontecendo
você quer ser feliz
ou quer ter razão?

þetta reddast
vai dar tudo certo
de algum jeito

depois da frente fria
o céu sempre se abre

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

sopro de paciência

nunca mais passei na tua rua
nem vi a paciência surgir do alto
uma baleia calma de tantas toneladas

o peso de duas pessoas
que escolhem não se ouvir
capaz de afundar navios

no fundo, a voz não chega
quem muito cala
uma hora desaprende a dizer

é preciso transformar essa tonelagem
em maracatu, dança e marcha
pra que o peso abissal não esmague

sonho lúcido

tava numa casa bonita
com cheiro de madeira e sereno
alguém comigo ao meu lado

ela tava com piercings na perna
algo cyberpunk, robótico
um brilho frio no lugar da carne

acho que materializei ela
sem querer, chamei e veio
não tava ali, mas também não era sonho

sorria, me olhava
talvez tenha dito alguma coisa
que no torpor onírico nem percebi

mas os botões metálicos estavam lá
onde deveria ter pele e tinta preta
chamei e veio, mas a que custo?

arrudiando

choveu na minha cabeça por meses
não deu pra ver no meio da tempestade
mas as raízes afundavam em silêncio
e agora, olha essas flores

a carne que sente
também é a que sustenta
tronco que dobra
mas enraizado não morre

o desejo vive no impossível
o amor, nas ruínas
ambos teimosos

tô precisando chorar
soltar quem tá preso
olhar a saudade de frente
e chorar o meu jardim

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

dengo, drogas e devoção

tô querendo
e não tô sabendo pedir
deitado na rede
como se nas nuvens
tivesse quintal

bolei uma flor
numa pétala de rosas
bolei bem pra carai
vou fumar aqui mesmo
fumaça virou reza
no formato de água viva

oi, amor, confirma pra mim
se ainda me quer?
to precisando de muito dengo
droga pesadíssima
e ainda sobra espaço na cama
pra mais um sonho descalço

comer faz a vida prestar
dar faz a vida brilhar
e o resto é só esse intervalo
entre um trago e outro

peguei uma pedra branca
e risquei uma árvore com tuas letras
a última virou triângulo
cortando um coração que já existia

terça-feira, 14 de outubro de 2025

estética do inacabamento

a mais bela surgiu
ardendo em cores quentes
como de costume

as ladeiras eram labirintos
e cada pedra guardava
a memória de outros passos
outras histórias
retratos fantasmas

havia uma única presença
fio tênue que segurava o mundo
delicada âncora
entre o delírio e a performance

em algum lugar
da misericórdia até a fé
um sobrado antigo
onde as paredes sussuravam
o murmúrio de séculos

ali o tempo estancou
depois se lançou impetuoso
em todas as direções
inundando expectativas

do vórtice surgiu uma sombra
desenhada às pressas
uma ameaça
afastei-a uma, duas
incontáveis vezes

era a própria insistência
o corpo voltava
sempre renascido do vazio
quanto mais eu a derrubava
mais se reerguia
um espectro condenado a repetir

antes de tudo se dissolver
percebi
não há vitória possível
só a certeza
de que nada está resolvido

do caos ainda nasce
alguma forma de beleza
o eterno retorno para canto nenhum
deixa mal resolvido mesmo

a hora da apartação

como devo aconselhá-lo?
você tomou um caminho que não pude seguir
não com minha cabeça
certamente não com meu coração

agora está tão longe
que minha voz não chega mais
e mesmo se chegasse
você me ouviria
quando eu dissesse
"volte"?

não o fez antes
não faria hoje
muita coisa não pode ser desfeita
há peso demais no que já foi dito

você é responsável por muita coisa
apenas aceite
e siga em frente

a cabeça permaneceu
abaixada entre as mãos
o belo vidro ia acabar estourando 
já o perdeu
coração mole e crânio de aço

quanta teimosia um homem é capaz de reunir
para conseguir o que deseja?
teria roubado do jardim sagrado
se necessário fosse
e ainda chamaria de destino

mas a verdade é que
um corpo que sabe morrer bem
saberá viver bem
nem todo fim é tragédia
alguns são apenas portais
que se fecham devagar

