segunda-feira, 2 de junho de 2025

E-mail programado para eternidade

Tem cartas que não foram feitas para chegar. São escritas como se fossem bilhetes esquecidos ao vento, rabiscos deixados na mesa da alma para que o tempo leve — ou ao menos alivie.

Hoje escrevo uma dessas.

Escrevo mesmo sabendo que não vai ler. Mesmo sabendo que talvez não queira, talvez não devesse. Mas escrevo. Porque precisei encontrar uma forma de me despedir. A palavra, mesmo muda, ainda é a minha maneira de tocar sem invadir.

Escrevo da saudade do que parecia pequeno: a respiração funda quando o mundo pesava, o murmúrio quase inaudível, a cabeça que caía nos ombros quando a tristeza pousava sem pedir licença. Coisas que ninguém mais notava, mas que pra mim diziam tudo.

O olhar dela profundo que me atravessou desde o primeiro dia. Esse olhar, que um dia me enxergou, agora me foge. E talvez seja justo. Talvez seja assim que os finais acontecem: sem escândalo, só silêncio.

O que vivemos. Disfarçado, adiado, remendado. Foi o mais intenso. Curioso como só se tornou claro no fim, quando a palavra já era sombra.

Sinto muito por precisar escrever isso. Por não ter conseguido dizer antes. Por ainda estar aqui, sem estar mais.

Eu sigo com a saudade — do cheiro, do som, do toque, da palavra, do silêncio, da presença e da ausência.

Isso é o que restou: uma crônica para ninguém. Ou, talvez, uma forma de existir um pouco além da dor.

E então, com delicadeza, encerro.

Sem resposta, sem retorno.

Só um suspiro.

E um adeus.

domingo, 1 de junho de 2025

Movimento incensante

Mo meio da pista. Entre graves, luzes e corpos em trânsito, atravessado por uma revelação que não coube mais em silêncio. A pista de dança virou solo sagrado, templo do agora, altar dos meus processos. O corpo, ao mover, abrindo frestas de memória, escorrendo liquefeitas palavras, cores, sons, corpos inteiros.

Sozinho, cercado, percebi que era rito. Um ritual de passagem. Ali, a dança e o tempo se dissolvem no som, cada batida me empurrando mais fundo na escuta de mim mesmo.

As cartas em que me fiei falavam de um futuro que não veio. Parece que ficou faltando.
 Eu não ia embora, mas feri todo mundo de morte. Lia as cartas fazendo toda força pro corpo fazer o que não queria.

A correria, a intensidade, os ditos e não ditos, a revelação. O fim. Os dias que se seguiram. Intermináveis. Silênciosos. Não sabia o que fazer, não havia nada a fazer. Um fim do mundo a cada dia da semana.

A volta se imaginando salvadora, a correria pra lá. Quase sem escrúpulos. Louca. Sem propósito. Desesperada. Porta fechada. Vá embora. Não olhe pra trás. Vou embora. Mas deixo a fresta da porta aberta e fico tentando respirar o ar que circulava antes.

No fim, me jogo na pista. Expresso, atento, na pista. Fiado à esperança. Não sei que tipo de processo é esse, mas das coisas que amava: as cores quentes. Acho que posso encerrar com essa lembrança. As cores quentes.

Porque no fim, ainda que ninguém leia mais nada, sigo escrevendo. No silêncio das entrelinhas. O corpo na pista e a alma no pretérito, sem parar, pago com o movimento incessante.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Murmúrio

Há um som que não se ouve com os ouvidos e que faz o olhar tombar.
É um som que se recolhe entre silêncios,
feito maré mansa,
feito tempo que para — só pra lembrar que existe.

Não era uma palavra, nem um nome, nem um pedido.
Era só um “mmm” baixo, enrolado em suspiro,
como se o mundo inteiro coubesse ali,
na dobra de um abraço onde a cabeça pousa e os olhos desistem de lutar.

Tenho saudade desse murmúrio.

Saudade do som que vinha depois do toque,
do corpo que cedia não por fraqueza, mas por paz.
Do instante em que o peito virava abrigo
e o som que escapava não queria ser entendido — só sentido.

Era um som de estar.
De estar junto.
De estar dentro do tempo do outro.
De se encaixar no compasso da respiração alheia.

No murmúrio, lia promessas que nunca foram ditas, mas estavam todas ali.

Hoje o mundo fala alto demais.
Às vezes, na fresta entre um sonho e outro,
eu ainda ouço aquele murmúrio baixo de satisfação,
vindo de um tempo onde para ouvir o mar
era só encostar a cabeça no peito de alguém e descansar inteiro.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

desejo e contenção ou pretérito mais que imperfeito

Há uma vontade que pulsa do peito até a garganta, querendo acontecer. É potente  mais potente que tudo que já vivi  e ao mesmo tempo discreta, gentil e quase invisível. Um fio de voz, uma batida de asas no escuro.

Mas às vezes, até o menor dos gestos pode ser insuportável para quem ainda está sangrando. 

