quarta-feira, 11 de junho de 2025

O que fazer? Problemas cadentes dos nossos afetos

Não to aguentando mais. Tenho que soltar. Eu quero soltar. Engulo seco. Mas quero. Porque não dá mais. Tá doendo, já paralisado. Apavorado, trêmulo.

Não tem o que fazer.

O que tem que fazer é o que tem que ser feito.

Dormir. Comer. Trabalhar. Economizar tempo e energia. Treinar, correr, pedalar. Ir pra praia no final de semana. Ficar em silêncio. Ler. Ler pra lembrar. Conhecer pessoas, fazer amigos. Falar, ouvir. Ouvir, ouvir. 

Ver, ler, escrever. Ler pra esquecer. Esquecer pra lembrar. Viajar, conhecer lugares novos, se desafiar. Morrer e nascer de novo. Fazer vidas felizes. Permitir entristecer. Encerrar. Começar. Amar. Ler e ler o mundo.

Dar, receber, cuidar. Oferecer, agradecer e amar. Ler. Ler a si. Tomar banho de rio. Ir pra longe, voltar pra perto. Honrar os encontros, lamentar as despedidas. Contar histórias, ouvir fantasias. Desejar, se despedir, suprir. Compartilhar, descobrir, compreender, perdoar. Confiar, insistir, respeitar. Ler. Ler o que nunca foi dito.

Acertar. Errar. Ser humano. Ler. Ler e reler. Ler todos os sinais. Ler os dias. Ler os gestos, os desvios, as pausas. Ler até que tudo faça sentido ou até não fazer nunca mais. Ler o passado, o presente e o futuro. Ler no pretérito imperfeito. Ler e decifrar. Ler e, finalmente, soltar. Saltar.

terça-feira, 10 de junho de 2025

Roteiro de uma lunação

Acordei como fui dormir. Igual aos últimos 30 dias e noites. Parecia que eu ia reunir nas galáxias, depois da supernova. Ao lado do buraco negro, num céu de uma estrela só.

Não sei o que vim fazer aqui. Minhas mãos simplesmente abriram as portas e meus pés caminharam. Eu perguntei se deveria sair e recebi uma resposta dúbia. Pensei se seria necessário, perguntei o que poderia fazer. Inconcluso.

Saí sem rumo, mas com os passos quase milimetricamente definidos. Pra mais perto, sempre. Adiante. Sem preparo pra nada, mas esperando tudo. Pior dos cenários. Desilusão.

Tô há muitos dias revivendo o mesmo dia. A barreira implacável que se levantou com poucas palavras, o cristal delicado de confiança que foi despedaçado estupidamente. Ditos e não-ditos, despejados numa turbina que triturava tudo. Eu e você, e o mundo. Ruído, moído e despedaçado.

Correria. Desespero. Morte.

A lua estava prestes a se encher de veneno. Subterrâneo, visceral, alquímico, letal. Cada raio de luz era uma agulha tatuando fundo na pele tudo que não foi falado esse tempo todo. Depois, tudo foi minguando. Primeiro as palavras, depois o calor. Veio o silêncio frio, úmido e desolador de quem está na tempestade no meio da rua alagada. Tudo escorrendo, invisível, irreversível. Afogando aos poucos quem não teve onde se abrigar.

Depois, céu escuro. Sem pergunta, nem resposta. Quase apagado depois de me consumir inteiro. A última brasa, ainda insistente, soterrada por tanta cinza. Só silêncio e a lembrança do brilho que já foi. Me confundi com a noite no meio de um mar de estrelas. Ou seria um deserto de grãos de areia? No horizonte de eventos a ordem cai em devaneios e se curva ao caos.

Crescendo, a maré anunciava um novo ciclo. Aos poucos, a onda que queria me afogar me colocou na pista. Presente. Bruxuleante. Os gestos tortos, arados, desajeitados. Vivo. Via valor no processo, mesmo afiado a promessas. Não romantize o caos, celebrai-o.

Então, tô aqui novamente no parque de diversões dos corações partidos. Tentando pôr ordem no caos. Varrendo cacos de vidro com as mãos dilaceradas, sujas de sangue. Limpando minha fronte, enxugando minha tez. Pintando tudo de bordô. Um rio vermelho de sangue em cada dedo. Muito tarde pra pedir desculpas. Muito tarde pra dizer que te amo. Muito tarde para reencenarmos essa peça. Muito tarde pra tentar outra rodada nesse jogo de azar.

domingo, 8 de junho de 2025

Ode à indexação

Um brilho eterno de uma mente sem lembranças assim que eu abrir qualquer feed ou pesquisar e ler no pretérito mais que imperfeito. Pra lembrar não basta guardar, o usuário pode não ser encontrado. Tem que criar seu próprio processo antes, seu próprio sistema.