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

resolução ascendente lunar venusiana

não adianta
ideias são à prova de bala
sentimentos à prova de razão

o que você procura
não está atrás 
tá à frente
ou acima

o céu mexe com a gente
e ela ainda mexe comigo

você é o que você repete
rotina que te reza
luz no horizonte
o sol voltou

ascendente em escorpião
dança em volta do fogo
lambe o próprio veneno
se afoga de prazer sob as águas
e na terra se esconde

lua em capricórnio
lança luz sobre a selva
vigia o caos com olhos de pedra
precisa dormir pra não sentir demais
pequenos rituais seguram a mente na carne

vênus em libra
derrama teu amor como ácido
me fere, me risca, me queima
me fode e depois some
tu sabe que já me dominou
o céu fechou novamente

eu já vou me levantar
pra mim não tá tudo bem
mas eu consigo viver sem
eu já to me levantando

ainda te espero
no mesmo banco de praça
na hora que o saguim vem conversar
e os pássaros cantam teu nome

eu queria tanto viver contigo
o meu futuro
e na encruzilhada
onde deixei letras e tu, cristais

será que já floresceu no deserto?

domingo, 12 de outubro de 2025

último trago antes do silêncio

delírio, refúgio, ficção

luto pelo que ainda está vivo
mas já virou fantasma

construindo uma fantasia na cabeça
porque a realidade não dá conta
daquilo que inventei pra ela

não sei mais aproveitar
as pessoas que me amam
não consigo atravessar o vidro
entre o gesto e o toque

o que sinto falta não existe mais
então sigo em frente
mas pra onde?

como é que não fuma?
inversamente proporcional
à intensidade do sonhar
tenebrosa sensação
no fim

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

caos cromático

vidro quebrado não cola
quando não há o que fazer, você chora
talvez não seja nesta vida
mas você ainda vai ser minha vida

ora ora ora
se não são as consequências
das minhas próprias escolhas
mas carai, até quando, hein?

que horas o sol volta?
rodeado de pedras
na janela gradeada
posso sair pela porta da frente
a dos fundos não tem nem tranca

mas tem outra coisa me segurando
tô sentindo indo embora
mas porra, tá demorando
amarelo e vermelho, cadê o verde?

quando um num quer dois num ama
a razão não tá dando resposta
ou tá desligada
só resta confiar no invisível extraordinário

caminho das águas

tô escrevendo pra deixar pra trás
e com unhas e dentes
tô deixando pra frente
vaivém das marés

aceito a derrota
desisto dessa demanda que me afunda
me permito seguir sem desculpas

amor ancestral
toda lua cheia ainda lembra teu rosto
pálido, distante, refletido na água

que nossos caminhos se abram
como um maceió entre ondas
que o que foi nó se dissolva em sal

que a gente encontre amor
e que esse amor nos encontre de volta
nas pequenas ressacas, nos breves silêncios
que a felicidade seja corrente

vela acesa no coração e a lua cheia no céu
que ambas nos guiem
nos refaçam
nos reconciliem com o que fomos e o que ainda podemos ser

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

a vida tá acontecendo

eu também não vejo mais  
que merda, véi  
não consigo mais nem imaginar
ficou muito distante

eu vi chegar faz tempo  
vi, nomeei, olhei de frente e arrisquei
vi o abismo e dei um passo à frente
se eu pular, você pula? kkk  
tá bom, né  

caí sozinho, de cara no chão  
levantei e tropecei numa raiz
me enlaçou no tornozelo
me puxou de volta
tô com a cara enterrada de novo 

perdi o sentido das coisas
cima, baixo, frente, trás
passado, futuro, presente
tudo gira igual