Eu, um mensageiro com a carta na mão, parado diante da porta fechada. Não que ela esteja trancada — ela apenas pediu para não ser aberta. E mesmo assim, minha mão trêmula com a vontade de girar a maçaneta.

Não para invadir, para oferecer. Sem retorno algum. Um par de mãos silenciosas que chegam, fazem o que precisa ser feito e partem antes de qualquer desconforto. Uma presença sussurrada que diz: "Se você precisar, estou aqui. Se não, eu sei ir embora em silêncio."

Em vez disso, sentei no chão do corredor e abri o envelope só para mim. Lia o que eu mesmo havia escrito, como quem tenta descobrir se, entre as palavras, ainda morava algum gesto que não machucasse.

Lia com a mesma presença com que ela me olhava quando me ouvia — atenta, como se escutasse com os olhos; inteira, como se cada palavra merecesse espaço para respirar dentro dela. E ali, entre linhas que ninguém mais leria, eu a encontrei.

Encontrei-a repousando entre as palavras como uma flor prensada entre as páginas de um livro antigo. Uma flor densa de cheiro e calor; úmida, viva. Daquelas que a gente acende devagar, sentindo o corpo dissolver em riso e pele, numa névoa onde tudo pulsa e desabrocha. Lia, e era como se, por um breve instante, ela também me lesse de volta — entre fumaças do pretérito mais que imperfeito, entre silêncios que sabiam mais do que qualquer palavra.

E percebi que mesmo sem tocar a maçaneta, eu havia entrado — não na casa dela, mas no que ela havia deixado aqui. E um dia, talvez, a porta se abra novamente. E então, se for o tempo certo, eu estarei ali — com as mãos ainda cheias de silêncio.

domingo, 25 de maio de 2025

Ressonância ~modo avião

Eu era som.
Frequência viva, vibrando na pele e na alma.
Ela ouvia profundamente — com os olhos enormes.

Fomos música, marcha e folia.
Explosão de harmonia, êxtase de bala no carnaval de Olinda.
Uma energia infinita.
Na margem do caos, soleira de uma casa colorida.

Como num passe de estupidez:
Modo avião.
E a melodia, sem ter sinal, melancolia.
Tocou silêncio em todos clarins.
Virou ruído branco no espaço profundo.
Eco.

Mas consigo escutar de olhos fechados.
E mesmo que eu não consiga vê-la posso ouvir seu sorriso.
Ainda ressoando.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Tubarão cabeça-chata

Eu sou um tubarão acuado, sem coragem, perdido no fundo do oceano. Meus companheiros, tubarões também, me observam na expectativa de me ver caçando. Estão à espreita, nadando de forma síncrona, como se para formar um fluxo para cima e me tirar do fundo escuro. O fundo é a proteção. Ninguém me vê e sem luz própria eu consigo ver mais longe.

Meus companheiros olham mas não me veem. Como poderiam se eu estou me escondendo? Eles estão à espreita e querem me ver sair para me adorar.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Um e-mail para tia Lourdinha

Boa tarde, Tia Lourdinha! Tudo bem?

Olhe, como sempre peço nesses momentos que atraso para responder ou dar notícias, mais uma vez te peço desculpas mas ao mesmo tempo compreensão :)

Ponho um sorriso virtual para tentar amenizar um clima que vem se construindo há alguns anos; a ideologia do ódio tem sido hegemônica e nos atacado de diversas formas. O coronavírus e Bolsonaro não passam de sintomas, pois estamos doentes e adoecendo quem nos cerca.

Esse final de semana está sendo especialmente difícil e melancólico: é feriado de Carnaval. A senhora, boa pernambucana, conhece a quantidade de energia que é intencionada e vivenciada nesses dias de folia. Uma energia tamanha e ao mesmo tempo histórica-ancestral que reverbera, ecoa no tempo-espaço e nos atinge de forma fenomenal. Ontem, sábado de Zé Pereira, foi certamente o dia mais triste do ano; hoje, uma hora dessas, estaria esperando Elefante sair junto um mar de gente e avistando o pôr do sol que só rola nos finais de tarde, em Olinda, no Carnaval - preferencialmente nas ruas de Guadalupe.

Eu estou tão triste quanto poderia estar. Não parece fazer sentido em palavras, mas a felicidade também está presente, pelo simples fato de poder sentir isso tudo, por estar vivo.

Vovó Risoleta e vovô Petrônio já tomaram a primeira dose da vacina, assim como vovó Zélia - mãe de painho. Espero que a senhora também já tenha tomado ao menos a primeira dose e que possamos vislumbrar uma luz no fim do túnel dessa jornada que já se arrasta há tempo demais.

Um beijo,

Do seu sobrinho,

Filipe


P.S.: Envio uma foto para a senhora ver o tamanho do meu cabelo como está grande! Vovô ainda não aceitou rsrs

P.S.2: As fotos na praia são na Paraíba; menos a do por do sol em que estou de ponta cabeça, essa é no Rio Grande do Norte