Sistema-lógico-afetivo. Tem razão na emoção? Acho que talvez um caminho onde a gente escolhe o que enfatizar e enraizar, e o que esquecer e sumir. Pra sobreviver sem se perder. Confia no processo. Confia no sistema-lógico-afetivo que você estabeleceu pra si. É preciso estar atento e forte afinal.

Atento ao processo, atento ao sistema, atento aos seus fundamentos. Porque a técnica não é isenta, nem neutra. Podemos nos apropriar de qualquer instrumento se pá, mas no mínimo atentos aos seus fundamentos e objetivos de criação.

E forte pra segurar essa onda e não se afogar. Forte pra (se)construir, (se)destruir, (se)reconstruir. Porque o que não muda é que tudo muda, então vários cenários imprevisíveis. O previsível é onde você escolhe agir, mas sem expectativas.

A parte do lógico pode ficar à cargo do próprio sistema. A parte do afetivo tem que ter criação, criatividade, ousadia, presença e arte. Arte como ato livre de se revelar e se preservar. Tem que ser seu, mesmo que não saiba pra onde. Faz isso. E confia no processo. Insiste com dignidade o seu próprio processo. É uma questão de crença também. Faz parte dessa tecnologia.

E se o corpo é máquina viva, a mente é seu banco de dados. É preciso indexar, porque são muitas linhas. Nem brilho eterno, nem sem lembranças. Estão lá, guardadas com nome, cheiro, som e arte. A arte que transforma lembrança em linguagem, indexação afetiva. Atravessando, traduzindo e honrando a nossa história. Enfim livre.

Com arte, finalmente, bem indexadas no seu sistema-lógico-afetivo. Pra acessar quando quiser. Pra deixar em paz quando não puder. Pode descansar e soltar. E, ao fechar os olhos, quando a saudade for te procurar, não importa a hora nem lugar, escuta e deixa ir.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

E-mail programado para eternidade

Tem cartas que não foram feitas para chegar. São escritas como se fossem bilhetes esquecidos ao vento, rabiscos deixados na mesa da alma para que o tempo leve — ou ao menos alivie.

Hoje escrevo uma dessas.

Escrevo mesmo sabendo que não vai ler. Mesmo sabendo que talvez não queira, talvez não devesse. Mas escrevo. Porque precisei encontrar uma forma de me despedir. A palavra, mesmo muda, ainda é a minha maneira de tocar sem invadir.

Escrevo da saudade do que parecia pequeno: a respiração funda quando o mundo pesava, o murmúrio quase inaudível, a cabeça que caía nos ombros quando a tristeza pousava sem pedir licença. Coisas que ninguém mais notava, mas que pra mim diziam tudo.

O olhar dela profundo que me atravessou desde o primeiro dia. Esse olhar, que um dia me enxergou, agora me foge. E talvez seja justo. Talvez seja assim que os finais acontecem: sem escândalo, só silêncio.

O que vivemos. Disfarçado, adiado, remendado. Foi o mais intenso. Curioso como só se tornou claro no fim, quando a palavra já era sombra.

Sinto muito por precisar escrever isso. Por não ter conseguido dizer antes. Por ainda estar aqui, sem estar mais.

Eu sigo com a saudade — do cheiro, do som, do toque, da palavra, do silêncio, da presença e da ausência.

Isso é o que restou: uma crônica para ninguém. Ou, talvez, uma forma de existir um pouco além da dor.

E então, com delicadeza, encerro.

Sem resposta, sem retorno.

Só um suspiro.

E um adeus.

domingo, 1 de junho de 2025

Movimento incensante

Mo meio da pista. Entre graves, luzes e corpos em trânsito, atravessado por uma revelação que não coube mais em silêncio. A pista de dança virou solo sagrado, templo do agora, altar dos meus processos. O corpo, ao mover, abrindo frestas de memória, escorrendo liquefeitas palavras, cores, sons, corpos inteiros.

Sozinho, cercado, percebi que era rito. Um ritual de passagem. Ali, a dança e o tempo se dissolvem no som, cada batida me empurrando mais fundo na escuta de mim mesmo.