então fico aqui nesse jardim
tentando fazer o máximo do mínimo  
mantendo o corpo em rotação
pelo menos
pra não parar de girar a manivela

mantra psicotrópico ao anjo do delírio

santo anjo do torpor
cura o que não tem nome
meu delírio guardador
acalma o que pulsa e me consome

me visita à meia-luz febril
desamarra a carne
destranca o sonho
arranca esse espinho

se a mim te confiou a saudade como sina
faz dela jardim colorido
com amor e verdade
sempre me transforme
mesmo que ainda sem rosto

com honra e dignidade
me devolve o sopro
mesmo louco

me refaz
me alucine
e, quando nada restar
me desgoverne

amém

terça-feira, 7 de outubro de 2025

cortinas de fumaça

queria ter chegado mais cedo
ido embora mais tarde
te dado minha chave
e pedido pra tu ficar
queria ter ido embora contigo
ou talvez não ter ido embora

queria ter pra onde voltar
ter dito que te amava quando era verdade
ter te ouvido antes
ter te tido depois

queria ter sabido desde o princípio
que o ensaio não se repete

o não-voo

faz mais de um mês que carrego uma dor no trapézio direito
dizem que é estresse e ansiedade
mas parece que cortaram na carne

onde antes era asa, agora há um ponto de tensão
um nó cego
a lembrança do voo ainda latejante

já fiz de tudo pra parar de sentir
alongamento, yoga, compressa quente, compressa fria
massagem, ventosa
nada consegue desamarrar

num esforço desesperado acendi uma vela de sete dias
e deixei um bilhetinho embaixo
um pedido, uma oração, um suspiro

no início queimou tímida mas constante
nos últimos dias estava deformada
desfigurada, obedecendo outro sentido
não se via mais vela nem farol

a chama inclinava-se sobre o bilhete
roendo-o com paciência escassa
quando a cera derreteu por completo
o papel incendiou, a vela virou fogueira doce
e o ar cheirava a promessa queimada

precisei apagar por segurança
agora resta a cera derretida sobre cinzas
chão queimado e o eco do que foi dito

as palavras, antes pedidas
viraram fumaça preta no ar
e talvez tenham sido ouvidas



revolução da arte

cheguei em casa à milhão!
quase que eu não conversava contigo

e olhe que eu achava que seria não só necessário como fundamental
que se não fosse dessa forma
não seria de nenhuma outra

fiz menção de iniciar uma conversa contigo umas três vezes, bota fé?
e tá ligado que seria um papo super merda, né?
uma coisa tão alienante e exploratória quanto um checklist
eu ia pura e simplesmente lhe usar
esse era o fundamento

mas vê como as coisas são
eu fui repetindo uma ideia fixa na cabeça
que era inicialmente um dos itens da lista que eu não escrevi
eu repetia pra não esquecer
que nem um mantra
enquanto fazia outras coisas que estavam no caminho

descascar a banana
bater a vitamina
botar roupa pra lavar
fazer chá, etc

a todo momento eu fazia aquela última coisa
antes de sentar pra escrever
e, sem perceber
era isso que eu já estava fazendo

Marília

gosto profundamente desse nome
me veio imediatamente duas pessoas
não conheço nenhuma delas

uma parecia ser uma grande amiga
da minha mais querida professora
a mestra, como ela a chamava

a outra é tão distante que nem sei
mas é linda e isso me basta
lealdade, sabedoria e beleza
especialmente de alma
e ela certamente tem

vai dar certo
eu quero, eu posso, eu confio
eu vou

Fronteiras do ser

nem lá, nem cá
ele se esforça, é um bom sujeito
mas ainda não chegou lá
(nem está verdadeiramente cá)

está no meio do tiroteio
na linha do tiro
pronto pra morrer
vivendo no limite

quando pensa que tá chegando lá
é quando se sente mais preso
mais estagnado, mais retrógrado
é chato ser careta, não quero

ainda tem umas roupinhas pra estender
se tem um aprendizado
é que movimento gera movimento
e o contrário é lamentavelmente verdadeiro

então pelo menos
mantenha-se dançando no fio da navalha
nas fronteiras do ser
siga sendo

a morte, o diabo, o enforcado, a torre e o louco

[a morte]
to vindo aqui porque já não sei mais para onde ir
fui deitar cedo, pelo menos o sono ainda era refúgio
hoje não