As cartas em que me fiei falavam de um futuro que não veio. Parece que ficou faltando.
 Eu não ia embora, mas feri todo mundo de morte. Lia as cartas fazendo toda força pro corpo fazer o que não queria.

A correria, a intensidade, os ditos e não ditos, a revelação. O fim. Os dias que se seguiram. Intermináveis. Silênciosos. Não sabia o que fazer, não havia nada a fazer. Um fim do mundo a cada dia da semana.

A volta se imaginando salvadora, a correria pra lá. Quase sem escrúpulos. Louca. Sem propósito. Desesperada. Porta fechada. Vá embora. Não olhe pra trás. Vou embora. Mas deixo a fresta da porta aberta e fico tentando respirar o ar que circulava antes.

No fim, me jogo na pista. Expresso, atento, na pista. Fiado à esperança. Não sei que tipo de processo é esse, mas das coisas que amava: as cores quentes. Acho que posso encerrar com essa lembrança. As cores quentes.

Porque no fim, ainda que ninguém leia mais nada, sigo escrevendo. No silêncio das entrelinhas. O corpo na pista e a alma no pretérito, sem parar, pago com o movimento incessante.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Murmúrio

Há um som que não se ouve com os ouvidos e que faz o olhar tombar.
É um som que se recolhe entre silêncios,
feito maré mansa,
feito tempo que para — só pra lembrar que existe.

Não era uma palavra, nem um nome, nem um pedido.
Era só um “mmm” baixo, enrolado em suspiro,
como se o mundo inteiro coubesse ali,
na dobra de um abraço onde a cabeça pousa e os olhos desistem de lutar.

Tenho saudade desse murmúrio.

Saudade do som que vinha depois do toque,
do corpo que cedia não por fraqueza, mas por paz.
Do instante em que o peito virava abrigo
e o som que escapava não queria ser entendido — só sentido.

Era um som de estar.
De estar junto.
De estar dentro do tempo do outro.
De se encaixar no compasso da respiração alheia.

No murmúrio, lia promessas que nunca foram ditas, mas estavam todas ali.

Hoje o mundo fala alto demais.
Às vezes, na fresta entre um sonho e outro,
eu ainda ouço aquele murmúrio baixo de satisfação,
vindo de um tempo onde para ouvir o mar
era só encostar a cabeça no peito de alguém e descansar inteiro.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

desejo e contenção ou pretérito mais que imperfeito

Há uma vontade que pulsa do peito até a garganta, querendo acontecer. É potente  mais potente que tudo que já vivi  e ao mesmo tempo discreta, gentil e quase invisível. Um fio de voz, uma batida de asas no escuro.

Mas às vezes, até o menor dos gestos pode ser insuportável para quem ainda está sangrando. 

Eu, um mensageiro com a carta na mão, parado diante da porta fechada. Não que ela esteja trancada — ela apenas pediu para não ser aberta. E mesmo assim, minha mão trêmula com a vontade de girar a maçaneta.

Não para invadir, para oferecer. Sem retorno algum. Um par de mãos silenciosas que chegam, fazem o que precisa ser feito e partem antes de qualquer desconforto. Uma presença sussurrada que diz: "Se você precisar, estou aqui. Se não, eu sei ir embora em silêncio."

Em vez disso, sentei no chão do corredor e abri o envelope só para mim. Lia o que eu mesmo havia escrito, como quem tenta descobrir se, entre as palavras, ainda morava algum gesto que não machucasse.

Lia com a mesma presença com que ela me olhava quando me ouvia — atenta, como se escutasse com os olhos; inteira, como se cada palavra merecesse espaço para respirar dentro dela. E ali, entre linhas que ninguém mais leria, eu a encontrei.

Encontrei-a repousando entre as palavras como uma flor prensada entre as páginas de um livro antigo. Uma flor densa de cheiro e calor; úmida, viva. Daquelas que a gente acende devagar, sentindo o corpo dissolver em riso e pele, numa névoa onde tudo pulsa e desabrocha. Lia, e era como se, por um breve instante, ela também me lesse de volta — entre fumaças do pretérito mais que imperfeito, entre silêncios que sabiam mais do que qualquer palavra.

E percebi que mesmo sem tocar a maçaneta, eu havia entrado — não na casa dela, mas no que ela havia deixado aqui. E um dia, talvez, a porta se abra novamente. E então, se for o tempo certo, eu estarei ali — com as mãos ainda cheias de silêncio.