[o diabo]
habitar esse corpo ta sendo custoso demais
oscila entre a esperança vã
e a agonia desmedida

[o enforcado]
dói em todos os lugares
uma dor específica, íntima, inventada
ver virar outra coisa
irreconhecível
em tão pouco tempo


[a torre]
tudo tão volátil
borbulhando, efervescendo, em erupção
a luz apagando, quase sem energia
a mente ainda ligada
a ventoinha não para de girar
o motor superaquecido


[o louco]
preciso urgentemente de uma oficina
preferencialmente do diabo
pois queria minha mente vazia

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

sonho crateroso

cortaram minhas asas
rastejei por semanas e meses
até que, aos poucos
elas nasceram outra vez
fendas dando lugar a um colorido novo

quando arrisquei os primeiros voos
vieram de novo com a faca velada
eu sabia do risco
era mais arriscado que um rasante no desconhecido 
mas fui por devaneio entorpecente 

vi minhas penas arrancadas uma a uma 
num gesto cotidiano 
dessa vez cortaram só uma asa
restando a outra deficiente 

recolhi cada pena
por devoção delirante 
remendei como pude
e me joguei no ar 

agora caio em parafuso 
perdi os pontos cardeais 
só um ponto suspenso, sem ligação 
não traça linha, nem indica direção 

espero ansioso pelo impacto 
temo que já tenha acontecido 
e que o parafuso esteja
apertado demais
e minha cabeça em parafuso
enterrada demais

terça-feira, 30 de setembro de 2025

espiritualidade pragmática #2

eu lia mais do que escrevia
esperando o mundo falar primeiro
e só depois arriscar a própria voz

coincidência
truque de apagar a autoria dos acontecimentos
como se o acaso fosse inocente
e não apenas um véu
sobre a mão invisível das escolhas

a gente se encontrou
porque andava na mesma direção
os passos, por instantes
tinham o mesmo compasso
mas depois, como rios caudalosos
tomamos margens distintas
e a distância se fez correnteza

escolho o acaso e invento o destino
me conecto pela fala
testo, roço, atravesso
até encontrar confluência
quando encontro
arrodeio o território familiar
e celebro a diferença
como quem transforma fratura em fractal
divergência em diversidade

no fim, é preciso saber a hora parar de escrever
ainda sigo lendo
nos olhos, nas pausas
nos silêncios que também são texto

até breve

tem uma rainha-sereia em itamaracá
dançando entre a despedida e o encontro
canta que toda partida é promessa
quero morar contigo entre as carmelitas
ter uma cria de sóis e girassóis
viver entre o amaro branco e o rio doce
fazendo oferenda no pontal de maria farinha
onde as águas se confundem
doce se torna sal, sal vira reza
o movimento é eterno

ontem é cicatriz,
amanhã, um mistério escondido no mangue
e o hoje, chama breve
arde em nossas mãos como oferenda

o nome dela é o mais bonito do sistema solar

fui atravessado pelo meu bem
punhal no meio do peito
coração que virou bainha
segurei pela empunhadura
e enterrei mais fundo
me afogando no rio vermelho

a dor se fez centro do universo
não há como sair são e salvo
o mais grave é que o sol insiste em nascer
a visão do paraíso num mundo distante

o mais grave é que tudo foi legítimo
houve justiça em cada gesto
sem teatro, sem disfarce
o ressentimento não será fuga
a lâmina não apagou a chama
arde mesmo sem combustível

o amor, a verdade e o sentir
seguem sendo o único caminho
mesmo que queimem como fogo
mesmo que iluminem até a cegueira

ainda bem
hoje está chovendo copiosamente